• Nenhum resultado encontrado

6.3 EM BUSCA DE SENTIDO

6.3.4 A professora Celina

A aula da professora Celina, no dia da filmagem, ocorreu em caráter extraordinário, ou seja, estava além dos dias estipulados no calendário da disciplina.

Foi uma revisão de conteúdo, pois a turma estava com prova agendada para o dia seguinte. Um sistema de atividade aula expositiva, que ocorreu por iniciativa da professora, no segundo dia letivo após um feriado prolongado, no qual ela acreditava que “certamente” os alunos teriam estudado e, portanto, uma oportunidade para os alunos esclarecerem dúvidas e também para sentirem-se mais seguros em relação à prova, que seria com consulta, para avaliar o desenvolvimento de habilidades e não memorização. Os alunos consideraram que alguns pontos cruciais ficaram de fora e que faltou tempo para fazer a revisão, pois o conteúdo da disciplina era muito extenso.

Toda a turma compareceu nesta aula e, segundo a professora, o comportamento da turma manteve-se dentro dos padrões das outras aulas, com muita conversa em sala. Professora Celina credita esse comportamento à imaturidade da turma: “a maioria não trabalha, são jovens, adolescentes”, ponto de vista compartilhado com outros professores que ministram aulas no curso.

Ao longo da disciplina, e em decorrência de sua experiência profissional de mais de dez anos, professora Celina optou por “não se estressar mais” com o comportamento dos alunos: “eu vejo assim, que é uma forma que foi construída, eu vejo assim, que são mais de dez anos que eu dou aula pro curso e se eu analisar lá no começo as coisas que me estressavam, talvez nessa mesma sala de aula eu me estressasse e hoje eu não me estresso com essas questões. Eu até já não me

estresso tanto quanto eu me estressava, porque eu vejo como uma característica da turma que eu preciso trabalhar, porque a gente vem administrando isso, mas tem várias aulas que você chama a atenção uma vez, duas vezes, três vezes. E isso me incomoda e eu vejo que não é só dizer: não conversa, contenha-se, olha a concorrência desleal, são quarenta alunos contra um professor, existem vários outros fatores”. Ao esclarecer o que seriam esses outros fatores, a professora faz uma reflexão sobre sua atuação como professora: “então eles conversam bastante, e não é só o hábito, mas é também o modo que eu estou conduzindo a aula que está permitindo que eles promovam essas conversas, isso é uma coisa que a gente tem que trabalhar, sabe? Eu acho que isso não é uma coisa pra desistir, muito pelo contrário, isso até me estimulou a propor formas diferenciadas de trabalhar com a turma”. E se fez uma autocrítica: “Então pro próximo semestre isso me dá muitos indicadores e com relação à questão da indisciplina, porque eles não começam indisciplinados, eles começam silenciosos, porque eles não se conhecem, então eu vejo assim que eu tenho parcela de participação nessa bagunça, entende?” Outra mudança que pretende fazer é nas: “dosagens, assim, às vezes eu falo demais de uma mesma coisa, isso é uma coisa que eu tenho que me policiar e acho que aprender pra não cansar, porque aquilo que você tem demais, mesmo que seja bom, chega uma hora que se torna coisa muito antiga, comum. Então, se eu parar eventualmente, num momento certo pra fazer uma intervenção”.

A professora mostrou-se determinada a buscar formas de “reverter essa tendência à conversa” a favor da disciplina, “propor quem sabe mais conversa na sala sobre o assunto, porque eles conversam porque a gente ta lá na frente falando, porque se a gente circula na sala, como acontece em alguns momentos, fazendo exercícios, eles podem ate conversar, mas o assunto vai ser mais focado pra aula, mas se a gente fica lá na frente, eles lá atrás”. Ao final da disciplina perguntou quem iria permanecer no curso, porque os ouvira comentar que fora a instituição um dos principais motivos para estarem ali e não o curso de administração, que não havia sido a primeira opção no processo de seleção. Ela ficou impressionada com a resposta dos alunos: “ninguém se manifestou que ia mudar de curso, sabe, nossa, eu falei pra eles que bom que vocês vão ficar aí numa turma de vinte e tantos, que vocês se mantenham unidos, aí ressaltei essa questão da conversa, que eles realmente usem isso a favor deles”, porque em seu ponto de vista a interação com

os colegas da turma é um fator importante para o bom desempenho acadêmico do aluno.

Ao final do semestre professora Celina estava satisfeita com as mudanças que percebeu na turma: “agora nas últimas semanas, as conversas têm sido produtivas, tem sido sobre o tema da aula, porque eles acordaram que eles têm que estudar e não só que eles têm que estudar, mas é um momento de maturidade dentro do assunto estudado; o assunto é mais complexo, mais elaborado, é realmente novo. A disciplina começa com temas que eles já viram no ensino médio, porém aplicados à administração, que é o que vai ser novo, a aplicação à área que eles escolheram”. Assim, ela buscou maior participação dos alunos, convidando quem estivesse conversando com colegas próximos a compartilhar o assunto com toda a turma.

Os alunos não fizeram comentários em relação à carga horária da disciplina, somente em terem dificuldade em relacionar o conteúdo da disciplina com outras disciplinas do curso, com a profissão e com a vida. Uma frustração de expectativas que a professora tentou superar: “a turma tem suas particularidades, por isso quando eu vou trabalhar no curso de administração eu foco nas aplicações, mas eu tenho que trabalhar os conceitos, ferramentas, então pra mim é um desafio, a cada semestre ir encontrando novas aplicações, eu já tinha trabalhado com o curso de administração antes, só que não com uma carga horária tão generosa como essa, seis aulas na semana, é muito bom, esse é um fator, uma coisa muito boa, que permite fazer um trabalho bom”.

O uso generalizado de equipamentos eletrônicos, principalmente notebooks, é outra característica da turma. Para a professora é um desafio a ser enfrentado:

“Porque eu não vou chegar na sala e dizer: olha, desconecta, desliga o celular, não use o computador, porque é uma tecnologia que a gente tem que integrar. Quando a aula usa esses recursos, daí não só é permitido, como até solicitado e até certo ponto exigido, se você não tem uma calculadora pelo menos, você não vai conseguir avançar. Então a cada semestre esse uso dessas tecnologias tem que tá sendo administrado”.

Mesmo considerando a turma bastante imatura, professora Celina busca estabelecer um relacionamento de confiança com alunos creditando-lhes responsabilidades por suas escolhas: “em alguns momentos até os exercícios são

assim repetitivos, eu saliento pra eles, se vocês fizeram um, dois e viram que já captaram o conceito, avancem, não precisa ficar fazendo todos, mas isso é você que vai ter a decisão”. E também em relação ao uso de aparelhos eletrônicos durante as aulas, pois para ela esta é uma demanda da atualidade, dinamicidade, capacidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo: “eu quero dar um espaço para que eles administrem e mostrem a sua maturidade, porque às vezes a pessoa tá ali acompanhando, tá um momento de discussão, de repente ele tá com o computador ligado até anotando, vendo alguma coisa, mas ele está administrando bem, porque a vida é isso, você não para, para fazer uma coisa de cada vez. Então pela própria prática, experiência, eu vejo que não é o fato de eu impedi-los de utilizar isso na sala que vai fazer com que eles foquem na minha aula”.

Quanto aos objetivos da disciplina, a professora considera que foram alcançados, não apenas em termos de notas, mas principalmente em avanço no conhecimento, desempenho, senso crítico e amadurecimento dos alunos:

“praticamente todos que ficaram, vão ser aprovados, são vinte e tantos, que frequentavam mesmo, antes da greve, tinha uns trinta e oito, trinta e cinco, eu acho que depois da greve, uns dez que estavam titubeando já não vieram mais, os desinteressados, então essa turma que permaneceu, em torno de vinte e cinco permaneceu e se empenhou”. Para ela este resultado só foi possível depois de um tempo de adaptação e autoconhecimento de alunos e professora: “com o passar do tempo a gente vai tendo familiaridade com o aluno, até você achar um ritmo ideal, até que cada um descubra suas habilidades, eu sempre ressalto muito que se observem pra descobrir como é que eles aprendem melhor, se vai ser observando e anotando o que eu falo, se vai ser refazendo tudo e depois vindo conversar comigo, então falo nesse sentido de orientar, olha tenha consciência, se autoavalie, senão nada do que eu fizer aqui vai ser proveitoso, mas agora nestas últimas semanas, eu vi o resultado disso, daí eu fiquei super feliz.” Tão feliz que já se propôs a continuar ministrando a mesma disciplina no próximo semestre.

A relação da professora Celina com o curso de Administração remonta ao seu tempo de aluna do ensino superior e permanece uma relação positiva: “Eu tenho um bem-querer muito grande pelo curso de administração, por ter trabalhado com o curso em outra instituição por vários anos. Se eu não tivesse sido aprovada (no outro vestibular que fez), eu faria o curso de administração. E eu ressalto pros

alunos que ele é um curso amplo, ate porque aqui ele é administração, não é administração de empresas, porque quando você trabalha com administração de empresa daí você foca um pouco mais, porque é um curso amplo porque você estuda matemática, você estuda economia, você estuda direito, você estuda psicologia, você estuda marketing, você estuda filosofia, ele vai te ajudar em tudo, eu vejo que ajuda a mim, porque eu conheço profissionais de várias áreas”.

Além de seu “bem-querer” pelo curso propriamente dito, também assume gostar de pessoas, o que contribuiu para uma boa interação com os alunos: “o meu foco é entender também como a pessoa aprende pra que meu trabalho seja proveitoso”. Questionada sobre a mediação da emoção: “como professora, lindando, como eu disse, com um conhecimento específico e com o ser humano, com a pessoa, eu tenho que considerar a pessoa e a sua natureza, e a emoção é uma característica essencial, tem o lado racional, o cognitivo, tem as questões técnicas, mas tem a emoção também, então eu vejo que na gente influencia você tem o modo como a gente se analisa que dirá com o aluno, e tem que estar atento a essas relações. Então mediar emoções, assim, pra qualquer professor, eu acho essencial”.

Quando questionada em relação à sua tranquilidade ao falar com a turma explicou que: “então acho que isso vem da entrega, e quando eu estou dando a aula, eu olho praquele assunto, eu já dei aquela aula, não exatamente daquele jeito, mas eu tento, eu to o tempo todo pensando que eu não to falando pra mim, eu to falando pra alguém e que eu tenho que passar com tranquilidade as coisas e ser exaltada nunca foi assim da minha pessoa. Quando eu comecei dar aula, como eu disse, em alguns momentos eu me estressava com a questão da bagunça, então olha, falava de uma maneira até talvez mais agressiva, poxa, mas assim não dá, mas com o passar do tempo eu vejo que mesmo pra chamar a atenção você não precisa ser agressivo, às vezes você chamar uma atenção de uma forma mais amena tem mais efeito do que você chamar de uma forma mais agressiva”. No seu parecer, ter um filho pequeno também contribuiu para desenvolver sua calma: “tem todo dia um laboratório em casa”.

Os alunos relataram que a imagem que ficou da aula foi a imagem de um gráfico e de muitos pontos de interrogação. Uma aluna, que procurou a pesquisadora em particular, fora da sala de aula, comentou que estava tendo muita dificuldade de adaptação ao curso e à Instituição. Tinha a impressão que os

professores focavam os alunos com melhor desempenho e tinham certo descaso para com os alunos que apresentavam mais dificuldades. A relação com os colegas também não era animadora, ao pedir ajudar para estudar para a prova ninguém se dispôs a cooperar: “existe um clima de competição e individualismo na sala, a revisão não me ajudou, estou sozinha para dar conta da prova”; desabafa: “gostaria de poder trocar de curso”.