A relação entre programas de transferência de renda e a lógica do capital constituiu a primeira questão norteadora desta pesquisa. Do confronto entre teórico e empírico adveio a necessidade de situar o contexto social e econômico em que a política se realiza, assim como resgatar linhas gerais sobre as concepções historicamente esposadas pelos programas de transferência de renda, desde as primeiras iniciativas até as que predominam nos dias de hoje, como condição para o desvelamento da materialidade dessa relação.
O contexto é de uma sociedade marcada pela concentração de renda e consequente desigualdade social em confronto com os avanços conquistados pela
ciência. A humanidade presencia a internacionalização cada vez maior da economia, mediatizada pela tecnologia da informação e da comunicação e a ruptura de fronteiras em todo o mundo, entretanto, as velhas mazelas permanecem, transfiguradas, mas sustentadas na mesma lógica da exploração do homem pelo homem, da divisão social do trabalho e da propriedade privada.
Segundo Chesnais (1996), este quadro caracteriza processos de “mundialização do capital”, é uma “[...] nova configuração do capitalismo mundial e dos mecanismos que comandam seu desempenho e sua regulação”(p.13) voltados para favorecer o crescimento da acumulação e da concentração do capital.
Sustentado na tese do livre mercado, esse novo padrão de desempenho e regulação demanda da esfera social, a reversão de garantias universais de proteção social, estabelecidas com a implementação do Estado de Bem-Estar. Entretanto, essa reversão, levada ao extremo, poderia culminar no esfacelamento dos padrões de integração, colocando em risco os setores inseridos na dinâmica das trocas. Nesse contexto, as políticas de transferência de renda assumem posição singular. Os propositores dessa nova ordem alçam estas políticas de caráter focalizado à condição de intervenção estatal de primeira hora, na expectativa de reduzir a ação do Estado em relação às demandas sociais e, contraditoriamente, neutralizar parte das consequências advindas dessas medidas.
A realidade é cabal no sentido de confirmar como essas políticas são propostas com a expectativa de manutenção da ordem instituída, ainda que sejam justificadas como portadoras das condições objetivas para enfrentar as desigualdades advindas da lógica social e econômica excludente. Tanto o programa nacional, quanto os estaduais, municipais ou distrital expressam a intencionalidade de suas ações por meio de verbos como: promover, combater, estimular, entretanto, ao relacionar as ações definidoras do operacional os verbos mais apropriados para traduzir os sentidos que assumem seriam: minimizar, reduzir, mitigar.
Isto se evidencia, por exemplo, quando se estabelece que alguns dos objetivos básicos do Programa Bolsa Família são: “combater a pobreza” e “promover a intersetorialidade, a complementaridade e a sinergia das ações sociais do Poder Público”116, entretanto, as ações propostas para o exercíco prático do programa distam da sua pretensão. Justifica essa compreensão o fato de que o combate à pobreza pressupõe alterações de ordem estrutural que as micro-ações do programa encontram dificuldades para alcançar. A intersetorialidade fica comprometida quando não flui o
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Estes são, respectivamente, os incisos IV e V do art. 4º. Decreto no. 5.209 de 17/09/2004 que regulamenta a Lei do Programa Bolsa Família
diálogo entre as diferentes áreas, pois essas iniciativas são tratadas como responsabilidade desse ou daquele mandatário ou governo e não como política de Estado.
Importa destacar que a análise histórica revelou não haver resposta única para o enfrentamento das desigualdades sociais e de suas consequências, porque as condições de desigualdade não são as mesmas por todo o tempo e, por isso mesmo, demandam propostas diferentes para responder às suas demandas. Portanto, quando interrogo sobre a possibilidade de os programas de transferência de renda se constituírem como contraditório indispensável à construção de uma nova síntese, para além da inclusão subordinada, a indispensabilidade associada a esse movimento é negada pela realidade. Entretanto, essa mesma realidade aponta que tais programas, ao se apresentarem de forma diferenciada, para responder às exigências que lhe são postas, empreendem movimentos que podem conduzi-los para além do pensado inicialmente.
Os dados apreendidos sobre a mudança na configuração dos programas, pois a sua natureza como política de inserção não foi modificada, constitui um dos diferenciais identificados. Esta mudança caracteriza-se por certo afastamento das idéias caritativas, predominantes nas primeiras medidas, e aproximação de uma compreensão de proteção social como garantia de direitos, movimento que se sustenta na luta capital/trabalho, à medida que a concepção caritativa dos programas foi sendo mitigada diante das conquistas de direitos sociais pelos trabalhadores. Por isso, ao se considerar as possibilidades das políticas sociais influenciarem as redes de proteção social, de forma a superar os limites residuais previstos, quando de sua concepção, a própria realidade sinaliza sua possibilidade, tendo em vista as contradições dela, advindas diante das necessidades de se ajustar ao contexto.
Certamente, esta possibilidade está além da esfera dos desejos e se inscreve no processo de correlação de forças políticas. A conjuntura dos anos 1990, permeada pela crise iniciada ao final da década de 1970, e orientada pela lógica neoliberal, apresentava uma correlação de forças francamente desfavorável à ampliação de direitos sociais. Ao contrário, observou-se nesse período a substituição de políticas socias universais por políticas focalizadas. Exemplar dessa realidade é a larga expansão de programas de transferência de renda nos países desenvolvidos e na América Latina.
A conjuntura atual sinaliza uma nova crise do sistema capitalista diante daquilo que é reconhecido, por alguns, como “fadiga do neoliberalismo”117 que acarreta
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Termo utilizado por Borges (2008) para se referir ao descrédito nas teses defendidas no Consenso de Washington, diante dos baixos índices de crescimento e do agravamento das condições sociais, desde a sua implementação.
alterações nessa configuração das forças políticas. Segundo Borges (2008), os últimos anos têm sido marcados por profundas modificações no “tabuleiro político”, com repercussões sobre as políticas hegemonistas capitaneadas pelo imperialismo norte- americano, e sobre as políticas de resistência ao neoliberalismo, desenvolvidas em diferentes espaços do mundo, com destaque para a América Latina. Para este autor, dentre os dados da realidade que expressam bem estas modificações, situam–se as eleições de Hugo Chavez, na Venezuela, em 1998, seguida da eleição de Lula, no Brasil; de Evo Morales, na Bolívia; de Ortega, na Nicarágua e de Rafael Correa, no Equador, dentre outros. Destaca as aproximações e distanciamentos nas formas como estas nações experienciam o enfrentamento às políticas neoliberias. Cada uma, “com suas particularidades, realiza experiências distintas no enfrentamento à grave crise que devastou a região nas décadas sombrias do neoliberalismo”(BORGES,2008, p.18), mas possuem, em comum, o esforço de se “distanciarem dos velhos dogmas neoliberias, paralisando as privatizações em áreas estratégicas da economia, voltando a fortalecer o papel indutor do Estado, investindo em programas sociais e reduzindo o ímpeto das medidas de precarização trabalhista” (BORGES,2008, p.19).
Esse novo contexto deve ser tomado como parte da realidade para que se possa compreender o movimento desenhado pelos programas de transferência de renda, especialmente a ênfase que vem sendo dada ao acesso e permanência na escola como condição sine qua non do usufruto dos benefícios advindos desses programas e a sistemática de acompanhamento desses indicadores .
Este movimento parece indicar um esforço concreto de interferir nas estruturas que geram as desigualdades sociais, pois mudanças estruturais que respondam a essas necessidades pressupõem, dentre outros, consciência da realidade e, nesse sentido, a escola é determinante. Portanto, é mister destacar que vincular assistência social à educação constitui um diferencial histórico de qualidade no exercício da proposição e aplicação da política social. É certo que pouco mais de uma década de sua aplicação prática não é suficiente para se obter resultados tão significativos quanto se deseja, especialmente porque a escola que aí está, como afirmado anteriormente, não foi organizada para abrigar os membros das classes populares, tanto em âmbito administrativo, quanto pedagógico.
Por outro lado, os valores financeiros repassados pelos programas, apesar do significado que assumem no cotidiano das famílias e, até mesmo, do impacto que trazem nas localidades onde residem, estão muito aquém das necessidades destas, de forma a alterar as condições de inserção social.
Entretanto, pode-se dizer que os programas analisados realizam mediações relacionadas à sobrevivência das famílias e à permanência no espaço escolar, fato que em si mesmo, constitui um diferencial de qualidade, que para ser compreendido precisa ser situado historicamente. No passado recente, ter garantida a matrícula na escola era considerado um diferencial qualitativo, pois numa sociedade em que à maioria não era permitido adentrar a escola, estar nela constituía uma distinção positiva. Isto, sem perder de vista que, em um país de dimensões continentais como o Brasil e com tão profundas disparidades sociais e econômicas, o acesso à escola ainda é meta perseguida em diferentes localidades.
No contexto atual, permanecer na escola parece representar um outro passo, rumo a essa almejada qualidade, mesmo quando isso ocorre em escolas despossuídas de realizar a desejada educação de qualidade, socialmente referenciada, de considerar as pessoas em sua complexidade, de realizar uma prática educativa “que desenvolva o ser social em todas as suas dimensões: no econômico, no cultural e no político” (BRASIL, 2004, p.32), mas pela potencialidade transformadora que encerra. Nesse sentido, a inclusão subordinada, mediada pelos programas, contraditoriamente, potencializa as condições de conscientização das classes subalternas, por meio da universalização do acesso à escola, tendo em vista que esta é capaz de, em determinadas circunstâncias, romper com a lógica da reprodução.