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A.3 Data de execução das buscas

3.2 A Problemática

3.2

A Problemática

Quando se pensa em pessoas como sensores em sua máxima extensão, na qual interações de quaisquer natureza assumem importância enquanto passíveis de registro, não são poucas as oportunidades em que isso se apresenta como uma alternativa mais que viável, tanto em sua forma passiva - sem participação explícita ou consentimento - quanto ativa, de livre e espontânea vontade.

Geralmente a atuação como sensores vivos se dá através de aplicações para dispositivos móveis, tipicamente munidos de vários sensores - como Global Positioning System (GPS), sensor de inércia, de proximidade, luz, bússola, microfone, câmera, etc. - habilitados para uso de Internet. Porém, existem outras formas de interação que transformam nossos dados e ações em informação de utilidade para algum contexto/domínio, a exemplo das atividades diárias mencionadas na Seção anterior.

Além dos dados e respectivos contextos já mencionados, considerando uma escala mas- siva, o monitoramento contínuo, o efeito incremental (como chamado em (Tene and Polonetsky, 2012), devido ao fato de, uma vez o dado exposto online, torna-se quase impossível recuperá-lo ou excluí-lo), a capacidade de análise sofisticada e a forma como os dados são armazenados atualmente, fazem com que os dados sejam cada vez mais granulares, reveladores, permitindo que as corporações consigam extrair mais informações sobre os indivíduos aos quais se referem, aumentando sua competitividade sobre a concorrência através de vantagens injustas sobre os consumidores; concomitantemente, podem-se levantar questionamentos a respeito dos processos de tomada de decisão automatizados, que imputam as decisões sobre a vida de um indivíduo - tais como avaliação de crédito, perspectiva de trabalho e elegibilidade para a cobertura de seguro ou benefícios - para métodos automatizados baseados em algoritmos e inteligência artificial (Rubinstein,2013).

Uma pesquisa realizada na União Europeia, denominada Eurobarometer (eur,2011), tinha como objetivo compreender o entendimento dos europeus com relação à exposição de dados pessoais, sua consciência de como essas informações podem ser armazenadas para futura análise, suas preocupações em relação a esses novos usos de seus dados pessoais, suas formas de proteger esses dados e suas expectativas em relação à regulamentação da proteção aos dados.

Parte dos entrevistados reconheceu que não há alternativa além de expor seus dados se o que se quer é obter produtos ou serviços. Quando questionados sobre a responsabilidade do manuseio seguro dos dados em redes sociais e/ou sites de compartilhamento, a maioria dos internautas (74%) achavam que deviam ser eles mesmos os responsáveis, contanto que lhes fossem disponibilizados mecanismos para fazê-lo. Quando concedida a oportunidade de nomear uma segunda entidade a quem responsabilizar, os resultados mencionavam redes sociais ou sites de compartilhamento (73%); as autoridades públicas foram muito menos citadas (45%), apesar de reconhecer que sanções para violações nos direitos de proteção aos dados, impondo uma multa em organizações que fizessem o uso de dados pessoais sem conhecimento/consentimento

3.2. A PROBLEMÁTICA 41 prévio, deveriam ser a principal prioridade dessas entidades.

Em novembro de 2012, uma pesquisa realizada no Brasil pela FutureSight (FutureSight, 2012), a pedido da GSMA5, uma representante dos interesses da indústria mundial de comuni- cação através de dispositivos móveis, agregando aproximadamente 800 operadoras de serviços de telefonia móvel e mais de 200 corporações do ecossistema móvel, incluindo fabricantes, indústria de software, equipamentos, geradores de conteúdo digital – como ela mesmo se des- creve – buscou estudar meios de prover aos usuários formas contextualizadas e amigáveis de gerenciamento de informações e privacidade em dispositivos móveis. O propósito geral era entender as preocupações do público brasileiro sobre privacidade e como essas preocupações influenciavam suas atitudes frente ao uso de serviços e aplicações móveis (na Internet), com o intuito de desenvolver uma experiência de privacidade efetiva e consistente, ajudando usuários a se tornarem familiarizados com a forma que gerenciam sua privacidade em dispositivos móveis.

Quando questionados sobre suas preocupações com relação à privacidade de seus dados, 86% dos usuários manifestaram essa preocupação quando acessavam a Internet ou aplicações de um dispositivo móvel. Entretanto, desse percentual, 66% estariam dispostos a continuar a utilização, independente do risco, e 32% continuariam a utilização se pudessem sentir que suas informações estariam em segurança.

Dos entrevistados, 81% se consideravam seletivos na decisão de para quem exporiam seus dados e, 2 em cada 3 usuários, verificavam as informações que uma aplicação quer acessar antes realizar a instalação. Apesar de manifestar essa consciência de escolha, 51% assumiram concordar com os termos de privacidade sem lê-los e, desse percentual, 74% justificaram que não o fazem porque os termos são muito extensos.

Um dos tipos de informação mais coletados pelas aplicações, a localização, também foi assunto da pesquisa. Dentre os usuários que utilizavam serviços geolocalizados, 92% disseram que gostariam de ser perguntados sobre a permissão de compartilhamento de sua localização; além disso 78% manifestaram preocupação com o acesso de terceiros à sua localização e 55% acreditam que deveria ser estabelecido um conjunto consistente de regras a serem aplicadas nesta situação.

Sobre a culpa, em caso de violação de privacidade, a maioria (58%) respondeu que recor- reria às operadoras de telefonia móvel, independente de quem fosse a culpa. Isso provavelmente se deve ao fato de 52% dos entrevistados acreditarem (cegamente) que as operadoras estavam tomando as devidas precauções para manter seus dados em segurança.

Em ambas as pesquisas, o que se nota é que falta uma preocupação de empresas, governo e desenvolvedores de aplicações quanto à perspectiva do usuário sobre o contexto geral de uso de seus dados. Neste sentido, pode-se constatar que falta transparência, com meios esclarecidos para que o usuário possa optar por usar uma funcionalidade ou autorize que ela seja executada (automaticamente), dentro de um escopo de exposição controlado pelo usuário a todo tempo, que seria o cenário minimamente ideal na provisão de serviços que lidam com dados pessoais

3.2. A PROBLEMÁTICA 42 (Walravens,2011).

Finalmente, o problema de uma abordagem centrada em pessoas é que os humanos são entidades de comunicação/sensoriamento naturalmente passivas, em grande parte do tempo não envolvidas no processo, aguardando algum estímulo externo que se traduza em proposição de valor em algum nível (pessoal, social, econômico, cultural, por exemplo), que torne a troca justa (Lee et al.,2011). Com isso, para tornar pessoas em sensores efetivamente, as aplicações têm que sentí-las, suas necessidades, desejos, seu entorno, suas interações com o meio em que estão imersas e com as pessoas à sua volta, sem requerer delas a execução de tarefas tediosas (como abrir/acessar uma aplicação diversas vezes, preencher formulários ou pressionar botões) com o único propósito de fazê-las atuar como fonte de dados. É necessário engajá-las com aplicações que proporcionem algum valor agregado, ajudá-las a lidar com sua rotina cotidiana e, baseado neste tipo de interação e de forma transparente, torná-las em sensores urbanos vivos.

A visão das pessoas registradas pela pesquisa retrata uma visão imediatista sobre o assunto. Entretanto, todo este cenário de privacidade se agrava quando se pensa a longo prazo. Como já citado anteriormente, o monitoramento constante ao qual as pessoas estão expostas, aliado à evolução tecnológica atual, regada à computação em nuvem, big data e conceitos adjacentes, elevam o tema privacidade para um nível mais sofisticado e um tanto quanto não explorado, que se intersecta com mecanismos legais que vêm sendo criado para dar respaldo ao cidadão comum. É sobre essa intersecção que a seção a seguir vai discutir.