3.2 ASPECTOS PROCESSUAIS
3.2.7 A prisão do devedor de alimentos gravídicos
A partir da análise dos artigos 528 a 533 do Código de Processo Civil, nota-se a existência de diferentes técnicas para que a efetivação da tutela jurisdicional executiva relativa aos alimentos, quais sejam: o protesto do título executivo e prisão civil (artigo 528), desconto em folha (artigo 529), penhora/satisfação (artigo 530) e constituição de capital (artigo 533).
Apesar das diferenças, todas se destinam à mesma finalidade: satisfazer o credor da obrigação alimentar levando em consideração a juridicidade da cominação da prisão civil como meio coercitivo, autorizado no inciso LXVII do artigo 5º da Constituição Federal (BUENO, 2017)
A viabilidade da prisão civil do devedor de alimentos gravídicos já foi reconhecida na V Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal, conforme texto do Enunciado 522 que dispõe: “Cabe prisão civil do devedor nos alimentos gravídicos estabelecidos com base na Lei n. 11.804/2008, inclusive deferidos em qualquer caso de tutela de urgência”.
Na execução do direito a alimentos gravídicos é possível a utilização de todos os meios executivos e técnicas diferenciados instituídos pelo legislador para conferir efetividade à cobrança do crédito alimentar como desconto em folha de pagamento, penhora de bens absolutamente impenhoráveis e de família, constituição de capital, ameaça de prisão, dentre outros. O Superior Tribunal de Justiça vem entendendo ser cabível a prisão civil em execução de alimentos definitivos, provisórios ou provisionais. Não há porque afastar esse entendimento às questões atinentes aos alimentos gravídicos (DELFINO, 2009).
A fim de garantir o fiel cumprimento da obrigação alimentar diversas são as providências estabelecidas pela lei, dentre elas a prisão do alimentante inadimplente. Trata-se, pois, de exceção ao princípio segundo o qual não há prisão por dívidas. Isso se deve ao fato de que o adimplemento da obrigação alimentar transpassa a esfera de interesse individual, constituindo obrigação de interesse público (GONÇALVES, 2021).
Monteiro (apud GONÇALVES, 2021) alerta acerca da natureza excepcional da medida. Segundo o autor, só se deve decretar a prisão se o alimentante, embora solvente, frustra ou procura frustrar a prestação. Entretanto, se impossibilitado de fornecê-la, não é legítima a decretação da pena de prisão. A prisão por dívida de alimentos demanda criterioso exame dos fatos, pois consiste em exceção constitucional à proibição de coerção pessoal por dívida.
A prisão civil decorrente de inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentar, em face da importância do interesse envolvido (subsistência do alimentando), é medida das mais salutares, pois boa parte dos réus só cumpre a sua obrigação quando ameaçada pela ordem de prisão (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2021).
O cumprimento da pena de prisão não exime o devedor do pagamento das prestações vincendas e vencidas não pagas, na forma do artigo 528, § 5º, do Código de Processo Civil. A prisão do devedor configura ato concreto que o Estado pode praticar para satisfação do credor.
Dessa forma, a prisão é meio coercitivo para o pagamento, mas não o substitui (VENOSA, 2020).
Insta esclarecer que, conforme previsto no § 7º do artigo 528 do Código de Processo Civil e Súmula 309 do Superior Tribunal de Justiça, o débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende até as 3 prestações anteriores ao ajuizamento da execução, assim como as que se vencerem no curso do processo.
Entretanto, não há necessidade que estejam vencidas três prestações para o credor realizar a cobrança. Nesse sentido é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO DE ALIMENTOS. OBRIGAÇÃO
ALIMENTAR. PRETENSÃO DE EXTINÇÃO DO ENCARGO EM
IMPUGNAÇÃO. ORDEM DENEGADA. 1. Não se presta a impugnação em execução de alimentos à exoneração de obrigação alimentícia imposta em sentença de divórcio litigioso até que a alimentada adquira condições objetivas e subjetivas (emocionais) de prover o seu próprio sustento. Para tanto é necessário o ajuizamento de ação própria, na qual seja comprovada a alegação de que a alimentada passou a ter condições de prover o seu próprio sustento. A pretendida suspensão do decreto de prisão durante toda a fase instrutória da impugnação tornaria sem sentido útil o art.
733, do CPC, destinado a preservar, em caráter imediato, as condições de vida do alimentando. 2. A apuração das condições emocionais e da capacidade de trabalho da alimentada não é compatível com a via do habeas corpus. Negativa de benefício previdenciário que não interfere com a obrigação imposta pela sentença de divórcio.
3. O atraso de uma só prestação, desde que atual, ou seja, compreendida entre as três últimas devidas, já autoriza o pedido de prisão do devedor. Hipótese em que há inadimplência também de parcelas vencidas após o ajuizamento da execução (Súmula 309/STJ e art. 733, § 1º, do CPC). 4. Ordem denegada. (HC 180.099/SP, Rel.
Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 18/08/2011, DJe 29/08/2011) (grifou-se).
Em seu voto, a Ministra Relatora Maria Isabel Gallotti asseverou que o entendimento adotado se coaduna com a natureza da prestação alimentar, que é o de prover o alimentando das condições necessárias à sua subsistência. Obrigá-lo a aguardar o inadimplemento de três parcelas para, somente depois, poder compelir o devedor ao seu pagamento por meio do pedido de sua prisão é incoerente.
Para Maria Berenice Dias, o descompasso em relação ao prazo da prisão, que existia entre a lei processual, artigo 733, § 1º, do Código de Processo Civil de 1973, e a Lei de Alimentos, artigo 19, foi sanado pela lei atual. Consoante disposição do artigo 528, § 3º, do Código de Processo Civil, o prazo é de um a três meses, independentemente de definitivos ou provisórios e da forma como foram estabelecidos (em sentença, decisão interlocutória ou extrajudicialmente) (DIAS, 2017).
Destaca-se que, conforme entendimento da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, exarado no julgamento do Habeas Corpus n. 523.357/MG, datado de 16 de outubro de 2020, a única hipótese de prisão por dívida admitida no ordenamento jurídico brasileiro é aquela relacionada à pensão alimentícia com origem no Direito de Família.
O colegiado reformou o acórdão do Tribunal de Justiça do Paraná que havia determinado a prisão civil do devedor em razão do não pagamento da obrigação alimentar aos filhos de uma mulher vítima de homicídio cometido por ele.
A relatora, Ministra Isabel Gallotti, concedeu habeas corpus sob o argumento de que a regra da execução de sentença indenizatória prevista no artigo 533 do Código de Processo Civil não pode ser alargada.
Outro entendimento do Superior Tribunal de Justiça que merece registro é o da inaplicabilidade da teoria do adimplemento substancial nas controvérsias relacionadas a obrigações de natureza alimentar:
HABEAS CORPUS. DIREITO DE FAMÍLIA. TEORIA DO ADIMPLEMENTO
SUBSTANCIAL. NÃO INCIDÊNCIA. DÉBITO ALIMENTAR
INCONTROVERSO. SÚMULA N. 309/STJ. PRISÃO CIVIL. LEGITIMIDADE.
PAGAMENTO PARCIAL DA DÍVIDA. REVOGAÇÃO DO DECRETO PRISIONAL. NÃO CABIMENTO. IRRELEVÂNCIA DO DÉBITO. EXAME NA VIA ESTREITA DO WRIT. IMPOSSIBILIDADE. 1. A Teoria do Adimplemento Substancial, de aplicação estrita no âmbito do direito contratual, somente nas hipóteses em que a parcela inadimplida revela-se de escassa importância, não tem incidência nos vínculos jurídicos familiares, revelando-se inadequada para solver controvérsias relacionadas a obrigações de natureza alimentar. 2. O pagamento parcial da obrigação alimentar não afasta a possibilidade da prisão civil. Precedentes. 3. O sistema jurídico tem mecanismos por meio dos quais o devedor pode justificar o eventual inadimplemento parcial da obrigação (CPC/2015, art. 528) e, outrossim, pleitear a revisão do valor da prestação alimentar (L.
5.478/1968, art. 15; CC/2002, art. 1.699). 4. A ação de Habeas Corpus não é a seara adequada para aferir a relevância do débito alimentar parcialmente adimplido, o que só pode ser realizado a partir de uma profunda incursão em elementos de prova, ou ainda demandando dilação probatória, procedimentos incompatíveis com a via estreita do remédio constitucional.5. Ordem denegada. (HC 439.973/MG, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Rel. p/ Acórdão Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 16/08/2018, DJe 04/09/2018) (grifou-se).
O Ministro Antônio Carlos Ferreira ressaltou que a teoria do adimplemento substancial, apesar de não positivada no ordenamento jurídico brasileiro, está incorporada em nosso Direito por força da aplicação prática de princípios típicos das relações contratuais, como a função social do contrato, a boa-fé objetiva, a vedação ao abuso de direito e ao enriquecimento sem causa.
A obrigação alimentar, por seu turno, diz respeito a bem jurídico indisponível, ligado à subsistência do alimentando, cuja relevância ensejou fosse incluído como exceção à regra geral que veda a prisão civil por dívida, conforme inciso LXVII, artigo 5º, da Constituição Federal, o que evidencia ter havido ponderação de valores, pelo constituinte originário, acerca de possível conflito com a liberdade de locomoção, outrossim um direito fundamental de estatura constitucional.
Por fim, faz-se mister mencionar o entendimento do Superior Tribunal de Justiça acerca da impossibilidade da alteração, de ofício, do procedimento da execução escolhido pelo credor dos alimentos, substituindo o rito da prisão civil (CPC/2015, art. 528, § 3º) pelo da penhora (CPC/2015, art. 528, § 8º). Sob este fundamento, a Terceira Turma manteve o procedimento executivo nos moldes propostos pelos autores, qual seja, rito da prisão civil, na forma do artigo 528, § 3º, do Código de Processo Civil (Recurso Especial n. 1.773.359).
O Ministro Relator Marco Aurélio Bellizze ressalta, em seu voto, que cabe ao credor a escolha do procedimento a ser adotado na busca pela satisfação do crédito alimentar no
cumprimento de sentença, bem como na execução de título extrajudicial, podendo escolher o procedimento que possibilite ou não a prisão civil do devedor.
4 AS CONSEQUÊNCIAS PATRIMONIAIS DA NÃO VERIFICAÇÃO DA PATERNIDADE DO ALIMENTANTE
4.1 IMPUTAÇÃO DE FALSA PATERNIDADE E A RESPONSABILIDADE CIVIL DA