CAPÍTULO 1 - O PÚBLICO E O PRIVADO NA EDUCAÇÃO SUPERIOR E O
1.3 O Caráter Privatista da Educação Superior Brasileira
1.3.2 A Primeira República e a educação superior
submissa a Portugal e incapaz de pensar em um projeto nacional para a educação, contribuindo para a não-implantação da universidade.79
Um dos fatores considerados por Cunha é que “as lutas pela criação da Universidade no Brasil são lutas diferentes, de pessoas e grupos diferentes, que, em momentos diferentes, buscaram instituições diferentes que de comum só tinham o nome de universidade” (CUNHA, 1986, p. 14). Paulino José Orso, no artigo A Criação da Universidade e o Projeto Burguês de Educação no Brasil, entende que o aspecto tardio da criação da universidade brasileira não está relacionado à ausência de projetos, de recursos financeiros ou de interesses pela sua criação. Os motivos principais seriam a luta pelo controle das instituições e a disputa entre os projetos liberais e os projetos oficiais, que eram baseados nos modelos “coimbrão e napoleônico”, modelos centralizadores e contrários aos ideais de liberdade e de descentralização característicos dos liberais clássicos80. O debate durou mais de três séculos, até que 351 anos depois da primeira proposta de criação conseguiram criar a universidade, em 1934, conforme os moldes pretendidos pelos idealizadores liberais (s.d., mimeo).81
Para Trindade, “durante o governo provisório de Vargas, a oposição entre liberais e autoritários cristalizou-se na Revolução Constitucionalista de 1932, reproduzindo-se nas visões sobre as políticas educacionais, inclusive na formação das primeiras universidades modernas brasileiras” (2005, p. 12). Logo, corroborando os autores já citados, as universidades vieram sob forte influência do liberalismo.
afirma que: “O liberalismo foi submetido, no Brasil, a toda sorte de arranjos ideológicos: conviveu com as idéias que defendiam a monarquia e a escravidão, associou-se ao positivismo e, na Primeira República, serviu admiravelmente bem para legitimar a ditadura das oligarquias e a repressão aos trabalhadores” (CUNHA, 1986, p. 259).
No campo educacional, destaca-se sempre presente a proposta de Adam Smith de desconsiderar a necessidade do ensino público de nível elevado e preocupar-se apenas com a instrução elementar do povo (o que ainda assim ocorreu de forma parcial no Brasil), preocupando-se com a formação superior apenas das elites intelectuais. Com relação à monarquia brasileira, contraditoriamente à monarquia europeia, a qual procurava imitar, sob seu comando, “nem a instrução primária tornou-se necessária a toda a população” (RIBEIRO, 1987, p. 56). Ribeiro trata do período monárquico, contudo o quadro permanece no século XX. Em 1889, o Brasil contava com apenas 12% da população em idade escolar matriculada. Em 1930, contava ainda com somente 30%. Esta baixa inclusão fez com que, em 1940, o país tivesse ainda 56% da população totalmente analfabeta. Em 1950, 50,5%; em 1960, 39,4% e em 1970, 33,6% (Idem, p. 77,122).
Ao modo brasileiro, “o pensamento liberal republicano, marcado pela idéia de que a educação competia à sociedade e ao indivíduo, e não ao Estado, reduz a função pública no campo da cultura a regular e promover a atividade privada”
(TEIXEIRA, 2005, p. 195). Deste modo, “as escolas privadas passariam a ser autorizadas pelo Governo e a gozar de regalias” (Idem), sendo reguladas e mantidas pelo poder público.
Quanto ao ensino superior, segundo Ribeiro, em 1912, apenas 0,05% da população brasileira tinha acesso a esse nível de ensino. Considerando que a população somava mais de 17 milhões de habitantes, a cada 2.000 pessoas, uma estava cursando o ensino superior.82 Em 1935, o país contava com 25.996 matrículas efetivadas no Ensino Superior e, em 1955, 69.942 (RIBEIRO, p. 83-128).
Em 2006, após fatores como as reformas que permitiram a criação de várias universidades federais pelos governos militares, a autorização para o funcionamento de instituições de ensino superior (IES) isoladas, a transferência de recursos às IES privadas e os diversos incentivos do governo na década de 1990, passamos a
82 Entre 1889 e 1918, 56 novos estabelecimentos de ensino superior, na maioria privados, são criados no país, os quais, somados aos 14 existentes no fim do Império, elevam o número total a 70 (Idem, p. 195).
contar, no ano de 2006, com 5.311.895 de alunos matriculados no ensino superior, distribuídos em 2.270 instituições de ensino (MEC/INEP, 2008). Considerando que a população é de 180 milhões, temos um percentual um pouco inferior a 3% da população matriculada. Percebemos que, para um período de meio século, trata-se de um crescimento considerável, embora existam muitos fatores a serem estudados, o que nos propomos a fazer neste trabalho.
No início do século XX, o debate sobre a criação da universidade girava em torno do modelo a ser copiado; da centralidade com um modelo único ou não, e da questão da autonomia. O modelo de Fernando de Azevedo, de 1926, parece ser o que chegou a ter forma orgânica de universidade. Em 1930, é criado o Ministério da Educação e Saúde, comandado por Francisco Campos, que já participava das reformas educacionais da época.83 Em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, elaborado por um grupo de professores e redigido por Fernando de Azevedo, prevê a criação de universidades.84
Até então perdurava a “tradição das escolas superiores profissionais, não representando a idéia de universidade” (TEIXEIRA, 2005, p. 197). Em 1934, no entanto, conforme foi comentado, em meio a todo o debate entre opositores, surge a Universidade de São Paulo, congregando, além das escolas tradicionais, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, esta integrada ao Instituto de Educação.
Após a criação da Universidade de São Paulo e a do Rio de Janeiro em 1935 e, particularmente, após 1940, o país rompeu as barreiras de resistência e o ensino superior entrou em expansão acelerada.
Em 1945 havia 298 IES, passando para 372 em 1965, enquanto que o número de matrículas foi de 27253 para 155781. Os dados demonstram um crescimento de 25% no número de instituições e de 461% no número de matrículas, o que revela, além da estratégia da ampliação de algumas instituições, o aumento do número de alunos por salas e, em consequência, por instituições.85
A partir de 1945, o crescimento do ensino superior deslanchou, com destaque já para a participação da rede privada, que, no ano de 1965, correspondia a
83 O Decreto nº 19.890, de 18 de abril de 1931, ou a “Reforma Francisco Campos”, preocupou-se bastante com o ensino secundário, visando a preparação para o ingresso no ensino superior.
84 Artigo V: Criação de Universidades, de tal maneira organizadas e aparelhadas, que possam exercer a tríplice função que lhes é essencial, elaborar e criar ciência, transmiti-la e vulgarizá-la, e sirvam, portanto, na variedade de seus institutos.
85 Os dados de 1945 são de Barreyro (2008, p. 17) e os de 1965 são de Minto (2006, p. 180-181).
aproximadamente 44% das matrículas (MINTO, 2006, p. 180-191). No mesmo período, o ensino secundário teve também grande crescimento, conforme demonstraremos neste trabalho, em sintonia com o crescimento da indústria e do comércio no período, visando ao aumento da formação de mão-de-obra.
Além do interesse na formação para o mercado, os interesses ideológicos presentes na criação da universidade brasileira, interesses que, até os anos 1930, representavam os das oligarquias, passam, a partir dessa época, pela justificativa liberal do combate ao comunismo e aos regimes totalitários, de um liberalismo que tendeu para a volta ao Estado-mínimo, momento em que as diferenças são muito bem moldadas na própria estrutura e na organização da escola. O financiamento exclusivo e a manutenção de escolas pelo poder estatal era visto como um risco à liberdade. Para evitar a difusão do pensamento “perigoso”, era de interesse dos liberais que as universidades constituídas fossem do tipo confederação de escolas profissionais, tendo a época sido marcada pela ampliação das escolas superiores independentes e autosuficientes, totalizando quase 700 delas já na década de 1960 (TEIXEIRA, 2005, p. 199). Teixeira comenta a necessidade de se criar, na época, “a escola pós-graduada para estudos profundos e avançados, destinados à produção do conhecimento e do saber” (p. 202). A preocupação era a formação de professores para “o ensino superior, pesquisadores e cientistas humanos, sociais e físicos de todo o País” (Idem, p. 203).
Com a expansão do ensino público, principalmente no nível do antigo segundo grau, as escolas particulares começam a perder sua clientela, provocando a reivindicação da “limitação do crescimento desta rede e, mais ainda, o financiamento da rede particular em nome do direito de escolha da orientação filosófica da educação das crianças” (CUNHA, 1981, p. 30). Como o ensino secundário público seguiu crescendo entre os anos 1930 e 1960, esses capitalistas investidores transferiram seus investimentos para o ensino superior, cujo crescimento não atendia à demanda da industrialização e do crescimento da população nas cidades, o que ajuda a explicar o crescimento desse nível de ensino a partir dos anos 1960.
É preciso considerar que, no Brasil republicano, buscava-se mudar a realidade da economia de agrária para industrial, em virtude disto, a educação se voltou para a apreensão da tecnologia, visando o mercado de trabalho. Era preciso romper, ainda, a dependência da economia brasileira com a economia externa. O
modelo de agricultura de exportação e de importação de manufaturados tinha que ser vencido pela industrialização (RIBEIRO, 1987, p. 92). A escola precisava acompanhar o novo ritmo e, para tal, deveria se ampliar a rede pública.
Os educadores escolanovistas foram acusados de comunistas por defenderem a educação pública e, em consequência, o monopólio do ensino pelo Estado. Os liberais privatistas alertavam que “não só se alargava, por essa forma, como se tornava cada vez mais sensível a zona do pensamento perigoso” (Idem, p.
100).86 Ribeiro considera que, apesar do discurso, a disputa no campo educacional não era na verdade contra o comunismo, ou em torno do público e do privado, mas os embates se travavam entre o conservadorismo e a modernidade, envolvendo a defesa de interesses particulares (p. 101).
É pertinente considerar também a participação da Igreja nos debates sobre educação, quando, por exemplo, na defesa das escolas particulares, o padre Leonel Franca, ao falar de bolsas para o ensino privado, chega a escrever que “o legislador injusto impõe o ônus de pagar a escola particular que lhe serve e mais a escola pública que não lhe pode servir” (apud Idem, p. 147). Para ele, os pais religiosos não poderiam enviar seus filhos para a escola pública, pois o ensino laico é incompatível com a consciência dessas famílias.