PARTE I Fundamentos teóricos
Capítulo 3 Educadoras de Infância e Identidades Profissionais: caminhos
3.3. Caminhos da profissionalidade na educação de infância
3.3.2. A profissionalidade das educadoras de infância
Num estudo sobre a profissão do educador de infância, Katz (1985) retoma oito critérios que definem uma profissão (Goode, 1983), analisando-os à luz do profissionalismo das educadoras de infância. Por nos parecer que, de algum modo, eles sistematizam os fatores de pertença que encontramos na cultura profissional das educadoras, passamos a descrevê-los de forma sumária:
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- Necessidade Social – diz respeito à importância do trabalho profissional para o
funcionamento da sociedade, que, sem os saberes e técnicas relativas à profissão da educadora de infância irá, de certa forma, empobrecer a realidade;
- Altruísmo – refere-se ao papel da profissão, no sentido de estar orientado para servir mais do que para tirar proveito pessoal. Espera-se que os profissionais sejam dedicados no seu trabalho, sendo dado ênfase aos fins sociais da sua função. Este critério está muito bem representado nas educadoras que se envolvem em projetos educativos, englobando crianças, famílias e outros agentes da comunidade, sem privilégios ou benefícios próprios;
- Autonomia - considera-se que uma profissão deve ser autónoma no sentido em que o cliente não dita ao profissional os serviços que ele deve prestar, mas também no sentido de que a entidade empregadora não dita ao profissional para que ele possa exercer e discernir baseado no seu saber especializado. As educadoras, por norma, tomam em consideração as preferências e necessidades das crianças e famílias, mas as decisões da sua prática a elas lhes compete, tornando-as apropriadas aos fins da educação;
- Código ético - de forma geral, as associações profissionais subscrevem um código ético que proteja os interesses dos profissionais. Os aspetos deontológicos em qualquer profissão constituem uma dimensão do profissionalismo e um instrumento de preservação da imagem social da classe profissional. Na profissão docente, como refere Estrela (1999), tornam-se ainda mais relevantes uma vez que se trata de uma profissão que tem por objetivo a formação e o desenvolvimento de pessoas;
- Distanciamento emocional - caracteriza a relação entre profissional e cliente, no
sentido de precaver relações demasiado próximas e que possam comprometer a objetividade e eficácia da intervenção;
- Padrões de prática – respeitantes aos níveis mínimos de qualidade, sinalizando-se a
importância do conhecimento sobre a profissão;
- Formação prolongada – necessidade de preparação para o desempenho do papel
profissional com rigor e exigência, implicando uma formação que abrange um conjunto de saberes considerados comuns ao grupo profissional;
- Saber especializado - que deverá ter as seguintes características: proporcionar princípios que sejam generalizáveis para a prática da profissão; que estes saberes e princípios sejam relevantes e organizados para preocupações práticas, mais do que preocupações académicas ou metafísicas; que estes saberes e princípios sejam específicos da profissão, que conduza à necessidade de pertença a sociedades (ou
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associações) profissionais que se responsabilizem pela disseminação dos novos conhecimentos relevantes para a prática (Katz,1993, p. 13-14).
Parece-nos encontrar nestes critérios sinalizados por Katz (1993), alguns pontos de referência que nos podem clarificar melhor a definição da atividade das educadoras de infância como profissão. Aliás, muitos dos critérios descritos fazem parte da cultura profissional das educadoras em Portugal, embora a ausência de unanimidade em seu torno possa determinar que os critérios de pertença e de referência não estão ainda completamente reconhecidos, e, sobretudo, explicitados de uma maneira unânime e consensual.
A profissionalidade das educadoras de infância tem tido uma evolução lenta, pelo que o reconhecimento, autonomia e identidade do grupo profissional tem sido um processo complexo e contínuo, vivido de forma crítica e reflexiva. Os fatores que contribuíram, de forma considerável, para essa situação foi o trabalho doméstico e a maternalização da profissão, pois durante muitos anos, a imagem da boa educadora era muito próxima
da imagem da boa mãe: um modelo idealizado difícil de atingir, assente essencialmente nas características pessoais (Cardona, 2006, p. 26). Tem vindo, assim, a ser entendida
com a ideia subjacente de que basta gostar de crianças ou ter jeito para estar com elas para desempenhar a função. Nesta perspetiva, a profissão de educadora de infância tem- se constituído, ao longo dos tempos, como uma profissão inerente à mulher, quase uma
extensão da condição feminina (Gomes, 2113, p. 118), por oposição a
competências e saberes “científicos, académicos, que caracterizam a intervenção dos (outros) profissionais de ensino e educação e que no caso dos educadores permanecem “difusos, enublados”, pouco mesuráveis e distintos (Matos, 2002, p. 45).
Não obstante, com o aparecimento de escolas de formação (públicas e privadas) e a progressiva exigência académica, que se iniciou no princípio dos anos 70 com os primeiros cursos para educadores de infância, considerados cursos médios, passando a superiores a partir de 1986, com a publicação da LBSE (duração de três anos, depois de concluído o 12.º ano de escolaridade), muito contribuíram para enfatizar a importância de um novo olhar sobre essa atividade profissional. A partir de 1998 passou a exigir-se o grau académico de licenciatura, definido pela Portaria n.º 413-A/98, de 17 de julho, bem como a abertura de cursos de formação complementar, em escolas públicas e
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privadas (Escolas Superiores de Educação e/ou Universidades), para educadoras de infância com o grau académico de bacharelato (três anos de duração). Registou-se grande oferta de cursos, com uma grande diversidade de instituições formadoras, bem como organização curricular, pois o Estado não definiu, claramente, um referencial. Matos (2002), no estudo que desenvolveu sobre percursos pessoais e profissionais de educadoras de infância, constatou que estes cursos não trouxeram uma mais-valia
significativa para o desempenho e desenvolvimento profissional … o seu contributo situou-se somente ao nível de um maior reconhecimento social e profissional dos
educadores (p. 44). As educadoras participantes
enfatizaram os aspetos relacionais e colaborativos entre colegas, em detrimento dos aspetos formais e científicos dos currículos, sobre os quais nem sempre manifestaram uma avaliação positiva, destacando a persistência da velha dicotomia entre teoria-prática, para além do academismo dos conteúdos abordados e do desconhecimento pelos formadores da realidade profissional dos educadores (idem).
A configuração atual, pela adequação dos cursos ao Processo de Bolonha, definida pelo Decreto-Lei n.º 43/2007, de 22 de fevereiro, determina que a formação para o exercício da profissão docente necessita de ser realizada em dois ciclos: o 1.º ciclo de estudos, corresponde a uma formação geral de três anos, que consiste na Licenciatura em Educação Básica, comum a todos os candidatos a professores/educadores. O 2.º ciclo de estudos, com duração de mais um ano, consiste numa formação mais específica, equivalente aos Mestrados profissionalizantes, respeitante a cada nível de educação e ensino ou o agrupamento de dois níveis de educação e ensino. Neste modelo de formação23, a habilitação profissional para a docência é somente obtida no segundo ciclo de formação, em áreas e domínios específicos de formação. Esta nova configuração deu origem a grandes alterações na formação e no estatuto das educadoras de infância
relativamente aos docentes dos outros níveis de ensino (Cardona, 2008, p. 27).
Com todas estas diferenças a nível de formação inicial, surge um grupo de educadoras com uma grande heterogeneidade profissional. Acresce, ainda, o facto de existirem várias entidades empregadoras: instituições particulares e duas grandes redes estatais, uma dependente do ME e outra dependente do MSESS, com diferentes quadros normativos, diferentes modelos de atendimento, diferentes conceções educativas, uma
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multiplicidade de referências teórico-práticas, o que implica diferentes normas de funcionamento, diferentes formas de atuação, diferentes salários, diferente estatuto.
Apesar de no ano de 1997 se terem registado medidas muito significativas para a educação de infância, nomeadamente a publicação de uma Lei-Quadro e do regime jurídico do desenvolvimento e expansão da educação pré-escolar, a educação pré- escolar ser considerada como primeira etapa da educação básica, a tutela pedagógica de toda a rede institucional ter passado a ser competência do Ministério da Educação e da definição das Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar (OCEPE), continuou-se a assistir a desiguais condições de trabalho no grupo profissional. As desigualdades mais evidentes situam-se no grupo de educadoras que desempenham a sua atividade profissional em creche, uma vez que todas as alterações não abrangeram o contexto de creche, cuja tutela pertence ao MSESS.
Cardona (2008), a este respeito, afirma que muitas das mudanças definidas nos últimos
anos tiveram repercussões mais imediatas no ensino público, continuando a existir uma grande discrepância relativamente às instituições privadas (p. 6).
Apesar de a Recomendação n.º 3/2011, elaborada por iniciativa do CNE, se orientar
numa perspetiva de uma oferta claramente educativa para as crianças dos zero a três anos, tomando a educação dessas crianças “como um direito” (Vasconcelos, 2012a, p.
11), a profissionalidade do grupo de educadoras a exercer no contexto de creche continua sem ser reconhecida pelo Ministério da Educação. Precisamos de dar o “salto”
corajoso de transferir a responsabilidade da “qualidade educativa” das creches para a tutela do Ministério da Educação para podermos ultrapassar a dicotomia educação/segurança social/assistência às famílias (idem).
Toda esta diversidade tem fomentado uma grande inquietude, um certo mal-estar no seio do grupo profissional, nomeadamente dificuldades de entendimento e falta de coesão, problemas de indefinição da identidade profissional, falta de capacidade de afirmação face a outros grupos profissionais, falta de reconhecimento com origem na indefinição das políticas educativas, contribuindo para o reforço da existência de um estatuto diferenciado relativamente a docentes de outros níveis de ensino (Cardona,1997, 2006). Fragilizou, assim, a construção de uma profissão relativamente
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recente em Portugal, onde a definição de fronteiras está pouco definida, encaminhando estas profissionais para um questionamento permanente sobre o seu ofício, o seu papel e a sua atividade profissional.
Vilarinho (2000) corroborando esta visão, afirma que ao longo dos anos, temos vindo a assistir a uma
desvalorização progressiva deste nível de ensino, por parte das entidades governamentais, a uma desvalorização da profissão, a uma precariedade de emprego dos educadores de infância, e emergem simultaneamente maiores clivagens entre os profissionais da rede pública, privada e das instituições de solidariedade social (p. 151).
O facto de trabalharem em condições de vulnerabilidade criadas pelas diferenças assinaladas, contribui para que este grupo profissional continue em busca de uma unidade profissional. Tal situação provoca desmotivação e, consequentemente, menor envolvimento e implicação no quotidiano da intervenção educativa, conduzindo, pois, inevitavelmente, a crises existenciais. No entanto, sabendo que o campo do processo de construção é dinâmico e multifacetado, novos formatos identitários, eventualmente, se constituirão.
Evidencia-se, assim, um processo de profissionalização diverso e complexo, na medida em que tem vindo a ser construído no seio de diferentes grupos sociais e, por conseguinte, com uma diversidade de orientações e preocupações com a criança, com a mulher, com a família e, de modo particular, com a educação de infância.
Estamos na presença de um grupo profissional que apresenta uma grande heterogeneidade nos seus percursos formativos, contextos de intervenção, estatuto e autonomia profissional (Cardona, 2006), com características que o diferencia dos outros docentes, mas também com semelhanças. A esse respeito Oliveira-Formosinho (2002b, p. 135) advoga:
Evidentemente o papel dos professores das crianças pequenas é, em muitos aspetos, similar ao papel dos outros professores, mas é diferente em muitos outros. Estes aspetos diferenciadores configuram uma profissionalidade específica do trabalho das educadoras de infância. Os próprios autores envolvidos na educação de infância têm sentimentos ambivalentes no que se refere à questão de serem iguais ou diferentes dos outros professores, nomeadamente dos professores do ensino primário.
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Abordamos a seguir as singularidades da profissionalidade da educadora de infância, com maior ênfase no âmbito do desempenho do exercício profissional no contexto de creche, uma vez que é nesse contexto que a presente investigação se desenvolve.
Singularidades da profissionalidade
... nós, educadores de infância, sabemos agir como ninguém em contextos educativos alargados, na rua, no bairro, nas bibliotecas e ludotecas, nos museus, nos hospitais, nos lares, nas creches, nos jardins de infância... Contudo, temos muito a fazer para que um dia nos reconheçam com um papel diferente daquele de “entreter crianças que os pais deixam nos infantários”.
(Silva, A. 1993, p. 47)
Como temos vindo a mencionar ao longo do presente estudo, a profissionalidade docente da educadora de infância situa-se no mundo da interação … com crianças, famílias, e comunidade em geral, e é aí que desenvolve papéis, funções (Oliveira- Formosinho, 2002b, p. 138), conferindo-lhe uma singularidade da profissão. Também o âmbito da intervenção em contextos bastante diversificados, com a integração de
serviços …que requer da educadora uma complexidade de funções e papéis (idem), se traduz em mais uma singularidade da sua profissionalidade.
Saracho (1984, cit. por Spodeck & Saracho, 1998), agrupou as funções da educadora em seis dimensões: diagnosticar, desenvolver currículos, organizar as aprendizagens, gerir
as aprendizagens, aconselhar e tomar decisões. No que respeita aos papéis da
educadora, identificou-os como afetivos, relacionados com instrução e relacionais, sendo que cada um deles contém elementos de ação e tomada de decisões (Spodeck & Saracho, 1998, p. 31).
Cristina Figueira realizou um estudo em 1992 sobre a singularidade da profissionalidade da educadora de infância e, apesar de já terem passado vários anos, sobre ele consideramos que ainda está bastante atual, pelo que passamos a apresentar as cinco características que definem essa singularidade, a saber:
- funções amplas de atendimento à criança, que ultrapassam habitualmente as funções atribuídas aos professores dos outros níveis de ensino;
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- práticas pedagógicas que privilegiam os espaços lúdicos e o jogo na aprendizagem das crianças, no envolvimento de outros atores sociais na ação educativa, na procura de soluções para a resolução dos problemas locais, na preocupação em proporcionar às crianças e famílias aprendizagens que partam do real, do concreto e não do abstrato; - contextos de trabalho, muito diversificados, desde atendimentos muito prolongados, com um grande número de horas a funcionar, consistindo em respostas de guarda e de
educação extensivas (Figueira, 1992, p. 6), onde se procura servir crianças e famílias,
em contextos cuja função é predominantemente educativa;
- públicos com quem a educadora trabalha – crianças e famílias – que pelas suas características solicitam um investimento complexo, onde a educadora tem de
articular o seu saber profissional com as expetativas e desejos das famílias, tem de ser capaz de negociar quais os aspetos mais adequados ao desenvolvimento integrado das crianças que devem ser valorizados, tendo em consideração os valores e cultura da comunidade em que está inserido (idem);
- representações sociais que a própria educadora tem do seu trabalho, a importância que atribuem à sua prática profissional, a diferenciação que fazem dos outros professores, recusando assumir funções “ensinantes”.
Júlia Oliveira-Formosinho, em 1998, desenvolveu um estudo sobre o desenvolvimento profissional das educadoras de infância e também refletiu sobre a singularidade da profissionalidade deste grupo profissional. O estudo não se refere somente à situação portuguesa, reporta-se também a estudos desenvolvidos noutros países Europeus e nos Estados Unidos. Apresenta cinco dimensões que evidenciam a singularidade da profissionalidade da educadora de infância: características da criança pequena; características da educação pré-escolar; características dos contextos de trabalho e da condição docente; características do processo e das tarefas desempenhadas pelas educadoras; características da educadora de infância. Passamos a apresentar, de forma sumária, cada dimensão:
- Características da criança pequena - A autora reflete sobre a forma como a criança aprende, como a criança se desenvolve, considerando que é segundo uma forma holística, apresentando-se como um sujeito não sectorizável, onde se verifica uma dinâmica intensa entre o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social. Focaliza a vulnerabilidade da criança pequena, referindo que é um ser frágil, que necessita de
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segundo Katz e Goffin (1990) & Medina Revilla (1993) (cit. por Oliveira-Formosinho, 1998), esta característica contribui para diferenciar a profissão. Esta globalidade e vulnerabilidade da criança requer por parte da educadora de infância um alargamento, uma maior abrangência do seu papel, a fim de nada ficar a descoberto, nada descurar, vindo reforçar a ideia acima referida de que o papel do professor de crianças pequenas
não só tem um âmbito alargado como sofre de indefinição de fronteiras (Katz e Goffin,
1990, cit. por Oliveira-Formosinho, p. 72);
- Características da educação pré-escolar - Nesta dimensão, a autora analisa algumas
características gerais da educação pré-escolar, nomeadamente a diversidade de modelos curriculares, a menor presença do Estado, a indefinição terminológica. Considera que o
desenvolvimento de vários modelos curriculares foi ... uma resposta a esta especificidade da educação de infância fomentada pela menor presença do estado
(Oliveira-Formosinho, 1998, p. 74). Em relação à indefinição terminológica para este nível de ensino (educação pré-escolar, ensino pré-escolar, educação de infância, educação infantil, ensino pré-primário, entre outras), a autora refere que as características específicas se refletem na indefinição terminológica e que a opção pela designação de Educação de Infância se relaciona com a
intenção de contrapor uma posição que sublinha o papel do educador como aquele que contribui para reforçar o que a criança tem de único, recusando o papel preparatório das aprendizagens da escolaridade básica ligada à designação pré-escolar (Simões, 1995, cit. por
Oliveira-Formosinho, p. 75).
- Características dos contextos de trabalho e da condição docente - A influência dos contextos organizacionais diversificados nas condições de trabalho e na condição docente é o que sobressai nesta dimensão. Como refere a autora, É sabido que o
contexto onde se trabalha serve para caracterizar a profissão, é importante para o bem-estar profissional (Bertram e Pascal, 1997a, 1997b) e para o prestígio do profissional e da profissão (Oliveira-Formosinho, 1998, p. 75). A par da grande
diversidade de locais de intervenção educativa dos educadores, há a salientar ideologias educacionais distintas e a falta de uma política comum ao nível das condições de trabalho dos profissionais. Esta diversidade resultou de uma maior liberdade a este nível educativo, consequência da demissão do papel do Estado. Esta abrangência de interação entre educadores, crianças, famílias, comunidades e agentes sociais diversos, além de afetar a profissionalidade das educadoras, serve também para caracterizar e conferir prestígio profissional aos educadores de infância;
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- Características do processo e das tarefas desempenhadas pelas educadoras - O papel
abrangente, a amplitude e singularidade de tarefas, a dupla função – educativa e assistencial –, a importância das relações e interações com crianças, famílias e outros profissionais, consistem nos aspetos mais relevantes desta dimensão. De acordo com Bredekamp (1996, cit. por Oliveira-Formosinho, 1998, p. 78) as tarefas da educadora podem agrupar-se em três áreas: cuidados da criança e do grupo (bem-estar, higiene,
segurança); educação entendida como socialização, como desenvolvimento, como instrução pré-académica e animação infantil.
Exige-se da educadora uma grande amplitude e singularidade de tarefas. Esta terá de articular o saber profissional com as expectativas, anseios, desejos das crianças, famílias e comunidade em geral. Requer grande capacitação pessoal e ... profissional
(Oliveira-Formosinho, 1998, p. 79) para intervir junto de públicos com características muito diferentes.
Katz e Goffin (1990, cit. por Oliveira-Formosinho, 1998, p. 78) identificam sete elementos que diferenciam as educadoras de infância dos docentes de outros níveis de ensino, nomeadamente o âmbito alargado do papel da educadora de infância ..., a diversidade de missões e ideologias, a vulnerabilidade da criança, o foco na socialização, a relação com os pais, as questões éticas ... e o currículo integrado;
- Características da educadora de infância - Nesta dimensão, a autora reflete sobre a forma como foram construídas historicamente as características da educadora, referindo que as mesmas se alicerçam na maternalização e na feminilização, uma vez que continua difundida na opinião pública a ideia de que a ação da educadora de infância é
um prolongamento da ação materna .... A feminilidade da profissão seria, assim, uma consequência da maternalidade (Oliveira-Formosinho, 1998, p. 81).
Teresa Sarmento (2004), ao referir-se às educadoras de infância, caracteriza-as como
agentes educativos com um saber específico sobre pedagogia da infância e das ciências que ajudam a desempenhar adequadamente o ato educativo, saber específico esse garantido pela existência de um corpo de conhecimentos sistemático, adquirido num longo período de tempo.
… [Acrescenta ainda que] possuem capacidade de fazer diagnósticos e de tomar decisões
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A autora sinaliza seis aspetos que caracterizam a profissionalidade da educadora de infância, a saber:
1) A idade das crianças do grupo etário a quem se dirige a sua ação educativa; As raízes
históricas muito ligadas a funções maternais; 2) A multiplicidade de funções (sociais e pedagógicas) que têm de ser assumidas em todos os contextos de atendimento a crianças até aos