3 A REGULAÇÃO JURÍDICA DAS PATENTES NA BIOTECNOLOGIA
3.4 A PROBLEMÁTICA DOS MICROORGANISMOS NA LEI 9.279/96.
Dentre as considerações referentes ao patenteamento, a serem discutidas neste tópico, destaca- se a inclusão do termo “microorganismos” como exceção feita ao patenteamento de seres vivos, o que já foi apontado. A inclusão, na lei brasileira de patentes, do termo
“microorganismos”, causou e tem causado muita polêmica no meio científico e jurídico, justamente por representar um termo bastante vago, e, como todo termo vago, possibilitar diferentes margens de interpretação.
Esta inclusão foi apenas uma das inúmeras imposições a que o Brasil se submeteu quando da feitura da Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/96), também chamada de Lei de Propriedade Intelectual. Essa pressão foi feita pelos Estados Unidos141, país que tem ditado, em elevado grau, as diretrizes a serem seguidas no âmbito da propriedade intelectual em todo o mundo.
Entretanto, o termo “microorganismo” não está apenas presente na legislação brasileira no que se refere ao patenteamento. Na legislação de inúmeros países, assim como no Brasil, proíbe-se o patenteamento de seres vivos, mas admite-se a exceção no que se refere aos microorganismos. Essa, por sinal, é a regra na legislação da maioria dos países estrangeiros.
E qual o fim de tal inclusão? Ou, sob outra ótica, qual o fim de tal permissão? Vale repetir, a lei proíbe o patenteamento de seres vivos, mas abre uma exceção no que tange aos microorganismos, incluindo-os no rol de invenções patenteáveis.
A lógica dessa inclusão parece revelar-se nas possibilidades infinitas de exploração de um comércio sobre os seres vivos.
Tomando como base a definição de “microorganismos”, vê-se que estes, por apresentarem inúmeras definições e por possibilitarem inúmeras abordagens, podem vir a englobar uma série de estruturas vivas que serão, com a salvaguarda da lei, passíveis de patenteamento. Como já foi dito em tópico anterior, para alguns autores, podem ser compreendidos, na definição de microorganismos, os genes humanos. Em inúmeros países desenvolvidos, como exemplo a Dinamarca, já até se admite o patenteamento de genes humanos.
É imperioso abrir exceções para não “fechar todo o sistema”. No que tange às possibilidades de patenteamento, os legisladores, nacionais e estrangeiros, viram-se, com o desenvolvimento da ciência e os limites éticos a ela impostos, num grande conflito entre a permissividade legal
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ao patenteamento das formas vivas e o necessário controle sobre a exploração econômica destas estruturas.
Como coadunar estes interesses em conflito? Vive-se certamente em um conflito em que se tem, de um lado, descobertas inimagináveis no campo das ciências, passíveis de aplicação industrial e, de outro, a lei, que se torna imperiosa para estabelecer controles éticos sobre esses avanços científicos.
A possibilidade de patenteamento dos chamados microorganismos parece ser, então, a “válvula de escape” que o legislador encontrou para coadunar esses interesse em conflito. As legislações, nacionais e estrangeiras, num primeiro plano, partem da proibição, para depois adentrarem nas exceções. A exceção a que se refere é a de admitir-se como legal e possível o patenteamento dos microorganismos.
Parte-se, como dito, da proibição de patenteamento de seres vivos, tanto animais como vegetais. Entretanto, com a possibilidade de patenteamento dos microorganismos engenheiráveis, uma grande margem de material genético está sendo patenteado ou, no mínimo, está à mercê do patenteamento por pura permissão legal.
A lei atual abre um leque de possibilidades, pois, permitindo o patenteamento de microorganismos, possibilita que um rol de múltiplas formas vivas sejam patenteadas. Em todo caso, cabe aos Órgãos Públicos averiguar cada situação, no sentido de se fiscalizar se a concessão de patentes feriu determinados limites éticos. Em sendo a hipótese, deve-se agir de imediato na suspensão de concessão da patente requerida.
A responsabilidade de coibir os abusos referentes ao patenteamento de seres vivos tem fundamento na proteção do ente humano, da espécie humana e, em último grau, da própria humanidade. Esta não pode ficar à mercê de um avanço sem limites da ciência, sobretudo quando este avanço representar interesses meramente comerciais de grupos e empresas privadas, que visam, exclusivamente, o lucro.
Para dirimir os conflitos e dúvidas relacionados às múltiplas possibilidades de patenteamento dos seres vivos, julga-se fundamental e imprescindível a investigação dos limites e contornos do termo “microorganismo”, bem como quais seres vivos relacionam-se ao mundo
microbiano, já que, vale lembrar, a permissão de patenteamento de seres vivos somente se estende a estas formas vivas.
Assim, deste esforço, pretende-se chegar à conclusão de quais seres vivos podem ser patenteados segundo o Direito Brasileiro, objetivo principal deste trabalho.
4 OS MICROORGANISMOS (UMA HERMENÊUTICA BIOLÓGICA)
4.1 O QUE SÃO MICROORGANISMOS
A lei brasileira de patentes, como dito anteriormente, proíbe o patenteamento de seres vivos na modalidade “microorganismos”; destes, os transgênicos, ou seja, os microorganismos modificados geneticamente pela ação do homem. São também chamados de “engenheiráveis” ou “engenheirados”, já que se parte, para a sua modificação, das modernas técnicas de engenharia genética.
Não traz a lei, entretanto, a definição do que seja um “microorganismo”. De fato, o que é um microorganismo? O que pode ser compreendido como um microorganismo? É de fundamental importância esta caracterização, já que se trata, em última análise, da concessão de direitos de exploração de inventos relacionados a seres vivos, sobre estruturas presentes na natureza e no próprio corpo humano, com todas as implicações éticas, morais e jurídicas daí derivadas. Torna-se, assim, imperiosa a caracterização destas formas vivas, a fim de se determinar o que pode ou não ser patenteado nessa área.
Para se trazer a lume o significado e abrangência do que sejam microorganismos, far-se-á uso das definições trazidas palas ciências médicas e biológicas. A partir dos dicionários de Medicina e Biologia, verificar-se-á inicialmente o alcance dado ao termo “microorganismo”.
Da obra “Mosby’s Medical Nursing Dictionary”, tem-se a seguinte definição: “Microorganism – any tiny, usually microscopic entity capable of carrying on living