CAPÍTULO II FUNDAMENTOS TEÓRICOS
2.3. A produção textual: a complexidade do processo
Temos como certo que uma das possíveis causas para os alunos vestibulandos apresentarem problemas em seus textos seja o fato de que a produção de textos escritos e de nível formal rompe com a relação automatizada e involuntária do interlocutor com o texto, comum nas relações cotidianas informais, principalmente no que se refere à oralidade. Na produção escrita formal, não há mais o imediatismo da situação. Introduz-se agora um novo
sistema, uma nova perspectiva que inclui um processo de reestruturação lingüística para o qual muitos produtores não estão preparados.
Geraldi (1997) aponta uma visão diferenciada acerca da elaboração de textos, uma vez que ela se afasta da concepção tradicional de que o texto é algo fechado em si mesmo, portador de um sentido único que está nele próprio. Além disso, afasta a idéia de que a produção é algo mecânico, que não exige análise de receptor, situação e elementos outros de caráter fundamental.
O autor concebe, pois, a elaboração textual como algo que está para além da mera “redação”. Ele visualiza o sujeito enquanto verdadeiro produtor; logo, participante ativo do diálogo com outros textos e com leitores. Este sujeito faz uso de uma série de instrumentos de produção, que correspondem aos recursos expressivos utilizados no momento da escrita.
Da mesma forma, Koch (2003b) pontua a existência de um sujeito produtor ativo. A atividade de produção textual passa a ser visualizada como uma atividade verbal consciente, intencional, criativa e interacional (entre produtor e receptor), que se dá numa situação peculiar. Além disso, a produção age sobre o ambiente natural e social, com vistas a certos resultados que atendem, especificamente, a fins sociais. Assim, o produtor escolhe, no momento da produção, os meios adequados que lhe permitirão a realização dos objetivos na recepção do texto, via manifestação verbal.
Conseqüentemente, a produção de textos sempre se articulará em três aspectos: motivação, finalidade e realização, conforme Koch (2003b, p. 11). Para a autora, toda atividade humana, inclusive esta de ordem verbal ⎯ a produção de textos escritos ⎯, teria alguns fatores fundamentais:
a. existência de uma necessidade / interesse; b. estabelecimento de uma finalidade;
c. estabelecimento de um plano de atividade, formado por ações individuais;
d. realização de operações específicas para cada ação, de conformidade com o plano prefixado;
e. dependência constante da situação em que se leva a cabo a atividade [...] (KOCH, 2003b, p. 12)
Considerando o foco de análise dessa pesquisa, supomos haver um interesse motivador para a produção do texto de vestibular: o produtor pretende ser aprovado no concurso e ingressar no terceiro grau. O problema que talvez possa residir nessa questão é o fato de se tratar de um objetivo exterior ao texto. Ou seja, o objetivo não é se fazer entender, convencer efetivamente alguém a respeito de uma dada idéia. Essa realidade pode interferir muito no produto final ⎯ a redação. No mínimo, definirá a escolha de argumentos e a organização destes no texto.
Quanto à existência de um (adequado) plano de atividade constituído por ações individuais, ele dependerá tanto da fixação de objetivos, como da própria habilidade e disposição do produtor em lidar com a língua escrita e com a estrutura textual. Porém, reconhecemos que o planejamento é essencial para a produção coerente, visto que dá ao produtor melhores condições de determinar e de delimitar as informações a serem distribuídas no texto, todas elas vinculadas à tese desenvolvida. Dessa forma, o indivíduo tende a organizar melhor os dados e a apresentar argumentos fortes em escala argumentativa.
Além disso, buscando seguir seu planejamento e as metas traçadas, o produtor procurará elaborar a mensagem de forma que esta possa ser recebida com menor índice de perturbações. Poderá, pois, ser proficiente ao informar o que julgar de maior importância e interesse para o interlocutor. Dizemos que o produtor “poderá” informar com proficiência, porque o desempenho dele dependerá da habilidade lingüística e textual que possui, ou seja, do conhecimento que adquiriu ao longo de sua vivência. O resultado dos esforços dispensados está ligado à bagagem de conhecimentos que cada produtor tem.
No caso desse trabalho, porém, não buscamos reconhecer e analisar o planejamento e as operações realizadas pelos alunos. Assim, os resultados que obtivemos por meio da pesquisa se pautaram no substrato já elaborado, pronto, tido como retrato da habilidade lingüística e textual do vestibulando.
Quanto à dependência da situação, esse foi um dos fatores analisados, uma vez que pautamo-nos no conceito de gênero. Nesse caso, a situação de produção é que define todas as exigências a respeito de um texto como, por exemplo, a suficiência ou não de dados na superfície lingüística, bem como a variante lingüística que deve ser empregada.
Logo, frente a esses fatores propostos por Koch (2003b) e conforme concebido por Finotti (1994) a respeito da intencionalidade do emissor da mensagem, consideramos que o texto somente será compreendido pelo receptor se, primeiramente, o produtor tiver o interesse de elaborá-lo com a devida clareza, ou se reconhecer essa necessidade. Em caso contrário, não haverá um planejamento, uma releitura e nem mesmo se considerará a situação específica de comunicação, fatores estes que determinam, em grande medida, a qualidade final do texto produzido.
Porém, paralelamente a essa “intenção” por parte do produtor, está a habilidade lingüístico-textual que este possui. Partindo dessa concepção, vemos que a realização lingüística é, da mesma forma, direcionada pelo conhecimento do sistema lingüístico utilizado e o grau de domínio que o indivíduo possui deste sistema. Nesse conjunto, englobamos o projeto gramatical e textual.
Problemas quanto aos conhecimentos prévios do produtor e ausência ou má elaboração de um planejamento de ação verbal culminam em um produto que não atende às expectativas de uma banca examinadora, cujo papel é avaliar a competência lingüística do produtor.
2.4. A produção textual e o estabelecimento da coerência a partir do reconhecimento dos