• Nenhum resultado encontrado

a. Presença profissional no setor produtivo

No documento Anielli Fabiula Gavioli Lemes (páginas 58-61)

Capítulo 3 - Características da química segundo os doutorandos: discussão de

3.1. Categorias

3.1.1. a. Presença profissional no setor produtivo

A concepção representada pela subcategoria “presença profissional no setor produtivo” foi observada tanto da análise dos perfis dos entrevistados (Quadro 2), quanto das falas dos pós-graduandos, quando perguntados sobre as razões da escolha da química como curso de graduação, ou quando questionados sobre o que fazem em suas pesquisas.

Em relação às experiências no campo de trabalho da química, levantadas no Quadro 2, os doutorandos trabalharam em laboratórios de indústrias e empresas, bem como lecionaram ou fizeram iniciação docente, além de trabalhar em pesquisa acadêmica. Com isso, podemos observar o amplo campo de trabalho da química, o que foi reforçado na

análise das respostas das entrevistas, como sendo uma característica dessa ciência. Schummer & Spector (2007) exploram essa ideia, descrevendo a química como sendo “ao mesmo tempo acadêmica e industrial, conceitual e aplicada” (p.35). Kovac (2001) ressalta que a indústria tem uma relação simbiótica com a química acadêmica, e defende que esta relação estreita é incomum, pois não há indústria "física", "biológica" ou “geológica”, mas existe a indústria química. Com isso, Kovac ilustra a ligação entre as pesquisas chamadas “puras” e “aplicadas” em química, que constitui uma peculiaridade da área química.

Ainda no Quadro 2, podemos observar que quase todos os entrevistados tiveram experiência docente no PAE, exceto o doutorando QI1, e que apenas os entrevistados QO1, QA1, QBQ1 e QBQ2 não lecionaram para o ensino médio. Outro fato a destacar é que todos fizeram o estágio de iniciação à docência em alguma disciplina de sua área de pesquisa, exceto QI2 (que o fez na físico-química) e QI1, que ainda não fez o estágio no ensino superior.

Nas falas seguintes também se encontram exemplos de termos que caracterizam a categoria “presença profissional no setor produtivo”:

QBQ1: já/ trabalhei com físico-química... microscopia Raman... trabalhava com espectroscopia... basicamente... depois eu fui pra bioquímica direto... eu trabalhei com Schistosoma mansoni... um verme e depois eu fui trabalhar na indústria... daí eu trabalhei com analítica... bastante com analítica... com quimiometria... com análise de traços de agrotóxicos em amostras vegetais... então três coisas diferentes uma da outra

----

QF1: talvez assim... na época ((do vestibular))... na minha cabeça... eu tinha ideia que tipo... a química eu vou ter mais chance de conseguir emprego depois de formado... acho que na física não e química eu teria... daí eu acabei ficando em química

----

QI2: ((o meu vizinho)) contava sobre o que ele fazia (( trabalhava na indústria))... e aí depois como ele contava assim... depois eu ia bem na escola .... ele meio que me ensinava... aí foi isso que me motivou ((a fazer química))...

----

QI2: (...) na indústria é bem diferente ((da academia))... muitas vezes o químico... ele inicia na indústria no laboratório... mas depois vai trabalhar na parte administrativa... acontece muito isso... (...)

vi a palestra de um cara da criminalística que... pelo fato de ele ter doutorado em orgânica... ele era uma pessoa diferenciada lá e aí hoje ele é diretor do instituto de criminalística da Polícia Federal... ele já não mexe mais em laboratório... ele trabalha mais na parte administrativa... e com o conhecimento que ele teve no doutorado... ele pôde comprar equipamentos de última geração... porque ele entende das técnicas né? então... antes que os laboratórios tinham poucos... tipos de procedimentos... experimentos muito ainda arcaicos né? ele conseguiu inovar colocar equipamentos modernos... espectrometria de massas... RMN... equipamentos de última geração... então interessante a palestra que ele deu... tem gente que trabalha na parte comercial também... tem outros segmentos

----

QO1: na verdade eu comecei gostar de química no cursinho... durante o ensino médio eu nem pensava em fazer química... eu queria fazer biologia... eu vi que em química... que eu podia ter muito mais possibilidade de emprego talvez... mais do que em biologia... biologia é mais restrita a pesquisa ou a lecionar... química você tem como lecionar ou trabalhar na indústria ou você partir pra pesquisa... então por isso que eu escolhi... e eu comecei a gostar mesmo e ter afinidade no cursinho

Fica evidenciado, pelo conteúdo das falas acima, que os químicos podem se envolver em diversas atividades – industriais e comerciais, além das de ensino da disciplina e da pesquisa acadêmica (pura ou aplicada) –, sendo essa diversidade, muitas vezes, a causa da escolha pela química como carreira. Esta característica, para Schummer & Spector (2007), é entendida como benéfica para a química, destacando-a das outras ciências, as quais não têm essa pluralidade de campos de trabalho, como também é sugerido pelos sujeitos nas falas acima.

Baird (2002), discutindo sobre as mudanças na definição do campo de atuação dos químicos analíticos, expõe que a pluralidade traz também uma crise de identidade. Esta crise esteve relacionada com a mudança de métodos químicos para métodos físicos na identificação e separação das substâncias químicas. Assim, com a utilização de fundamentos teóricos da física, ou mesmo da engenharia, a química analítica desenvolveu mais métodos instrumentais, o que ressignificou o que era e o que fazia o químico analítico. No entanto, a incorporação desses instrumentos encareceu a pesquisa, criando a necessidade de estreitar parcerias com o setor produtivo para possibilitar a compra de mais

equipamentos. A química analítica, então, ampliou o campo de trabalho da química, sendo integrada aos interesses de caracterização e controle13 de produtos químicos, além de produção de instrumentos comerciais e para a academia.

Kovac (2001) salienta que essa flexibilidade de funções dos químicos – que pode beneficiar tanto o setor produtivo, quanto a universidade – pode conduzir à não reflexão sobre problemas éticos diretamente relacionados a aspectos financeiros. A injeção de capital do mercado influencia na cultura de valorização de pesquisas aplicadas e na depreciação das pesquisas puras, exploratórias, sem utilidade direta, mas que poderiam subsidiar, a longo prazo, as pesquisas aplicadas.

O que é importante no presente contexto é que a presença profissional no setor produtivo parece ser uma grande característica que o químico desenvolveu no universo produtivo, o que ganhou espaço em vários setores. Entretanto, as diversas áreas que o químico pode atuar estão ficando imbricadas, fazendo com que metas características da indústria, por exemplo, sejam transpostas de forma comum na academia, sem a devida reflexão sobre as suas implicações. Então, por um lado essa subcategoria traz elementos que tornam a química peculiar, dando subsídios a argumentos contra o reducionismo. Por outro lado, porém, esses elementos se relacionam à falta de reflexão sobre como se estão estabelecendo as relações entre a química e as áreas do setor produtivo, com possíveis reflexos sobre o modo como essa ciência é ensinada.

No documento Anielli Fabiula Gavioli Lemes (páginas 58-61)