METODOLOGIA: FUNDAMENTAÇÃO E PROCEDIMENTOS
1. A problemática Questões de pesquisa e objectivos
Elegemos como foco principal do nosso estudo a supervisão que é praticada pelos coordenadores dos departamentos curriculares de línguas de uma escola secundária.
Fizemo- lo no pressuposto de que, exercida na sua dupla vertente pedagógica e administrativa, essa forma de supervisão poderá ser entendida como uma “acção facilitadora e mobilizadora do potencial de cada um e do colectivo dos seus membros” (Alarcão, 2001b) logo, promotora de desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional.
Por que as acções não podem ser dissociadas das pessoas, numa escola com pessoas e para pessoas (Formosinho et al, 2000) e porque as novas funções decorrentes da reorganização das estruturas intermédias de gestão foram por nós entendidas como transições ecológicas, interessámo-nos por construir conhecimento sobre as interacções contextuais, da perspectiva dos sujeitos que as experienciam. Assim, procurámos aceder às expectativas e representações dos sujeitos directamente ou indirectamente relacionados com os departamentos curriculares de línguas (coordenadores, docentes e presidente do conselho pedagógico/presidente do conselho executivo), sobre supervisão enquanto desafio de mudança organizacional e pedagógica e enquanto realização concreta a nível do funcionamento daquelas estruturas intermédias de gestão. Procurámos ainda conhecer possíveis constrangimentos, factores organizacionais que facilitaram o exercício das funções supervisivas e grau de (in)satisfação sentido no exercício dessas tarefas.
Apesar de envolvermos no estudo sujeitos com papéis diferentes relativamente ao exercício da supervisão, a nossa problemática foi construída em torno da figura central do coordenador de departamento curricular, enquanto gestor intermédio, uma vez que tem legitimidade institucional para estimular o debate interno, e também para promover formas de articulação com as outras estruturas de administração e de gestão da escola. Por outras palavras, cabe- lhe um papel de relevo na construção e no aprofundamento das formas de autonomia, próprias da especificidade do seu (macro)contexto, com a missão de co-construir as políticas educativas de escola que a podem configurar como organização aprendente. Neste horizonte conceptual podemos afirmar que a nossa problemática se enquadra na ecologia do desenvolvimento humano, na perspectiva de Bronfenbrenner, visto que:
"implica o estudo científico da interacção mútua e progressiva entre, por um lado o indivíduo activo, em constante crescimento, e, por outro lado, as propriedades sempre em transformação dos meios imediatos em que o indivíduo vive, sendo esse processo influenciado pelas relações
entre os contextos mais imediatos e os contextos mais vastos em que aqueles se integram"
(Portugal: 1992: 37).
De entre os “contextos mais vastos” seleccionámos o Conselho Executivo e o Conselho Pedagógico, órgãos de gestão com os quais os Departamentos Curriculares articulam, horizontalmente, a sua acção, isto é, interagem para conceber, planear e avaliar a missão da escola. Não podemos, pois, dissociar as relações intracontextuais das intercontextuais no processo de “interacção mútua” e na especificidade da sua configuração organizacional. Dito de outro modo, acreditamos que a acção supervisiva que se pratica no interior de cada departamento curricular é afectada pelo desenho organizacional adoptado, desenho esse que influencia todas as formas de interacção que ocorrem no interior dos departamentos bem como as que estes estabelecem com os diferentes órgãos e estruturas da escola.
É neste enquadramento que a supervisão se pode instituir como um mecanismo indispensável à construção da qualidade da escola (ou de uma escola de qualidade), como uma estratégia de formação praticada com a finalidade de gerar o desenvolvimento de todos, responsabilizando os parceiros “pela manutenção do percurso institucional traçado pelo projecto educativo de escola” (Alarcão. 2001a). Assistimos deste modo a um alargamento conceptual do seu âmbito significativamente associado às mudanças paradigmáticas na formação de professores.
Relembremos que a supervisão como mecanismo indissociável da formação de professores surge explicitamente referenciada nos normativos legais em 1989, no âmbito da Formação em Serviço (formação inicial retardada). Mas só em 1998, uma década volvida, o poder central a reconhece como uma actividade dos gestores das estruturas intermédias de escola, através da publicação do Decreto Regulamentar nº 10 /99, onde reconhece igualmente a importância da formação especializada nessa área, para o exercício do cargo. No referido documento se enumeram as competências destes gestores, na esfera de um paradigma de escola que a perspectiva como contexto de formação (contínua) no exercício da actividade profissional. Compreende-se, então, que no desempenho dessa actividade possam os supervisores diversificar funções de apoio e de aconselhamento, de orientação e de ajuda não só nos contextos pelos quais estão directamente responsabilizados, mas também nos contextos mais vastos com os quais interagem.
Posicionámo-nos deste modo numa abordagem à gestão intermédia de uma escola secundária, abordagem esta que vem sendo reclamada pelas Ciências da Educação (Nóvoa, 1991) como meio de aceder ao conhecimento, à compreensão e à intervenção nas culturas de escola, nomeadamente à cultura organizacional. É dessa perspectiva que procurámos alargar o nosso foco de análise às transições ecológicas, isto é, à assunção dos novos papéis, das novas competências (de supervisão) cometidas aos coordenadores de departamento (decorrentes da implementação do regime de autonomia das escolas), por comparação com as desempenhadas pelo delegado de grupo/disciplina, no modelo anterior.
A opção pelo estudo dos departamentos curriculares de línguas prende-se com a nossa própria especialidade profissional enquanto docente de línguas. Funda-se também nos quadros conceptuais que sustentam o potencial formativo que a educação em línguas pode trazer na educação para os valores, para a construção da cidadania europeia e para o processo de re-socialização do aluno, o que equivale a dizer que a escola deve prestar uma cuidadosa atenção às políticas linguísticas que define. É nessa medida que entendemos que a supervisão praticado pelos coordenadores dos departamentos curriculares de línguas, dada a sua multidimensionalidade e multimodalidade, interage com todos aqueles que, na escola, se responsabilizam pela qualidade e pela sustentabilidade da qualidade do ensino e da aprendizagem nomeadamente nas questões de gestão e de articulação do currículo, na concepção e implementação de projectos de inovação. Situamo-nos, deste modo, numa perspectiva interactiva, “transpondo” o modelo de desenvolvimento humano bronfenbreniano para o desenvolvimento institucional (Alarcão, 2001b), procurando explorar algumas das lógicas de funcionamento que configurem a escola como organização que aprende.
Este enfoque na nossa pesquisa parece ganhar maior oportunidade numa época de revisão curricular que pode fazer emergir a necessidade de revisão dos contextos de debate e de tomada de decisão, isto é, não descurar a morfologia dos contextos de trabalho dos professores de línguas. São também razões/inquietações de natureza contextual que influenciaram as orientações tomadas.
As razões que levam a escola a optar por um determinado desenho organizativo
poderão estar associadas a factores mais de natureza pedagógico-didáctica relativos ao ensino e à aprendizagem das línguas, ou, por outro lado, a factores de ordem funcional/organizacional, ou ainda, traduzir a manutenção de rotinas instaladas ou interesses corporativos sedimentados. Quando nos referimos aos factores de natureza
pedagógico-didáctica reportamo-nos às orientações macro-políticas (europeias e nacionais) para o ensino das línguas em contexto escolar e ainda à investigação em didáctica das línguas-culturas que vem enfatizando a importância que os professores devem conceder às aquisições linguísticas já realizadas quando se aprende uma nova língua. Para que os professores de línguas possam reflectir sobre essas aquisições os didactas vêm chamando a atenção para os contextos que se revestem de uma importância estratégica para o trabalho de planeamento dos professores de línguas e para as opções metodológicas em sala de aula. Explicitando o que acabámos de afirmar, da configuração que a escola adoptar para os departamentos de línguas sairá (ou não) beneficiada a pedagogia integrada entre os ensinos das diferentes línguas e a promoção do desenvolvimento de uma competência plurilingue (Roulet, 1980, 1983, 1985, 2000; Germain, 1983; Py, 1997; Frias, 1992, entre outros).
Podemos então concluir que a problemática deste estudo é interfacial: a supervisão, a escola como organização que aprende e a pedagogia integrada do ensino das línguas.
O nosso estudo incide, finalmente, sobre as representações dos professores de línguas quanto ao recurso à LM e a outras línguas e às modalidades do exercício de tradução que praticam, numa linha de investigação que procura aceder ao pensamento do professor, nomeadamente à consciência que este tem sobre esse recurso e essa prática. A consciência que tem (ou que revelam não ter) das interacções linguísticas e o tipo de reflexão que dedicam ao ensino e à aprendizagem das línguas serão indicadores das opções que tomam no processo de ensino e aprendizagem das línguas.
Nas questões de pesquisa e nos objectivos, que a seguir se enumeram, procuramos delimitar e explicitar o objecto de investigação em coerência com as nossas próprias motivações e apoiadas pelo enquadramento teórico do nosso estudo.
QUESTÕES DE PESQUISA:
1. Que lógicas determinaram a configuração dos departamentos curriculares de línguas e animam as dinâmicas que neles se desenvolvem?
2. Que formas de exercício de supervisão, potenciadas pelo novo regime de administração e gestão de escola (Decreto - Lei 115-A/98), são praticadas na escola?
3. Quais as representações dos professores dos departamentos curriculares de línguas sobre as práticas de supervisão que neles ocorrem?
4. Que representações têm os professores dos departamentos curriculares de línguas sobre o ensino e a aprendizagem das línguas, nomeadamente sobre práticas transdisciplinares capazes de desenvolver competências de comunicação mais vastas?
Estas questões orientaram a principal finalidade desta investigação – compreender e interpretar uma realidade educativa, de acordo com os significados que os sujeitos participantes lhe atribuem – e conduziram- nos à formulação dos seguintes objectivos:
1. Conhecer as representações dos professores dos departamentos curriculares sobre as formas de supervisão nas estruturas de gestão intermédia - departamentos curriculares de línguas;
2. Analisar algumas das lógicas de organização e de funcionamento das estruturas de gestão intermédia - departamentos curriculares de línguas;
3. Analisar as representações dos professores dos departamentos curriculares de línguas sobre os efeitos das diversas formas de exercício da supervisão nas práticas pedagógico - didácticas;
4. Analisar as representações dos professores de línguas sobre possibilidades de promoção de uma pedagogia integrada de línguas.