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3 O CASO DA CONSTRUÇÃO DA COMPANHIA SIDERURGICA

3.3 O Complexo Industrial e Portuário do Pecém

3.3.1 A primeira Zona de Processamento de Exportação no Brasil

As ZPEs são áreas57 destinadas exclusivamente para o livre comércio internacional. Reservadas para a instalação de empresas voltadas à produção para o mercado mundial, as ZPEs são consideradas zonas especiais para o controle aduaneiro, em especial no que se refere ao regime tributário, cambial e administrativo58(MDIC, 2017). A ZPE Ceará, a primeira no Brasil, é gerenciada pela Empresa Administradora da ZPE do Pecém S.A.– EMAZP59, tendo sido inaugurada em agosto de 2013 (MDIC, 2018). O CIPP do Pecém gera, com sua ZPE, um dos mais audazes pacotes de isenções fiscais para as empresas que se instalam nele. Elas recebem tratamento tributário especial com um único requisito: o de exportar, no mínimo, 80% de sua receita bruta total60. Para as exportações, no nível municipal existe uma redução do Imposto Sobre Serviços – ISS e uma isenção de Imposto Predial e Territorial Urbano– IPTU e Imposto de Transmissão de Bens Imóveis – ITBI. No nível federal, estabelece-se uma redução do Imposto de Renda em até 75% e um reinvestimento do Imposto de Renda para Pessoa Jurídica – IRPJ de 30%. Há também o Imposto de Importação, o Imposto sobre Produtos Industrializados– IPI, o PIS/Pasep, o tributo Cofins-Importação e o imposto Adicional do Frete para a Renovação da Marinha Mercante – AFRMM, que ficam suspensos na área determinada como ZPE.

No concernente à política cambial, a ZPE possibilita o intercâmbio pecuniário em qualquer moeda, realizando-se regularmente através do dólar americano. Desse modo, a ZPE impõe uma exceção territorial ao real como moeda de circulação forçosa no âmbito

57 Inicialmente, as ZPEs brasileiras foram projetadas para as regiões menos desenvolvidas.

58 Os mecanismos de implantação, funcionamento e regulamentação geral das ZPEs foram estabelecidos

no governo Lula, em julho de 2007, pela Lei nº 11.508.

59 A EMAZP é uma empresa pública criada pela Lei Estadual nº 14.794, de 22 de setembro de 2010. 60 Sem o benefício da isenção tributária, os restantes 20% da produção podem ser destinados ao mercado

89 nacional. A compra de matérias primas e mercadorias para a produção de aço e a venda das placas de aço são realizadas em dinheiro mundial. Porém, os pagamentos de salários envolvidos na movimentação do complexo, que é o foco de nossa análise, devem ser realizados em moeda nacional e deveriam ajustar-se às normas legais que regulam as condições de trabalho no Brasil.

O início da construção da EMAZP estava programado para meados de 2012. A Receita Federal, nesse período, devia liberar o processo de alfandegamento dos primeiros barcos oriundos da Coreia do Sul. A construção da siderúrgica começa, mas a EMAZP ainda permanecia em fase de planejamento. Nessa conjuntura, a empresa POSCO, potencial beneficiária direta daquelas isenções tributárias, pressiona para adiantar a instalação da ZPE. Entretanto, o primeiro barco com material importado da Coreia do Sul para desenvolver a obra atracou no porto de Pecém. Como ainda não estava em funcionamento a EMAZP, a POSCO deveria pagar os impostos comuns de importação ou esperar até a conclusão da demorada obra.

A área de controle aduaneiro da EMAZP, responsabilidade da Receita Federal, é de uma superfície total de 15 hectares. Para funcionar, a área deve estar cercada, contar com portão de entrada e saída, e com os pátios em funcionamento junto ao sistema de controle e vigilância. Só com a realização desses prédios, possibilitam o funcionamento do sistema de processamento da EMAZP, será autorizado o alfandegamento por parte da Receita Federal.

A Receita Federal postergou as duas licitações necessárias para a construção da primeira ZPE do Brasil. Porém, em março de 2012, a POSCO obteve um benefício extraordinário com a isenção do Imposto Estadual sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS. O Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ autorizou essa isenção relativa ao diferencial de alíquotas e às operações internas e importação de máquinas, aparelhos e equipamentos.

Em agosto de 2012, é informada à opinião pública que a construção da EMAZP será custeada pela empresa POSCO. Desse modo, a unidade administrativa federal, com atribuições regulatórias fiscais e de controle aduaneiro, foi construída pela empresa que, em princípio, é responsável por sua regulação e controle. As demoras burocráticas para o financiamento e implantação da ZPE gerou uma situação inédita, que não possui previsão em lei. Para gerar legitimidade frente à opinião pública, e diante da ausência de fundamento jurídico, os setores envolvidos argumentaram que o fator tempo determinou a finalização da obra da EMAZP pela POSCO. Victor Samuel da Ponte, diretor da

90 Associação Brasileira de Zona de Processamento de Exportação– ABRAZPE afirmou na imprensa que:

O primeiro navio com equipamento da siderúrgica chega no dia 15 de dezembro e, para que a CSP tenha as isenções fiscais a que tem direito por estar dentro da ZPE, a ZPE precisa ter o alvará da Receita Federal, o alfandegamento. E isso só será dado após o prédio e o cercamento estarem construídos. Então se fôssemos ainda fazer a licitação destas obras, não iria dar tempo. Daí a CSP resolveu fazer esse trabalho (SOUSA, 2012).

Em termos gerais, observamos que a infraestrutura destinada aos grandes empreendimentos industriais é antes de tudo uma tarefa projetada, desenhada e financiada pelo Estado a partir dos seus diferentes níveis. Entendemos que as atividades regulatórias e produtivas estatais são duas formas concretas estatais que atendem à necessidade da acumulação de capital61. O Estado, seguindo o desenvolvimento das forças produtivas, apresenta capacidades, tempos, dinâmicas e conflitos específicos nas atividades produtivas, em especial se compararmos essas atividades com aquelas desenvolvidas pelas corporações privadas. Na década de 1930, o Estado participava diretamente com empresas públicas. A partir dos anos 1970, o setor privado começa a ganhar espaço nessas parcerias. No entanto, tal como já defendemos no primeiro capítulo deste trabalho, apesar da aparência, o mercado e o Estado não são contrários nem exteriores entre si. No caso que estamos analisando, depois de já gerada e assegurada a infraestrutura necessária, vieram os investimentos privados que visaram aproveitar ao máximo os recursos disponibilizados pelo setor público. A justaposição das atividades na CIPP, quando finalizada a construção da ZPE, oferece um exemplo concreto e esclarecedor da confusão de atividades produtivas entre setor público e privado, algo diferente da forma externa e dissociada que costuma aparecer em casos semelhantes (PRADO, 1985, p. 9).

Já com a CSP funcionando, em julho de 2016, o Estado do Ceará financiou uma correia transportadora62 para o minério de ferro e outros granéis sólidos de alta densidade. Desse modo, o setor público continuou com a provisão de infraestrutura para as empresas do complexo, especialmente a CSP, que aproveita esses insumos para dinamizar a produção de aço. Com 8,6 quilômetros de extensão, a nova correia parte do berço externo do Terminal de Granéis Sólidos do porto até o ponto de entrega, a Torre de Transferência onde as empresas transportam aos seus pátios as matérias-primas. Esse investimento do governo estadual, feito através da Secretaria da Infraestrutura do Estado do Ceará–

61 Essas duas atividades não esgotam as atividades desenvolvidas pelo Estado: repressivas, educativas, etc. 62 A esteira tem capacidade nominal de transporte de 2.400 toneladas/hora, tem forma tubular e utiliza

91 SEINFRA, foi de R$ 212 milhões de reais. A operação assistida da correia durou seis meses. Por enquanto, essa esteira atende apenas à CSP, que ficou responsável pela manutenção e operação do equipamento (CAMPOS, 2016).

Frisamos que o que costuma parecer temporal e institucionalmente diferençado não é outra coisa senão a organicidade do capital social acionando o trabalho social no incremento da acumulação de capital.