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O Templo da Água é uma obra do arquiteto Tadao Ando no norte da ilha Awaji, no Japão, marcada por um espelho d’água em elipse, emoldurado por duas paredes. Sua simetria reforça o rasgo existente no centro e, visto na perspectiva do observador, a elipse ganha caráter de grande horizontalidade (imagem 59).
Por mais paradoxal que possa parecer, a expressão infinita do horizonte não faz o espectador se sentir reduzido em suas próprias dimensões, mas lhe traz um enorme prazer ao colocá-lo em contato com o infini- to:
Em geral, o horizonte não se estreita às pes- soas, mas ao contrário: abre-se à frente de- las num campo vasto de sua visão e de seu movimento rumo ao espaço. Ele é, na ver- dade, uma fronteira, mas não uma fronteira aprisionante. À medida que recua, ele convi- da exatamente à busca do longínquo (BOLL- NOW, Otto. O homem e o Espaço. p.80).
A virtude do horizonte se abrir e proporcionar movimento à obra, como foi mencionado acima, amplia ainda mais a afirmação de que o horizonte acentuado nas espacialidades das edificações, com a amplitude de suas dimensões. Não nos faltam exemplos na arquitetura moderna de obras que buscam as virtudes da horizontalidade na monumentalidade do espaço arquitetônico.
Muitas vezes a exploração da ques- tão do horizonte na obra passa pela estratégia de resgatar virtudes e valores da paisagem
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Eu componho a arquitetura procurando encontrar uma lógica essencial inerente ao lugar. A pesqui- sa arquitetônica supõe uma responsabilidade de descobrir e revelar as características formais de um sítio, ao lado de suas tradições culturais, cli- ma e aspectos naturais e ambientais, a estrutura da cidade que lhe constitui o seu pano de fundo, e os padrões de vida e costumes ancestrais que as pessoas levarão para o futuro (ANDO, Tadao, Por Novos Horizontes na Arquitetura, 1991, p. 498).
Nesse caso, o arquiteto explora a posi- ção do terreno numa topografia, onde as visuais do horizonte, e sua paisagem, são exploradas na percepção externa e interna do edifício (imagem 60, 61).
Em certos momentos da história, a arquitetura buscou a monumentalidade nos espaços sagrados com a exploração de grandes verticalidades espaciais, representando um gesto de aproximação ao divino. Nos tempos mo- dernos, o avanço tecnológico permite a busca dessa monumentalidade através da construção de grandes vãos estruturais.
Numa outra perspectiva, o projeto aqui estudado é desmaterializado na topografia do sítio, deixando-o integrado às amplas dimensões do horizonte o que traz para a solução uma notá- vel monumentalidade.
É nessa mesma leitura de diálogo do horizonte com a obra, que se pode perceber o contraste desse projeto em relação às edificações do entorno com seus telhados mais altos. Ando queria, desde a concepção do projeto, criar uma experiência diferente ao enterrar todo o projeto e deixar como elemento construído apenas duas
Imagem 60, 61: Inserida na topografia a forma reverencia o horizonte. Fonte: Desenvolvido pelo autor
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paredes em torno de um espelho d’água. A vista que se tem do templo remete ao silêncio da paisagem, com evidência a expressão do verde em seu entorno. A força da implantação do projeto se faz no gesto de silenciar o edifício e dar voz à natureza.
Essa integração resulta numa grande força de expressão que passa pela desmate- rialização da forma do elemento edificado. A ligação do construído e não construído sem limites físicos identificáveis, faz com que o corpo e a imaginação do homem se expan- dam de forma elástica, transformando os espaços em um contínuo sem limites.
A abstração geométrica se choca com a concre- tude humana, então, a aparente contradição se dissolve na incongruência. (...) no Japão, todas as formas de exercício espiritual são tradicio- nalmente realizadas no contexto da inter-relação do homem com a natureza. (ANDO, Tadao, Por Novos Horizontes na Arquitetura, 1991, p. 498)
As duas paredes externas, únicos elementos visíveis ao espectador, reforçam a presença do horizonte pelo contraste que se evidencia na promenade arquitetural, o pas- seio de acesso à entrada do edifício (imagem 62, 63).
É o espaço sem barreiras, sofis- ticadamente demarcado pela sutileza de fronteiras, a possível sensação de que o solo ganha vida, e a edificação amplia seus limites. Acontece quando o espectador não
domina visualmente o conjunto da forma/ Imagem 62, 63: A horizontalidade do conjunto construído permite contemplar os horizontes naturais em evidência. Fonte: Desenvolvido pelo autor
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volume em sua integridade, e assim ele passa a enxergar a obra como objeto dissimulado. Isso ocorre quando o olhar se apropria apenas de alguns elementos construídos. É essa condição intermediária que conduz o espectador, a se surpreender com o horizonte em sua dimensão infindável, a expressão de uma escala incalcu- lável.
A promenade continua ao descer a escada e notar o desaparecimento da linha do horizonte, a horizontalidade perdida, a falta de luz natural, o sentimento de introspecção. Descer a escada em um estreito vão entre paredes reforça a verticalidade e, na sensação de enclausuramento abre-se uma ponte para a nova realidade. É o peregrino conduzido ao encontro do divino, o espaço de meditação no piso inferior.
Essa articulação de escalas é fortale- cida através da interpretação topocêntrica dos caminhos curvos, da sensação de continuida- de e da limitação do horizonte. O percurso é em si um exercício de reflexão (imagens 64, 65, 66).
Ao retornar do ritual de passagem, subindo a escada, o horizonte abre-se nova- mente ao espectador em um respiro de alívio. O grande espelho d’água, que outrora tomou conta da vista do fruidor, agora traz o reflexo, põe o céu ao contato do peregrino, relação direta com a abóbada celeste.
Imagem 64: O acesso próximo traz o horizonte longínquo. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/511510470157080199/?lp=true
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Imagem 65: O céu no horizonte é trazido ao edifício pelo reflexo das águas Fonte: http://www.dapco.es/node/241