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A presença da Escola Central na engenharia ferroviária

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 175-180)

3 A ESCOLA CENTRAL

4.2 A ESCOLA CENTRAL E SUA PARTICIPAÇÃO NA ENGENHARIA BRASILEIRA

4.2.1 A presença da Escola Central na engenharia ferroviária

Por ser um avanço tecnológico que na época o Brasil começava a dominar, coincidindo

com uma das principais reivindicações dos grandes produtores de café e, ao mesmo tempo, o

fato de ter um grande capital envolvido nesse tipo de empreendimento, foi na construção dos

“caminhos de ferro” que os bacharéis e engenheiros formados pela Escola Central

encontraram o seu maior mercado de trabalho. Segundo Silva Telles,

(…) até cerca de 1920-30, a engenharia ferroviária era a especialidade mais importante, e até quase única da engenharia brasile ira : fa zer engenharia no Brasil era, pratica mente, sinônimo de projetar, construir ou operar estradas de ferro. (TELLES, 1994, p.387)

Quando a Escola Central foi instituída, duas estradas de ferro já estavam em

funcionamento. Uma delas, a Estrada de Ferro Mauá, havia sido concluída em 1856, ligando o

Porto de Mauá à Raiz da Serra de Petrópolis (Rio de Janeiro). A segunda, a Estrada de Ferro

do Recife à cidade do Cabo (Pernambuco), teve o seu primeiro trecho inaugurado em

fevereiro de 1858.

Mas, a Estrada de Ferro D. Pedro II, saindo da Corte, iria se constituir no maior

empreendimento ferroviário brasileiro dos meados do século XIX. Essa estrada foi construída

em duas partes, ou seções, termo que se usava na época. Já na construção da sua primeira

seção identifica-se a presença de Gustavo do Rego Macedo e Geraldo da Gama Bentes,

centralistas que fizeram parte de um dos primeiros grupos de engenheiros ferroviários

brasileiros. A primeira seção era constituída por dois trechos, o primeiro deles saindo do

Campo da Aclamação indo até a estação de Queimados. Esse trecho foi inaugurado em 29 de

março de 1858, e, em novembro do mesmo ano, o segundo trecho foi concluído, atingindo a

localidade de Belém, atual estação de Japeri. Em 1861, foi inaugurado o serviço para

atendimento aos subúrbios. (TELLES, 1994, p.249)

A segunda seção foi uma obra muito mais difícil devido à necessidade de transposição

da Serra do Mar, que acabaria por ligar Belém ao Vale do Paraíba, mais precisamente em

Barra do Pirai. Além das dificuldades provocadas por chuvas, inundações e desabamentos, a

falta de prática do pessoal técnico com esse tipo de condições criou barreiras operacionais

para os empreiteiros americanos contratados, que não tinham ideia da problemática que

encontrariam. As dificuldades dessa obra chamaram a atenção de Agassiz, que visitou os

trabalhos em 27 de abril de 1865:

Far-se-á u ma ideia do trabalho que necessitou a construção desta via férrea quando se souber que só para perfurar o grande túnel (e há quatorze), u m conjunto de trezentos trabalhadores, divididos em duas turmas que se revezavam, trabalhou noite e dia, e xceto aos domingos, durante sete anos. O barulho das pás e picaretas quase não foi interro mpido durante este lapso de tempo, e a rocha através da qual foi perfurada a galeria é tão dura que mu itas vezes o golpe mais rude dos perfuradores só produzia m u m pouco de pó de volume mu ito reduzido.116 (A GASSIZ, 1975, p.50)

A grande dificuldade construtiva logo no início desse trecho eram as áreas alagadiças a

partir de Belém. O engenheiro Carlos Alberto Morsing assim relatou as dificuldades que

encontrou:

Entre i no brejo, em Belé m, de manhã e saí do outro lado no caminho (...) à noite, porém só com uma bota e tendo estado com água até o pescoço todo o dia. Eu levava muita gente que iam construindo umas espécies de esteira para que em certos lugares não desaparecêssemos afundados no lodo, que aconteceu com u m dos trabalhadores que atravess ou a crosta e as algas e desapareceu; felizmente, os trabalhadores conseguiram por baixo d’água agarrar o homem pelos cabelos, e livrá-lo de morte certa. (CA RLOS A LBERTO M ORSING, apud EL-KA REH, 1980, p.87)

Finalmente, em 1864, a estrada chegou à Barra do P iraí, tendo trabalho nela, além dos

engenheiros já citados, Joaquim Miguel Ribeiro Lisboa e Carlos Alberto Morsing, que

obtiveram seus títulos de engenheiro pela Escola Central.

Quatro outras estradas foram construídas nesse primeiro surto ferroviário. A Estrada de

Ferro Cantagalo, unindo Porto das Caixas a Cantagalo, passando por Nova Friburgo,

inaugurada em 1860, a Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, de Salvador a Juazeiro,

concluída em 1863, a São Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí, que entrou em operação

em 1867 e a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que ligou Jundiaí a Campinas em

1872. Para esses empreendimentos não foi possível identificar a participação de engenheiros

graduados pela Escola Central.

A partir de Barra do Pirai, a segunda seção da Estrada de Ferro D. Pedro II se dividiu

para as direções de Minas Gerais e São Paulo. Espalhando-se por essas regiões, um grande

número de ramais e várias outras estradas foram construídas. Doze anos após a entrada em

operação da Santos – Jundiaí havia 53 ferrovias em funcionamento, caracterizando o que

ficou conhecido como a 2ª fase do “ferroviarismo” brasileiro. (PICANÇO, apud TELLES,

1994, p.443)

Um aspecto interessante nos contratos das primeiras iniciativas foi a exigência feita aos

empreiteiros estrangeiros para que treinassem os engenheiros brasileiros, que até então eram

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O Túnel Grande a que Agassiz se refe riu levou sete anos para ser concluído, com u ma ve locidade de perfuração da ordem de 1 metro por dia. Para adiantar a obra enquanto o túnel não era concluído, fez-se uma linha provisória por cima da montanha, com ce rca de 5 km de e xtensão. (TELLES, 1994, p.260)

formados nas escolas Militar e Central. Com isso, a experiência adquirida por esses últimos

com os erros e acertos nos projetos e construções foi estabelecendo um conhecimento próprio,

de tal forma que adquiriram bases para discutir e tomar decisões técnicas e econômicas de

interesse da engenharia nacional. Cabe observar que o estudo de “vias férreas” só se iniciou

no Brasil com a instituição da Escola Central, em 1858, fazendo parte da primeira cadeira do

primeiro ano do curso de engenharia civil. (ANEXO G) E, certamente, no início, isso ainda

era feito de maneira teórica e incipiente.

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As questões econômicas relativas à forma de financiamento da construção das estradas

envolviam políticos, economistas e técnicos. A Lei da Garantia de Juros de 1852, já citada no

Item 2.1, foi muito questionada.

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Em 24 de setembro de 1873, a Lei nº. 2.450 estabeleceu

uma nova forma de financiamento das construções das estradas de ferro, co nhecida como

“subvenção quilométrica”, pois se pagava 30 contos de réis por quilômetro construído. Ocorre

que isso estimulou a construção de estradas de forma mais barata possível, utilizando material

de segunda categoria e traçado com voltas desnecessária s. Muito se protestou contra essa lei.

J. Teixeira Soares dizia que ficava “legalmente decretada a impossibilidade de dotar-se o Brasil com u ma rede de estrada satisfatórias”. No Paraná os protestos inúteis do engenheiro fiscal do governo, Constante Affons o Coelho, contra a Cie. Généralle des Chemins de Fer du Brésil, que fazia meandros na planície, chegou a causar a sua demissão. (TELLES, 1994, p.390)

Entre os engenheiros, um dos problemas mais discutidos na época foi a questão da

bitola

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que deveria ser adotada na estrada, pois isso traz consequências sobre o custo do

empreendimento. Nas primeiras estradas, construídas por empreiteiros ingleses, foram

adotadas bitolas com valores em torno de 1,6 m, um valor típico das estradas europeias, mas

considerado um valor grande, ou, como se dizia na época, um valor largo. Já na 2ª fase houve

grande participação de engenheiros norte-americanos, que adotavam bitolas com valores

próximo a 1,0 m, considerado pequeno, ou estreito. A vantagem da bitola larga é a maior

capacidade de carga e comodidade para o passageiro. Por outro lado seu custo inicial é maior,

tanto em relação ao material rodante, como locomotivas, eixos, carros de passageiros, vagões

de carga, etc. quanto no maior comprimento da estrada em si, pois exige raios para as curvas

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Durante a obra da Estrada de Ferro Mauá, o Lente Go mes Jardim levou seus alunos ao local da construção para uma “aula prática”, certamente o que se chama hoje de “visita técnica”. (TELLES, 1994, p.236)

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André Rebouças era um dos maio res defensores da lei de Ga rantia de Juros, tendo escrito um livro sobre o tema e m 1874. (REBOUÇAS, 1874).

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bem superiores aos da bitola estreita, o que aumenta o comprimento do arco e,

consequentemente, o custo de construção da própria estrada.

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Essa foi uma questão que, seguramente, amadureceu a engenharia ferroviária brasileira,

tal o número de pessoas envolvidas. Segundo Silva Telles,

A questão das bitolas apaixonou uma geração inteira de engenheiros, havendo numerosa biografia de opúsculos e artigos, principalmente no período entre, 1870 e 1880. Forma ra m-se duas correntes, os que eram a favor da bito la larga e os que era m a favor da bitola estreita. Os prime iros olhavam o futuro, achando que compensava um maio r investimento inic ia l e m benefíc io de ma ior quantidade de carga, ma iores possibilidade de aumento de tráfego e até maior co modidade para os passageiros. Os últimos achavam que, devido às grandes distâncias, terreno em geral difíce is e pequena carga a transportar, era preferível construir o mais barato possível, permit indo assim maior quilo metrage m construída, com os escassos recursos financeiros do país. (TELLES, 1994, p.387)

Em 1874 o Instituto Politécnico Brazileiro constituiu uma comissão para estudar esse

problema. Participaram dessa comissão os engenheiros Henrique Eduardo Hargreaves, José

Ewbank da Câmara e Luis Augusto de Oliveira, que concluíram pelas vantagens da bitola

estreita.

Mas outra questão, tão importante quanto a definição da bitola, era como fazer o

prolongamento das principais estradas que já apresentavam bitola larga, construindo novas

linhas mais econômicas de bitola estreita. Valeria a pena fazer o prolongamento das estradas

iniciais com bitola estreita, criando um ponto de estrangulamento no tráfego, provocando

baldeação de passageiros, transferência de cargas de uma composição para outra, elevação do

tempo total do transporte, necessidade de pessoal para execução dessas tarefas, etc.? Após

longas discussões, decidiu-se “quebrar a bitola” da Estrada de Ferro D. Pedro II em

Conselheiro Lafayette, Minas Gerais. (TELLES, 1994, p.388)

Os engenheiros da Escola Central participaram ativamente dessas questões,

principalmente Hermillo Cândido da Costa Alves, Jose Ayrosa Galvão, Miguel Noel

Nascentes Burnier, Emilio Armando Henrique Schnoor e João Teixeira Soares, adeptos da

bitola larga. Dentre os “estreitistas”, encontravam-se Henrique Eduardo Hargreaves,

Francisco Barreto Picanço da Costa e José Ewbank da Câmara.

Dois fatos podem ser destacados da atuação dos centralistas na engenharia ferroviária

brasileira. O primeiro refere-se ao plano geral de viação para o Brasil, apresentado por João

Ramos de Queiroz ao Instituto Politécnico Brazileiro, em 1874. Propunha uma interligação de

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Co mo e xe mp los, a estrada Bahia ao São Francisco, de 1863, e ra de bitola larga (1,6m), co m ra io mínimo para as curvas de 400m. (TELLES, 2011, p.39) Por sua vez, a estrada Paranaguá – Curit iba (Estrada de Ferro Pa raná), cuja construção terminou em 1884, apresentava bitola estreita (1,0m) e ra io mínimo para as curvas de 100m. (TELLES, 2011, p.88)

caminhos de ferro com trechos navegáveis de grandes rios. Apesar de não ter sido aprovado

pela Câmara dos Deputados, deve ser ressaltada a preoc upação que Ramos de Queiroz teve

em termos de integração de inúmeras partes distantes do Brasil. O segundo fato está

relacionado à realização do Primeiro Congresso de Estradas de Ferro do Brasil, em 1882.

Realizado sob o auspício do Clube de Engenharia, os temas versaram sobre questões técnicas,

financiamentos, tarifas, etc. A Comissão Diretora do Congresso contou com a participação

dos centralistas Antônio Augusto Fernandes Pinheiro, Jerônimo Rodrigues Moraes Jardim e

Aarão Leal de Carvalho Reis.

Associada às construções das estradas de ferro, surgiu uma atividade de apoio aos

equipamentos ferroviários. Assim o engenheiro José Carlos de Bulhões Ribeiro foi

encarregado de organizar e dirigir uma oficina de reparação de material rodante no Engenho

de Dentro, no Rio de Janeiro. Posteriormente, essas oficinas foram dirigidas pelo engenheiro

Carlos Conrado de Niemeyer.

Durante o século XIX foram diretores da Estrada de Ferro D. Pedro II os seguintes

engenheiros oriundos da Escola Central: Miguel Noel Nascentes Burnier, José Ewbank da

Câmara, Eugênio Adriano Pereira da Cunha Mello, João Chrockatt de Sá Pereira de Castro,

Jerônymo Rodrigues de Moraes Jardim e Alfredo Eugênio de Almeida Maia. (FIGUEIRA,

1908)

Alguns engenheiros ferroviários da Escola Central trabalharam em várias regiões do

interior do país, envolvidos no projeto, construção ou dirigindo as estradas de ferro. Como

exemplo, pode-se citar a importante estrada Mogiana, da Cia. Paulista, que partia de

Campinas e, por meio de vários ramais, atingia o nordeste de São Paulo, o Sul de Minas e o

Triângulo Mineiro. Esteve envolvido no seu projeto e construção o engenheiro Joaquim

Miguel Ribeiro Lisboa. Também a estrada Ituana, que ligava Jundiaí a Itú, teve como

engenheiro chefe da sua construção o engenheiro Aristides Galvão de Queiróz. O engenheiro

Joaquim Miguel Ribeiro Lisboa projetou e participou da construção da estrada de ferro Oeste

de Minas. Posteriormente, esta estrada foi prolongada até o Alto do Rio São Francisco, cuja

obra foi dirigida pelo engenheiro Henrique Barreto Galvão. No Ceará, a estrada de ferro

Baturité teve o seu trecho até Fortaleza construído inicialmente pelo engenheiro Carlos

Alberto Morsing. Foi sucedido pelo engenheiro Amarílio Olinda de Vasconcellos. Por sua

vez, Pedro Betim Paes Leme projetou e construiu a estrada de ferro que ligava Chiador a São

João Nepomuceno. E João Teixeira Soares participou, juntamente com Jorge Benedicto

Ottoni, da construção da estrada de ferro Paranaguá – Curitiba. Ele foi também o construtor

da Estrada de Ferro Corcovado.

Enfim, além dos engenheiros já citados, a história do ferroviarismo brasileiro mostra a

presença de vários outros centralistas, como Adolpho José Del Vecchio, Floriano Vieira

Peixoto, Francisco Antonio Monteiro Tourinho, Francisco Antonio Pimenta Bueno, Francisco

Bicalho, Francisco Lobo Leite Pereira, José Pereira Rebouças e outros, que de uma forma ou

de outra, participaram da consolidação da engenharia ferroviária brasileira.

Alguns alunos dos primeiros tempos da Escola Central estiveram presentes no início do

desenvolvimento desse setor. Com o passar do tempo, a presença dos alunos se intensificou,

atuando em empreendimentos localizados em diferentes regiões do país. Com duas ou três

décadas de exercício profissional, ocuparam postos chaves de direção em projetos e empresas

ferroviárias.

4.2.2 A PRESENÇA DA ESCOLA CENTRAL NA ENGENHARIA PORTUÁRIA E

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