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3.4 O Batuque do Glorioso São Joaquim Padroeiro do Quilombo do Cria-ú

3.4.2 A preparação da comida servida no Batuque

O Batuque de São Joaquim tem por tradição ser abastado, ou seja, com bastante comida31. A carne de gado é a base da alimentação servida no transcurso da festa e no ano de 2009 doze bois foram mortos para alimentarem as centenas de pessoas que participaram das celebrações. O cardápio a base de carne de gado e bovina precisa desde o momento da captura do boi, seguir alguns cuidados. Por exemplo, os bois e vacas doados por promesseiros (as) e comprados (as) pela

coordenação da festa, são capturados (as) dois dias antes do Batuque, para que o gado possa desestressar-se. Esse cuidado com o animal foi adotado porque acredita-se que a carne sendo consumida no dia em que o gado e o búfalo foram capturados pode causar desaranjos intestinais em quem consumi-la.

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O Batuque de São Joaquim faz parte de um conjunto de festas tradicionais, mapeadas e apoiadas pelo Governo do Estado do Amapá para manter a tradição local. Mas os recursos quase sempre são liberados com imenso atraso e cabe a coordenação da festa buscar crédito no comércio local para efetuar as compras necessárias para a totalidade das ações indispensáveis dentro do Batuque. O nome da comida servida no Batuque é o cozidão, feito com bastante verdura (couve flor, maxixe, batata, cenoura, repolho, gerimum, chuchu) e temperos variados (alho, pimenta e cominho, coloral, xicória, alfavaca, pimentinha verde, pimentão e sal)

Figura 22: Captura do boi para festa de São Joaquim. Fonte: Piedade Videira

A matança do boi inicia-se no sexto dia dos festejos as 07h00min. O abate e o corte dos animais fica por conta dos homens, enquanto as mulheres são encarregadas pela preparação e distribuição da carne cozida em forma de “cozidão”. A farinha de mandioca é o acompanhamento da alimentação e não pode faltar a mesa. Para conseguir organizar essa grande festa, vários grupos de trabalho são montadas para dinamizar os serviços. Essas equipes são fixas e no que se refere as mulheres, não há rotatividade entre elas para desempenharem os serviços na cozinha, por isso, precisam de bastante energia física e dão exemplos de fé e amor a São Joaquim que as fazem aguentar o grande volume de trabalho no transcurso da festa.

Figura 23: Coordenador geral do Batuque de São Joaquim e moradores da comunidade preparando o boi para a festa.

Fonte: Piedade Videira

Figura 24: Panelões com o cozidão. Fonte: Piedade Videira

Figura 25: Mulheres preparando as verduras para o cozidão.

Durante os dias de festejo a comida é distribuída gratuitamente às pessoas de dentro e de fora do Cria-ú. Os tocadores tem sempre uma mesa especial para alimentarem-se e compartilharem o café da manhã, o almoço e o jantar. Sempre guiados pelo “mestre-sala” que posiciona-se na cabeceira da mesa e fica aguardando que todos se alimentem e após terminarem, fazem juntos o sinal da cruz em agradecimento a comida recebida. Em seguida saem em fileira para lavarem as mãos e deixam o refeitório da mesma maneira. Depois do dever cumprido dispersam-se e retonam a suas casas e afazeres.

No último dia do Batuque de São Joaquim, encerrada a celebração da missa, são organizadas três fileiras de mesas com alimentos diversos para serem oferecidas aos partícipes da festa no café da manhã. Os petiscos vão do bolo caseiro, tapioquinha, mingau de milho, sucos de frutas diversos, chá, nescau com leite, refrigerante até as frutas: melancia, melão, banana, uva, maça, laranja e pêra que enfeitam com cores variadas as mesas e, causam expectativa nos que rezam dentro da igreja e observam de dentro da “sede do padroeiro” a movimentação das mulheres que arrumam as mesas com as deliciosas iguarias.

Uma das fileiras de mesas é destinada às crianças e adolescentes, outra para os adultos e uma terceira aos (as) idosos (as). Na mesa dos idosos são disponibilizadas cadeiras para que tomem assento. As crianças, adolescentes e os adultos utilizam as cadeiras e mesas a disposição na sede e sentam-se onde desejam dentro do espaço interno e externo da sede do santo.

Figura 26: Almoço no refeitório no dia do Batuque de São Joaquim. Fonte: Piedade Videira

Figura 27: Café da manhã no dia de São Joaquim –Mesa dos Adultos Fonte: Piedade Videira

Nesse mesmo dia é servido o “almoço dos inocentes” destinados as crianças que

participam dos festejos. As mulheres varrem a sede do santo e colocam os pratos em círculo no chão, depois posicionam as crianças menores junto com as maiores, com até doze anos, do lado de fora do círculo em direção a um dos pratos. Em seguida, as senhoras e moças servem uma criança de cada vez e todas recebem a medida de “um dedo” de vinho branco em copo descartável.

Figura 28: Almoço dos Inocentes Fonte: Piedade Videira - 2009.

No momento em que todos os inocentes estão servidos, são orientados pelas mulheres que podem começar a alimentar-se. Muitas caras feias são feitas na hora de tomar o vinho e algumas crianças não ingerem e deixam a bebeida no copo. Há um desconhecimento por parte da comunidade sobre o significado do vinho que é distribuído às crianças. O único argumento existente é que “desde que o finado Chico Marinho começou a realizar a festa era assim”, mas não revelou o porquê das partes que a compõe. Nesse sentido os criauenses estão seguindo o princípio de dar seguimento a tradição que receberam de seus antepassados.

No Dia do Descanço dentro do calendário do Batuque – dezesseis de agosto – só é

realizado o “festejo afroreligioso de elevação e descida da bandeira de São Joaquim”. A

bandeira do santo fica a “meio pau”,ou seja, na metade do mastro. Quem tiver alguma promessa a pagar a São Joaquim, eleva a bandeira até o topo do mastro e fica com a responsabilidade de ajudar a coordenação da festa a realizá-la no ano vindouro. O coordenador da festa, manda matar uma vaca ou boi para ser compartilhada entre as pessoas que se dedicaram e se esforçaram para a realização do Batuque do padroeiro São Joaquim.

Considero uma atitude louvável de seu Joaquim Carolina, reconhecer o esforço das pessoas que dedicam-se para a realização dessa tradição secular. Sem dúvida nenhuma, os (as) colaboradores (as) envolvidos (as) sentem-se valorizados (as) em seu esforço coletivo para que a festa de São Joaquim seja feita com sucesso. O fato de serem agraciados (as) com carne para ser compartilhada com suas famílias os (as) motiva a desdobrarem-se em cuidados com tal festejo.