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Capítulo II O Movimento Sem Terra e o letramento no meio rural

2.5. A proposta curricular do Curso Pedagogia da Terra

O Projeto Interdepartamental de Curso de Graduação em Pedagogia para Formação de Professores do Ensino Fundamental e Coordenadores da Escolarização dos Assentamentos de Reforma Agrária, mais conhecido como curso Pedagogia da Terra, foi realizado pela primeira vez em 1997, em convênio entre o Setor de Educação do MST/RS, a Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul e a Unijuí, através de seis cursos de graduação:28 o egresso desse curso pode optar por titulação em Pedagogia, com habilitação, para o exercício no Ensino Fundamental, em Matemática, Ciências, Língua Portuguesa ou Estudos Sociais, ou em Coordenação Escolar.

Segundo o projeto do Curso Pedagogia da Terra, o objetivo central desse convênio é formar/habilitar professores e coordenadores da escolarização de assentamentos de reforma agrária, tendo em vista “uma pedagogia da educação popular em que se conjugue estreitamente a dimensão educativa do próprio movimento em si e a dimensão escolar formal da educação de crianças, jovens e adultos” (Unijuí, 1997, p. 6). Um outro objetivo é o de formar um professor “responsável e competente para o diálogo permanente de toda a comunidade, no sentido de construir seus próprios valores, o entendimento da dimensão educativa de suas práticas cotidianas e a organização e condução delas” (p. 6). Um terceiro objetivo é o de formar professores “familiarizados com os conteúdos básicos e essenciais das diversas áreas do conhecimento do ensino fundamental, capacitados para atuar no espaço de sala de aula e no espaço ampliado da escola e comunidade” (p. 7).

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O projeto envolve os seguintes departamentos: Pedagogia; Biologia e Química; Física, Estatística e Matemática; Filosofia e Psicologia; Ciências Sociais; Estudos da Linguagem, Arte e Comunicação.

Na seção 4.4 – “Estudos específicos em: Língua Portuguesa” – do referido projeto, especifica-se o conhecimento que o professor precisa ter para atuar como mediador na construção do conhecimento do aluno. Na primeira parte desta seção, reservada para a apresentação dos “Estudos Lingüísticos – Leitura – Produção Textual”, são apresentados princípios elaborados no âmbito da Lingüística Textual e da Sociolingüística, que revelam que o ensino de Língua Portuguesa é entendido como um processo de interação social, no qual professores e alunos se constituem como agentes da interlocução.

Quanto aos objetivos desse ensino, a proposta do curso Pedagogia da Terra orienta que o professor de Língua Portuguesa deve produzir práticas nas escolas que favoreçam a construção do conhecimento e contribuam para a formação da cidadania, entendendo que a linguagem, tanto oral quanto escrita, é o meio dessa formação (Unijuí, 1997, p. 24). Ainda segundo essa proposta, o ensino de Língua Portuguesa deve “levar o aluno, não apenas ao conhecimento da gramática da sua língua, mas, sobretudo, ao desenvolvimento da capacidade de refletir de maneira crítica sobre o mundo que o cerca, em especial, sobre a utilização da língua como instrumento de interação social” (p.25).

Dessa forma, a proposta valoriza “questões de caráter pragmático (uso) e semântico (efeitos de sentido)” (p.25), que possibilitem ao aluno agir na e pela linguagem, compreendendo-a como a “principal forma de atuar, de influenciar, de intervir no relacionamento alheio” (p. 25). O trabalho com a linguagem na escola deve ser realizado, assim, “através de um constante processo de leitura, compreensão, interpretação, reflexão, reconstrução e transformação de textos” (p. 26), que leve o aluno, no momento adequado, a

sistematizar os aspectos gramaticais da língua, bem como a interagir nas mais variadas situações enunciativas da vida cotidiana.

Na segunda parte desse projeto, voltada para questões de “Literatura e Cultura”, percebe-se que a iniciativa de formação literária reflete uma concepção de formação em que o trabalho com a língua e com a literatura é prioritário para inserir os alunos de escolas rurais, mais especificamente, de assentamentos de reforma agrária, na cultura nacional e, conseqüentemente, no mundo da escrita legitimada. Tal objetivo pode ser observado na lista de livros publicados pelas Edições Populares29: “A mãe” (Gorki), “Week-end na Guatemala” (Miguel Angel Astúrias), “Clássicos sobre a revolução brasileira” (Caio Prado e Florestan Fernandes), “Sobre a prática e sobre a contradição” (Mao Tsé-Tung), entre outros.

Sobre a formação do leitor e o lugar da literatura na escola, o projeto afirma que “a formação do leitor de literatura pressupõe a participação ativa do leitor na constituição dos sentidos lingüísticos” (p. 26), e que a literatura deve envolver “o leitor de modo a fazê-lo perceber, criticamente a partir do texto, o contexto em que está inserido, facultando-lhe visões de mundo originais” (p. 27), contribuindo, assim, para a expansão de sua visão de mundo, transformando-o, de um passivo assimilador, a um co-agente na criação de todo material lido.

Podemos afirmar que a proposta de Língua Portuguesa e Literatura, adotada pelo Curso Pedagogia da Terra, comunga tanto com a concepção de letramento Sem Terra, analisada anteriormente, quanto com as novas tendências e propostas mais atuais da área da linguagem, na medida em que visa a construir um ensino cuja unidade básica de reflexão seja o

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Editora criada pelo MST, em parcerias com outros movimentos sociais, para proporcionar à sua base social a leitura de obras literárias e políticas que refletem a luta de classes a partir da ótica dos trabalhadores.

texto, a própria língua em ação. Essa proposta, portanto, oferece instrumentos para a construção de um ensino de Língua Portuguesa e Literatura comprometido com as características emancipatórias do projeto Sem Terra, uma vez que entende que a palavra escrita pode possibilitar o re-exame da visão de mundo dos envolvidos no processo educacional, e a construção de sujeitos capazes de intervir tanto no contexto escolar quanto na luta institucional que a reforma agrária implica.

No Capitulo IV (seção 4.2.2), analisaremos a realização desse projeto, em conjunto com a realização do projeto Sem Terra, nas práticas de uma das professoras envolvidas em nossa pesquisa de campo. Como veremos no capítulo seguinte (seção 3.4), essa professora estava envolvida nesse curso, cursando seu último ano, e mantinha uma relação política com o Setor de Educação do MST, que nos permite vê-la na escola como representante desse projeto.

Capítulo III