2 A PENA DE PRISÃO: ORIGEM HISTÓRICA
7.2 A Progressão de Regime nos Crimes Hediondos
O § 1º do artigo 2º da Lei de Crimes Hediondos dispõe que a “pena por crime previsto neste artigo será cumprida integralmente em regime fechado”, proibindo, desta forma, a progressão de regime.
O sistema progressivo está correlacionado aos princípios da legalidade, da individualização e da humanidade da pena.
Segundo Alberto Silva Franco (2000, p. 161):
O princípio da legalidade rege, de forma imperativa, as relações entre o direito de liberdade do cidadão e o poder repressivo de Estado, traduzindo-se, na prática, por algumas garantias de especial relevância. A garantia criminal diz respeito à necessidade de prévia descrição legal, sem cláusulas gerais, do fato considerado ofensivo a bens, interesses ou valores que o Estado entende indispensáveis à sua existência, manutenção, desenvolvimento e finalidade.
Entende-se pelo princípio da legalidade que o condenado deve ter resguardado sua dignidade humana, ou seja, mesmo diante das imposições do sistema prisional, é necessário sempre respeitar a sua dignidade, devendo, para tanto, o juiz interferir no sentido de fazer cumprir as disposições legais sobre o cumprimento da pena, sem que se deixe de respeitar os direitos do condenado.
Outro princípio ligado a progressão de regime é o princípio da individualização da pena. Por este princípio entende-se que cada condenado receberá a pena certa e determinada para o seu crime cometido.
Nas palavras de João José Leal (1996, p. 113):
[...] previsto no art. 59 do CP e consagrado no art. 5º, inc. XLVI, da CF, segundo o qual cada condenado receberá a reprimenda certa e
determinada para prevenção e repressão de seu crime, cujo processo executório ficará também sujeito às regras do princípio individualizador, para que a expectativa de ressocialização do condenado (uma das funções da pena privativa de liberdade) não fique completamente frustrada de antemão.
Este princípio é consagrado pelo artigo 5º, inciso XLVI, da Constituição Federal, desta forma, não se pode aplicar a pena ou sua forma de execução sem a devida intervenção judicial. Desta forma, quando o juiz for aplicar a pena, ele deve analisar de forma individualizada aquele caso.
Para Alberto Silva Franco (2000, p. 163), apesar da Constituição afirmar que “a lei regulará a individualização da pena”, ainda assim se faz presente a atuação do juiz, uma vez que a lei apenas poderá dar parâmetros para a atuação judicial e não obstar que se realize a individualização punitiva.
Por fim, o sistema progressivo também está correlacionado com o princípio da humanidade da pena (art.. 5º, III, XLVII e LXIX, da CF). Por este princípio entende-se que o condenado deve ter direito a progressão de regime, uma vez que a pena cumprida em um único regime é considerada desumana, pois para Alberto Silva Franco (2000, p. 166), isto inviabiliza o tratamento penitenciário racional e progressivo, e o recluso fica sem esperança de obter a liberdade antes de encerrado a execução de sua pena.
A Lei nº 8.072/90 trazia em seu § 1º do artigo 2º, a vedação da progressão de regime, uma vez que em sua redação determinava o cumprimento da pena em regime “integralmente fechado”. Sendo assim, aquele que foi condenado por qualquer crime descrito na lei supramencionada deveria cumprir toda a pena imposta em regime fechado, sem direito a progressão de regime.
Este posicionamento adotado pelo legislador foi motivo de grandes discussões por muito tempo, uma vez que a doutrina se dividia quanto a constitucionalidade da lei.
Para Alberto Silva Franco (2000, p. 167):
A execução integral da pena, em regime fechado, de acordo com o § 1º do art. 2º da Lei 8.072/90, contraria, de imediato, ao modelo tendente à ressocialização do delinqüente e empresta à pena um caráter exclusivamente expiatório ou retributivo, a que não se afeiçoam nem o
princípio constitucional da humanidade da pena nem as finalidades a ela atribuídas pelo Código penal (art. 59) e pela Lei de Execução Penal (art. 1º).
Por muito tempo o STF entendeu que a Lei era constitucional, pois se defendia a idéia de que a lei ordinária fixava os parâmetros para o juiz aplicar no caso concreto a individualização da pena. Desta forma, quando o legislador optou em colocar na redação da lei que a pena seria cumprida em regime “integralmente fechado”, ele impôs ao julgador aquilo que deveria ser feito nos casos de crime de natureza hedionda.
Porém, aqueles que acreditam ser inconstitucional, defendem a idéia de que o legislador apenas deve fixar parâmetros ao juiz e não obstar a discricionariedade dele.
Assim, mesmo diante de muitas críticas feitas pela doutrina, o STF continuou entendendo ser constitucional a norma e este posicionamento se deu por dezessete anos, até que em 23 de fevereiro de 2006, o STF julgou o HC 82.959-7/SP e decidiu, por maioria dos votos (seis contra cinco), pela inconstitucionalidade da norma, passando a permitir a progressão de regime para os crimes de natureza hedionda e equiparados.
Importante ressaltar que esta mudança de posicionamento do STF não foi algo fácil de acontecer, uma vez que além de levar dezessete anos para que ele mudasse seu entendimento, ainda assim alguns Ministros continuam achando que a lei é constitucional.
Optaram pela inconstitucionalidade da lei os seguintes Ministros: Marco Aurélio, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluso, Gilmar Mendes, Eros Grau e Sepúlveda Pertence.
Todos eles defenderam os princípios da Individualização da Pena, da Humanidade e da Dignidade Humana. Defenderam também a idéia de que a progressividade está ligada a pena, e isto faz que o condenado possa determinar seu comportamento dentro do estabelecimento prisional, pois ele agirá melhor sabendo que há a possibilidade de futura inserção ao meio social. Outros dois motivos ensejadores dos votos dos Ministros supramencionados foram em relação a possibilidade que a própria lei já trazia a respeito do livramento condicional e também a permissão da Lei de Tortura em relação a progressão de regime.
Sustentaram a idéia de que a lei já possibilitava o livramento condicional desde que o condenado cumprisse 2/3 da pena, sendo assim uma lei incongruente, pois ela proíbe a progressão e autoriza o livramento condicional, sendo que o correto seria ter uma progressão gradual, para que a liberdade não fosse algo muito brusco ao condenado.
Em compensação votaram em favor da constitucionalidade da lei os seguintes Ministros: Carlos Velloso, Joaquim Barbosa, Ellen Gracie, Celso de Melo e Nelson Jobim.
Sustentaram a idéia de que a lei não viola o Princípio da Individualização da Pena, uma vez que o juiz leva em consideração todas as circunstâncias descritas no artigo 59 do CP (culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade do agente, motivos, circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima) e assim ele já está individualizando a pena. Bem como o instituto da individualização é muito amplo, pois ele não se esgota na aplicação da pena, mas sim se estende também na sua fase executória, uma vez que ela é cumprida em estabelecimento prisional levando em consideração a natureza do delito, idade e sexo do condenado, e também são analisados procedimentos disciplinares em legislação específica. Desta forma, não se pode falar que o impedimento da progressão de regime gera a mitigação total do Princípio da Individualização da Pena, haja vista a progressão ser apenas uma parte deste instituto.
Porém, mesmo diante de alguns posicionamentos ainda no sentido da constitucionalidade da norma, a maioria do STF entende que ela é inconstitucional e diante disto em 29 de março de 2007 foi publicada a Lei nº 11.464/07, que alterou a redação do artigo 2º, § 1º da Lei nº 8.072/90 passando a prever expressamente a possibilidade de progressão de regime para os condenados por crimes hediondos ou equiparados, estando assim de acordo com o novo entendimento do STF.