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A Procissão do Enterro ou do Senhor Morto

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2 E A GENTE SE APEGAVA AOS SANTOS, TÃO DISTANTES A

2.3 A SEMANA SANTA EM GOIÁS

2.3.4 A Procissão do Enterro ou do Senhor Morto

Como o Canto do Perdão, a Procissão do Enterro apoia-se na figura de Cristo Morto. A figura do Cristo Padecente subsiste até a Procissão do Fogaréu. Notoriamente eclipsada entre as maiores atrações do período quaresmal, do ponto de vista cultural e turístico, essa procissão conta com participação popular e a colaboração dos agentes culturais. Cheia de apêndices, é antecedida pela dramatização da prisão, tortura, julgamento de Cristo e sua caminhada para o Gólgota, realizada por populares. Em seguida, há o Descendimento da Cruz, feita com uma imagem de Cristo articulado. Posto no esquife, segue-se a Procissão do Enterro, que faz o giro completo, o maior dos percursos processionais, como a Procissão do

Encontro. Irmãos e irmãs dos Passos de balandraus e murças presentes, participantes de açucenas à mão, autoridades (copos de papel para portar velas, tornando-as bonitas luminárias andantes). A Procissão contém o esquife do Senhor Morto e o andor de Nossa Senhora das Dores. As imagens perambulam pela cidade seguidas de várias figuras religiosas ligadas à história de Cristo: os doze apóstolos, Simão Cireneu, patriarcas bíblicos do Antigo Testamento e a figura da Verônica de preto e com véu cantando O vos omnes, ladeada pelas Marias-Eús, carpideiras de preto que a acompanham no seu lamento por Cristo Morto.

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Para-litúrgica, como todas as manifestações externas da Quaresma, é feita com apoio da Igreja oficial, sendo palco de disputas de poder entre populares e Igreja, por demonstrar posições de poder e importância na sociedade, conforme se segue na descrição e análise. Na sua realização, os poderes temporais e religiosos estão organizadamente postos à sua frente. O Provedor da Irmandade dos Passos é o primeiro a pôr a mão no esquife, depois da encenação e chama as autoridades para carregá-lo. À direita, o governador ou seu representante, à esquerda o prefeito da cidade ou seu representante. Nas alças traseiras, autoridades judiciárias e legislativas que queiram participar. Na frente de todos, o Bispo caminha, conduzindo a fila. Na atual ocasião, em que a Cidade de Goiás possui uma prefeita, ela lidera o grupo de mulheres notáveis que carregam o andor de Nossa Senhora das Dores, tendo a vaga da prefeitura ao esquife sido ocupada pelo vice-prefeito. Símbolo de símbolos, em torno da imagem de Cristo reúne-se o grupo que responde organização social e política, mostrando o papel que a religião tem na formação da identidade local. Como toda Semana Santa, tende a reproduzir diferenças, quando deveria questioná-las devido a participação popular.

Reminiscente de uma época em que religião e estado se misturavam de modo peculiar, diferente de hodiernamente, nesse momento, no fim da Semana Santa, o Cristo morto tem em torno de si a população e seus representantes numa escala de poder. Os primeiros metros da Procissão são percorridos pelos maiorais, que largam o esquife para, em seguida, Irmãos dos Passos e populares o carregarem. A organização do transporte do caixão fica a cargo da Irmandade dos Passos, que zela também pela organização das fileiras e distribuição de velas e açucenas para os participantes. A Procissão tem seu fim na Catedral de Sant’Ana, sua principal marca é a lugubridade de seu passar, sua teatralidade e imagens de dor e sofrimento representados por Cristo no esquife e Maria a olhá-lo do seu andor.

Como todas as manifestações quaresmais, a realização da Procissão do Enterro foi palco de disputas entre a Diocese de Goiás e os agentes culturais da cidade, durante o episcopado de Dom Tomás Balduíno36, que questionou, entre outras

coisas a atuação cultural nas procissões, a utilização de música polifônica, os cantos em latim, que, de acordo com a Diocese, contrariavam a obrigatoriedade da compreensão por parte do fiel do conteúdo da mensagem das celebrações da Igreja (TAMASO, 2007, p. 632). A Descida da Cruz, os cânticos de motetos das Procissões dos Passos e do Tríduo das Dores acabaram por se tornar motivo de disputa entre membros da comunidade e a Igreja.

Imagem 75: Esquife do Senhor Morto carregado por autoridades. Do lado esquerdo da foto, representante do governo estadual, do lado direito, representante do governo municipal.

36 Bispo da Diocese de Goiás de 1967 a 1998. Bispo emérito desse ano até a data de sua morte, 2 de

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Imagem 76: Autoridades eclesiásticas na Procissão do Senhor Morto. Bispo e Vigário Geral.

Imagem 77: Farricoco diante do esquife, na Procissão do Senhor Morto, na qual participam farricocos e Irmãos dos Passos.

A respeito, especificamente, da Descida ou Descendimento da Cruz, que antecede a grande Procissão do Enterro, escreve Tamaso (2007):

A cerimônia foi, primeiramente, transferida da Catedral para a quadra do Colégio Alcide Jubé e depois, de lá, para o Largo do Chafariz. Estas duas mudanças propostas por Dom Tomás foram justificadas com base na capacidade do lugar para acomodar, com segurança, os fiéis. Mesmo este atestado argumento não foi suficiente para vencer a resistência de muitos vilaboenses tradicionais. No ano em que se realizou na quadra do Colégio Alcide Jubé, caiu uma chuva torrencial no momento em que a procissão acabara de sair e todos tiveram que se recolher com o Senhor na Catedral. Um irmão dos Passos disse: o Senhor não queria sair da quadra para a procissão; querendo dizer que o Senhor preferia partir em procissão

saindo da Catedral. Quando a cerimônia foi transferida para o Largo do Chafariz disseram que Dom Tomás sabia da instabilidade do tempo, naquela época do ano, por isso punha o ritual ao ar livre. No primeiro ano em que o Descendimento da Cruz se deu no Largo, outro vilaboense tradicional, também irmão dos Passos, comentou: o Dom Tomás queria

chuva para nós… e olha a lua que apareceu! (TAMASO, 2007, p. 636-

637).

A Procissão do Enterro é, possivelmente, a ação para-litúrgica que mais sofreu alterações ao longo do século XX. Sua existência não pode prescindir do Descendimento da Cruz, no imaginário local. A cerimônia realizada dentro da Catedral provisória (Capela de Nossa Senhora da Boa Morte) de estética barroca, com música polifônica teve seu local modificado, e constantes ataques ao seu ethos, num diálogo tenso com o hodierno, com a atualidade da espiritualidade oficial, resistindo ao apagamento e a um evidente atentado social e institucional contra a identidade vilaboense trazidos pela própria Igreja Católica, como o concílio do século XX.

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