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A Problemática da Definição de RSU: Implicações na Sua Quantificação

P RODUÇÃO DE E SCÓRIAS

2.2 A Problemática da Definição de RSU: Implicações na Sua Quantificação

Durante muito tempo, considerou-se que todos os materiais provenientes das zonas urbanas, em fim de ciclo de utilização e que não detinham qualquer valor comercial de uso, eram parte integrante dos RSU. Todavia, tal como indicam Le Goux e Le Douce (1995), os problemas de saúde pública e ambientais associados à acumulação destes materiais, em determinados locais, obrigaram a que esta noção primitiva de RSU evoluísse para o conceito de sub-produto. A base deste conceito assenta na necessidade de se encontrar um destino adequado, sob os pontos de vista técnico, económico e ambiental, para estes materiais. No âmbito deste conceito de sub-produto, destaca-se a definição francesa de resíduo, como uma das primeiras, a nível mundial, a fazer referência à dualidade resíduo/sub-produto. A Lei francesa sobre resíduos, de 15 de Julho de 1975, define estes materiais como sendo “todo o resíduo resultante de um processo de produção, transformação ou utilização, toda a substância, material, produto ou, mais genericamente, todos os bens móveis abandonados ou cujo detentor destine ao abandono”.

A leitura atenta desta definição permite concluir que, embora seja mais evoluída do que a definição primitiva, é ainda demasiadamente genérica para permitir uma clarificação do que se poderá entender por RSU, resíduo industrial banal, resíduo industrial perigoso ou resíduo hospitalar. Na realidade, uma definição, tão exacta quanto possível, do que se entende por cada um destes tipos de resíduos é, hoje em dia, uma matéria de importância crucial na determinação das políticas de gestão de resíduos. Com efeito dela depende o conhecimento dos quantitativos produzidos, das fracções valorizáveis e do dimensionamento dos sistemas de valorização, tratamento e deposição final. Todavia, é de realçar que não existe uma definição universalmente aceite para RSU. Em geral, cada país possui a sua própria definição de RSU. Todas elas apresentam variações mais ou menos significativas entre países, agências de ambiente ou, até mesmo, entre diferentes regiões do mesmo país (Chandler et al., 1997).

A este respeito, é possível citar as definições indicadas pelo regulamento norte-americano “Resource Conservation and Recovery Act” (RCRA, 1984) e pelo governo canadiano, num relatório sobre o estado do ambiente no Canadá, datado de 1991, como dois exemplos extremos da definição de RSU. A primeira indica que por RSU se entendem todos os resíduos sólidos, lamas de estações de tratamento de resíduos, de estações de tratamento de águas ou

de sistemas de controlo de emissões gasosas, ou quaisquer outros materiais rejeitados, de natureza sólida, líquida, semi-sólida ou gasosa, resultantes das actividades domésticas, industriais ou de carácter agrícola existentes nas zonas urbanas (RCRA, 1984). A segunda definição é mais concisa e restrita, indicando que por RSU se deverão entender todos os resíduos resultantes de actividades domésticas, da indústria ligeira, de actividades comerciais ou institucionais, os quais são recolhidos pelas autarquias ou por entidades contratadas para o efeito (Government of Canada, 1991).

Ao nível da UE, esta questão do conceito de RSU não se encontra também convenientemente esclarecida entre os diversos Estados-Membros. Aqui, todavia, este problema assume contornos um pouco mais preocupantes, uma vez que, embora não exista uma definição comum sobre RSU, foi considerada, para os diferentes Estados-Membros, no 5º Programa de Acção Ambiental da UE (COM(92)23, 1992), a meta de 300 kg.hab-1 para a produção média de resíduos municipais, no ano 2000. Este valor correspondia ao valor médio determinado para o ano de 1985 e equivalia a um decréscimo de cerca de 100 kg.hab-1, relativamente ao valor médio actual. De acordo com os indicadores ambientais de 2001 (EEA, 2001), esta meta não foi atingida e a tendência actual é, ainda, de aumento da produção média, per capita, dos resíduos municipais. Segundo o relatório técnico nº 3/2000, da Agência Europeia de Ambiente (EEA, 2000), esta meta não é clara quanto à sua relação com os quantitativos de resíduos recolhidos pelas autarquias, normalmente entendidos como RSU, nem mesmo com os quantitativos de resíduos de origem doméstica, vulgarmente entendidos como uma fracção importante dos RSU. Assim, segundo este mesmo relatório técnico, a ausência de precisão na definição dos diferentes resíduos de origem urbana e, em particular, no conceito de RSU, torna pouco útil o estabelecimento de metas, como a anteriormente referida.

A OECD e o Eurostat têm publicado dados sobre a produção de resíduos municipais e domésticos, nos Estados-Membros da UE, nos países membros da EFTA e nos países que se encontram em fase de adesão à UE. Como se pode verificar pela análise dos dados apresentados no Quadro 2.1, a produção de RSU e de resíduos domésticos, per capita, varia significativamente entre os diferentes Estados-Membros da UE. Os valores dos resíduos domésticos apresentados para a Dinamarca e para a Holanda (500 e 470 kg.hab-1.ano-1, respectivamente) são aproximadamente o dobro dos valores indicados para a Islândia e para o Luxemburgo, e cerca de 60% superiores aos valores reportados para a Áustria, Alemanha e Noruega. Estas variações são habitualmente atribuídas a diferenças na estrutura económica dos países, no nível e estilo de vida dos cidadãos, nas políticas de gestão de resíduos, nas

metodologias de recolha da informação relativa aos resíduos produzidos, e, também, nas definições de resíduos existentes em cada Estado-Membro, as quais condicionam os quantitativos inseridos em cada uma das categorias de resíduos consideradas.

Quadro 2.1 Produções de resíduos domésticos e RSU, em 1995 ou num ano posterior, nos países membros da EEA (valores expressos em kg.hab-1) (OECD/Eurostat, 1997)

País Resíduos

domésticos RSU País

Resíduos domésticos RSU Dinamarca 500 530 Áustria 310 480 Holanda 470 580 Alemanha 300 320 Itália 400 470 Noruega 300 620 Espanha n. d. 370 Irlanda 290 430 Suécia 360 440 Luxemburgo 250 530 Portugal n. d. 350 Islândia 240 560

Reino Unido 340 n. d. Finlândia 180 410

França 340 470 Bélgica n. d. 470

Grécia n. d. 310

n. d.: não disponível

A EEA tem prestado atenção a este problema da definição de resíduos sólidos e, em particular, dos resíduos domésticos e dos RSU, uma vez que não foi assegurada, até ao momento, a comparabilidade dos resultados estatísticos, enviados por cada Estado-Membro. A EEA dedicou um relatório técnico, publicado em Abril de 2000, ao problema da comparabilidade dos dados estatísticos produzidos por cada Estado-Membro, em matéria de resíduos domésticos e RSU (EEA, 2000). Neste relatório técnico, foi reservada uma parte importante ao problema das definições de resíduos domésticos e de RSU. A Agência Europeia de Ambiente verificou que estas definições têm evoluído ao longo dos questionários conjuntos da OECD/Eurostat, pelo menos entre 1992 e 1998. Essas alterações têm reflectido, basicamente, as modificações verificadas nos sistemas de gestão de resíduos que ocorreram, durante aquele período, em diversos Estados-Membros. De qualquer modo, a EEA considerou que as definições de RSU e resíduos domésticos utilizadas pela OECD e pelo Eurostat são demasiado complexas para poderem ser utilizadas, de um modo uniforme, pelos diversos Estados-Membros.

A Directiva Europeia sobre Aterros (Directiva do Conselho nº 1999/31/CE) define RSU do modo seguinte: “Resíduos produzidos em habitações (resíduos domésticos) e outros resíduos que, pela sua natureza ou composição, são similares aos resíduos domésticos”. Esta definição é semelhante à primeira utilizada pela OECD e pelo Eurostat, uma vez que não faz qualquer

referência ao tipo de recolha praticado, restringe os RSU a um tipo de resíduos (resíduos domésticos) e não os associa às possíveis fontes.

Perante este conjunto de informação, a EEA concluiu que a definição de RSU proposta pela CE, na Directiva sobre Aterros, sendo mais simples do que a da OECD e do Eurostat, é mais facilmente aplicável à diversidade dos Estados-Membros. Todavia, a EEA salienta que a comparabilidade dos dados estatísticos relativos à produção de RSU, fornecidos por cada Estado-Membro, é praticamente impossível, face à actual variabilidade económica, social e dos sistemas de gestão de resíduos praticados naqueles Estados.

A nível nacional, a definição de RSU, que é possível encontrar na legislação actualmente em vigor, surge no Decreto-Lei (DL) nº 239/97, de 9 de Setembro, o qual estabelece as regras a que fica sujeita a gestão de resíduos. Este DL revogou o DL nº 310/95, de 20 de Novembro. De acordo com o artigo 3º do DL nº 239/97, os RSU compreendem todos os resíduos domésticos ou outros resíduos semelhantes, atendendo à sua natureza ou composição, nomeadamente os provenientes do sector de serviços ou de estabelecimentos comerciais ou industriais e de unidades prestadoras de cuidados de saúde, desde que, em qualquer dos casos, a produção não exceda 1100 L, por produtor. Esta definição é, em parte, semelhante à indicada pela CE na Directiva sobre Aterros. A diferença substancial entre estas duas definições reside no facto da definição nacional introduzir um factor de gestão destes resíduos, através da fixação de um quantitativo máximo de produção, por tipo de produtor.

Da existência de definições tão diversas sobre RSU resulta, necessariamente, a existência de diferentes sistemas de recolha, transporte e transferência destes resíduos, quer a nível europeu, quer mundial. Consequentemente, os quantitativos estimados de RSU produzidos traduzem estas diferenças, sendo expectável a existência de uma variabilidade significativa nos valores indicados como sendo produzidos em diferentes países e, dentro do mesmo país, entre regiões diferentes.

2.3 Alguns Dados sobre a Produção e a Gestão de RSU na