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PARTE II – AS CONCEPÇÕES E AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DA PROFESSORA

Situação 1: A professora desenhou rapidamente um mapa na lousa para

explicar o feriado do ‘7 de Setembro’. Vejo Núbia tentando falar algo. É a primeira vez que a vejo falando com a professora. Vera a escuta e ela fala do Japão (por causa do mapa-mundi que ela desenhou), que quando aqui é dia, lá é noite. A professora a escuta e ainda reforça o que ela diz, retomando a explicação de que a terra é redonda e que quando o sol bate de um lado, lá é dia e que do outro lado está escuro e é noite.

Enquanto Núbia fala, Ricardo diz: - ‘Quem não sabe?’. Num tom arrogante e ríspido.

Depois que Vera explica, ele repete: - ‘Quem não sabe?’. Num tom de desdém pelo que Núbia disse. (Diário de campo: EUC, 9º dia).

Situação 2: Vera diz: -‘Sujeira no chão!!!Quem foi?’.

Eduardo: - ‘Juliana!’. (Que se senta do outro lado da sala). Ricardo: - ‘Eduardo!’.

Eduardo diz para Ricardo que não foi ele e mostra o apontador de caixinha. Vera diz para cada um pegar o que está no seu espaço e retoma a explicação da tabuada do 2.

Minutos depois Ricardo se levanta, vai até a frente da sala e cochicha algo que eu não compreendo com Vera. Ela responde: - ‘Eu também acho que foi ela porque ela tem apontador sem caixinha’. (Percebo que eles olham para

Juliana).

Juliana levanta seu apontador, sem dizer nada, e mostra para a professora que ele tem caixinha.

Vera diz, para a menina: - ‘Você trouxe hoje, né?!?’.

Juliana faz que sim com a cabeça. (Diário de campo: EUC, 16º dia).

Estas duas situações nos fazem pensar tanto na forma como Ricardo interage com seus colegas, menosprezando-os e acusando-os, como na relação que ele tem com a

professora, a ponto de aproximar-se dela na sala de aula, cochichar em seu ouvido e ela ainda concordar com o que ele diz.

Outro dado interessante sobre Ricardo refere-se à resposta a uma pergunta que fiz às crianças. Pedi, individualmente, a cada uma das 27 crianças presentes neste dia que me indicasse o melhor aluno ou aluna da turma. Ricardo foi categórico ao responder ‘EU’ e apenas justificou com um ‘porque sim’. Além dele, outros 14 colegas o indicaram como melhor aluno. Mais dois meninos indicaram a si mesmos como melhores alunos, mas Davi disse: ‘Eu ou o Ricardo’ e não soube explicar porque; já Eduardo fez uma lista: ‘Davi,

Ricardo, Luan, Murilo ou eu’ e justificou: ‘Porque eles já sabe ler...eu e o Davi também’.

É interessante perceber que os meninos receberam 35 indicações para melhores alunos (tanto de meninos quanto de meninas) e as meninas apenas 6 (todas elas de outras meninas).

Outro menino que, embora não seja indicado pela professora como um de seus melhores alunos, era ouvido por ela, raramente era alvo de repreensões e apresentava alguns comportamentos agressivos era Eduardo. Ele era um menino branco, muito inteligente e falante, além de irrequieto. Seus pais eram separados e seu pai apresentava problemas mentais. Por isso, sua tia era a responsável por ele. Segundo Vera, ele fora diagnosticado como hiperativo e tomava um medicamento (ritalina) enviado por sua tia. Ela também era professora e disse, segundo Vera, que não queria que seu sobrinho fosse visto como ‘o chato da turma’ (por sua hiperatividade). A pedidos do médico, a professora o medicava no começo da aula, para que o efeito do medicamento durasse todo o período na escola. Mesmo sob efeito da medicação, ele era muito esperto, ativo e cheio de ‘causos’ para contar. Na aplicação do questionário de caracterização, conversamos mais de meia hora (as outras crianças demoravam cerca de 5 a 10 minutos).

As duas situações destacadas por envolverem Ricardo também demonstram atitudes explosivas e acusativas de Eduardo, como no caso com Núbia e com Juliana. Além destas situações, o menino foi retirado da sala pela coordenadora da escola outras duas vezes por agredir fisicamente crianças de outras turmas. É possível que seu diagnóstico levasse Vera a relevar alguns de seus comportamentos e atitudes, uma vez que a professora não o repreendeu em nenhuma dessas situações em que ele agrediu colegas na escola.

Retomando as diferentes formas de interação da professora com as crianças, ao mesmo tempo em que valorizava Luan e Ricardo declaradamente e, de forma mais contida, Eduardo, Davi e Leandro, Vera parecia não fazer o mesmo com Amanda, Pietra, Vanessa,

Juliana e Núbia. No caso das meninas, Amanda era freqüentemente chamada de ‘chata e

insuportável’, Pietra não era incentivada porque segundo Vera era ‘triste’ – ou seja,

‘terrível’ - e ‘nunca terminava nada’, Vanessa e Juliana eram praticamente ignoradas e a professora só lhes dirigia a palavra para repreendê-las e Núbia era tratada de forma ríspida e, por algumas vezes, desrespeitosa.

Amanda era uma menina branca, magrinha, de cabelos lisos e castanhos e enormes olhos verdes que pareciam engolir o mundo. Vivia com o pai e a mãe, era faladeira e sempre tinha uma estória na ponta da língua.

A professora tinha o hábito de todos os dias, depois do cabeçalho, colocar na lousa um ‘o que é, o que é?’, para as crianças adivinharem. Era um momento descontraído da aula e todos adoravam. No 25º dia de observação a professora colocou na lousa: ‘$ ! & ! ! ...’. Amanda diz: ‘O que fala muito?’. E Vera responde: ‘Você! E ri’. Sobre

falar demais, ao perguntar a Amanda quem era a melhor aluna ou o melhor aluno da turma ela respondeu que era Ieda, ‘porque ela não fala demais’.

A menina me foi descrita pela professora como ‘insuportável’ logo no primeiro dia em que observei a turma. Num passeio em que a professora me mostrou a escola, cruzamos com Roberto e com Amanda:

Passamos pelo final do corredor onde está a sala de Vera e acabamos num pátio pequeno, onde ficam as crianças. (...) Passamos por Roberto e eu digo que ele era a única criança irrequieta enquanto eu lia uma estória. Ela me diz que ele é agitado, mas que já melhorou muito (...) Cruzamos com Amanda e eu digo que ela tem olhos lindos. Ela diz: - ‘É linda, mas é insuportável!’. Vera me conta que a mãe dela disse que ela ia para a manhã, e que ela deu graças a Deus, mas que acabou não indo porque a mãe achou que ela não ia acompanhar. Tive uma impressão ruim da forma como ela falou da menina.

(Diário de campo: EUC, 2º dia de observação).

É interessante observar que, no caso de Rodrigo (aluno que apresentava alguns problemas de comportamento, apenas copiava da lousa e estava pré-silábico em agosto), é valorizado o fato de o menino ter melhorado (assim como o fez com João, na escola rural), já com Amanda (aluna falante e participativa e que estava alfabética em agosto), o veredicto está dado: ela é insuportável (assim como Geisa era preguiçosa, mentirosa etc). Como já destacado em algumas situações, na sala de aula, por inúmeras vezes Amanda ouvia que era ‘chata’, algo que a professora dizia diante de toda a turma.

Pietra era uma menina branca, de olhos e cabelos castanhos e muito inteligente. Participava sempre de todas as interpretações de texto e prestava muita atenção a todas as

estórias que a professora lia. Ela vivia com o pai, a mãe e tinha um irmãozinho de três anos. O segundo dia de observação na escola urbana central apresentou algumas situações que envolveram a menina:

Início da aula: Vera troca os livros das crianças. Quando ela termina, Pietra diz: -‘Não me chamou’. A menina levanta-se e dirige-se à mesa da professora. Vera responde: - ‘Chamei sim, você que não ouve’. Não prestei atenção se Vera chamou ou não, mas a frase teve um tom ríspido.

Logo depois da troca de livros: Vera canta uma música com as crianças. Depois vai para a atividade seguinte que é uma brincadeira de substituir algumas palavras da música por gestos. Ela canta a música em pé, na frente da turma e quando canta meu, chapéu e três, ela faz a mímica com as mãos. Ela canta três vezes e depois pergunta às crianças o que substituiu. Pietra responde duas vezes. Ela não dá atenção e diz: - ‘Davi!’; como se dissesse, fale. Ele responde e eles vão para a próxima atividade. Senti como se ela ‘desse a palavra’ a Davi, em detrimento de Pietra. Talvez tenha dificuldade em ouví-la. Atividade seguinte: As crianças estão trabalhando em grupos, Paulo me chama e diz que Ricardo está acusando (ele usou exatamente esta palavra) ele e a Pietra de terem pisado num capacete que está no chão. Vejo Luan em pé ao lado da professora apontando para Pietra. Vera vira-se para Pietra e pergunta se ela tem algum problema, a menina faz que não com a cabeça. Digo a Vera que estava trabalhando com ela e que nada tinha acontecido. Vera diz: - ‘Ela é triste, viu!!!’. E eu continuo dizendo que estava fazendo as atividades com ela. Pietra diz que não fez nada. Vera diz: - ‘O Luan não ia mentir, se ele disse que viu, ele viu’. Digo que não foi o Luan que viu, foi o Ricardo que disse pro Luan que viu. Vera pergunta pro Ricardo se ele viu o pé dela no capacete e o menino desconversa. Para encurtar a estória, digo que essas coisas de um que viu, outro que viu e etc são complicadas. Achei a situação com Pietra estranha (O Luan não ia mentir X Ela é triste) me pareceram frases que atuam fortemente na constituição do sujeito.

Correção da atividade anterior: Pietra está copiando umas palavras da lousa. Ela me diz que algumas pessoas ficam em pé na frente da lousa e que ela não consegue copiar (ela está sentada no fundo da sala, encostada na parede do fundo). Copio as quatro palavras que ela precisava copiar da lousa no meu caderno (chavinha, chinelinho, chorinho e chapeuzinho) e coloco meu caderno na sua carteira para ela poder copiar. Vera está passando pelas carteiras das crianças para ver quem já terminou. Ela pára ao lado de Pietra e eu já me viro e digo que ela não estava conseguindo enxergar na lousa e que eu copiei no caderno para ela poder copiar em seu livro. Vera estava saindo, mas vira-se e me diz que ela nunca termina nada e que se meu caderno ficar ali, ela fica até o fim da aula e não acaba. Digo que ela já está terminando, mas antes de eu terminar ela vira-se na direção da menina, tira seu lápis da sua mão sem dizer nada, copia as três palavras que estão faltando e fecha o livro da menina. Depois disso Vera sai e eu fico sem ação. Achei a atitude ríspida: ela tirou o lápis da menina sem dizer nada, fez por ela e fechou seu livro (faltavam apenas três palavras: poderia ter esperado e valorizado o fato dela ter terminado, mesmo porque outras crianças ainda terminavam). (Diário de campo: ER, 2º

Juliana e Vanessa eram ignoradas pela professora, que chegou a dizer que não conversava com elas. De fato, comprovei tal afirmação quando, no início das observações, em agosto, comentei com Vera que me espantei com a fala infantilizada de Juliana, ao entrevistá-la, e ela me diz que nunca percebeu nada60.

Juliana era uma menina negra, muito quieta e extremamente caprichosa. Seu caderno era todo colorido, com desenhos de florzinhas, letra redondinha e palavras multicoloridas. Por isso, Juliana atrasava-se com freqüência. Ela vivia com a mãe e a avó.

Já Vanessa era branca, de cabelos lisos e, também, muito quieta. Ela vivia com o pai, a mãe e um irmão mais velho. Numa das situações em que a menina me pediu para prender seus cabelos, fiquei abismada com a quantidade de lêndeas nos seus cabelos. Avisei a professora, que disse já saber e que estava cansada de avisar a mãe da menina porque ela dizia que cuidava de Vanessa em casa e ela pegava piolho de novo na escola.

Num dia, antes de irmos para um passeio, como as crianças não haviam trazido a mochila com o material e o ônibus não havia chegado, Vera propôs a ‘brincadeira do silêncio’. Nessa brincadeira a professora escolhe alguém para começar, que fica à frente da turma. Depois, a criança escolhe quem estiver mais quieto para ir ao seu lugar e escolher outro colega quieto, e assim por diante. Vanessa foi escolhida e não quis brincar. Juliana ainda virou-se para traz e disse - ‘Vai, é você!’. A menina fez que não com a cabeça e não foi. Todas as outras crianças ficavam eufóricas para poderem brincar, mas Vanessa não foi.

Um outro episódio com Vanessa incomodou-me bastante. Ela me disse, num dia de observação, que estava com dor de dente. A professora foi avisada e não tomou providência. Abaixo descrevo a situação:

Cheguei 14:20 horas. Vera estava trabalhando com as horas.

Vanessa vem me dizer que está com dor de dente. Digo que logo será o intervalo e que depois que ela comer passará.

14:30 - Vanessa vem me falar da dor de dente de novo e pede para ligar para sua mãe. Digo que logo será o intervalo e que depois que ela lanchar irá melhorar.

14:35 – Vamos para o intervalo. 15:00 – Voltamos para a sala.

Pergunto para Vera de Vanessa, se ela avisou-a que está com dor de dente. Ela faz que sim com a cabeça e nada fala. Depois de uns segundos de silêncio,

60 A menina me contou a seguinte estória: ‘Um dia, né, eu e a minha mamãezinha e a minha vovozinha, né,

nós fomos lá no pédio (prédio) e daí, né, a minha mamãezinha, né, foi tabaiar (trabalhar) no pédio (prédio). E a gente mora no pédio, né. E eu tenho uma cassolinha (cachorrinha) e uma amiguinha e ela telefona no apaitamento (apartamento), né, e a gente binca (brinca) de boneca no pédio’. (Registro escrito)

pergunto se ela vai embora de perua escolar e Vera diz que acha que sim. Digo: - ‘Então não dá pra ir embora, né?!?’. Vera: - ‘Eu nem sei se tem alguém na casa dela’. E sai de perto de mim.

16:20 – Vanessa me pede para ligar para sua mãe. Digo que falta só uma horinha para ir embora, para ela tentar agüentar.

Comento com Vera de Vanessa novamente, ela diz que eles já vão embora. 16:50 – Vanessa vem me dizer de novo que está com dor. Digo que já, já ela irá embora, para ela tentar agüentar. (Diário de campo: ER, 18º dia).

Num dia em que Vera resolveu acompanhar a aula de Educação Física, depois de as crianças correrem em uma série de brincadeiras de gincana que a professora de Educação Física propôs, Vera dirige-se a Vanessa de forma ríspida:

Vanessa e Marcela se sentam em um banco ao lado de onde está Vera. Ela diz para Vanessa: - ‘Você tem peso na bunda, que vive sentada lá e aqui?’. E aponta para onde estavam na hora das brincadeiras. Vanessa arregala os olhos, levanta-se correndo e vai para a fila, sem nada dizer.

Vera vai andando com a fila e dizendo: - ‘Educação física é pra brincar, mexer, cansar e chegar na sala e ficar quieto’. (Diário de campo: ER, 20º dia).

Na regência de uma estagiária que acompanhou a turma, vejo Vanessa dialogando durante a explicação das regras de trânsito:

Na frente da sala, Ana conversa com eles sobre trânsito, direitos e deveres no trânsito etc. Fala algumas vezes sobre o que eles trabalharam ontem.

Vanessa levanta-se e vai falar para Ana: -‘Ô, Tia! Um dia eu fui passear e um carro passou no sinal vermelho’. Nunca a vi conversar com Vera. (Diário de

campo: ER, 23º dia).

Mesmo advertindo Pietra e Amanda, ignorando Juliana e Vanessa e, às vezes, as tratando com aspereza, Núbia era o alvo central da professora. Núbia era uma menina branca, de longos cabelos lisos e loiríssimos. Usava uns óculos coloridos, geralmente falava muito baixinho e vivia me oferecendo presentes: balas, elásticos de prender os cabelos, lápis etc. Ela ia para a escola com lacinhos nos cabelos, pulseiras coloridas e, com certa freqüência, de vestidos de babadinhos.

Vera a expunha perante a turma de forma desrespeitosa, fato que me incomodava muito, principalmente pelo jeitinho triste e introspectivo da menina. Numa situação em que a encontrei numa praça, fora da escola, a menina parecia outra criança: sorria, pulava, conversava sem parar, me contava coisas...neste nosso encontro pensei que na sala de aula ela se apagava, murchava.

A fala destacada abaixo nos dá indícios de como a professora construía sua interação com a menina:

Na sala de aula cruzei com Vera. Núbia passava por nós. Vera disse: - ‘Eu não suporto essa menina, não agüento ficar perto dela’. Respondi: -‘Mas você precisa tomar cuidado para não fazer diferença entre eles’. Ela ainda repetiu que não a suportava e que não ia ficar perto dela. (Diário de campo: EUC, 5º

dia).

Outras situações observadas indicam a rispidez com que a professora interagia com a menina, como a destacada abaixo: