4 A PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA – LP: VYGOTSKY E
4.1 A PROPOSTA CURRICULAR E A LEITURA DOCENTE
A Proposta Curricular ao mesmo tempo em que pressupõe uma concepção de linguagem pautada no dialogismo constitutivo, proposto por Bakhtin, critica a maneira tradicional da escola de trabalhar a linguagem baseada no ensino de metalinguagem, método ainda constante no ambiente escolar, proveniente de concepções já ultrapassadas e que a Proposta Curricular alerta: “este é um dos motivos pelos quais os sujeitos podem entrar na escola sabendo uma língua e sair dela, depois de longos anos, afirmando não saber a sua língua. É o ‘paradoxo pedagógico’!”. (SANTA CATARINA, 1998c, p. 62). E ainda adverte que “os chamados conteúdos programáticos” (matérias) tradicionais perdem sua razão de ser a partir dessas novas considerações acerca das práticas em sala de aula.
Se a escola trabalha com o homem em sua realidade social, se quer formá-lo integralmente, como poderia assumir concepções cujos pressupostos são tão restritivos? A sua legitimidade se dá no nível da própria atividade científica, como estudo desinteressado, como teoria. A escola, ainda hoje, trabalha com o fundamento comunicativo da linguagem humana, que teoricamente é limitado; por outro lado, pretende desenvolver a expressão do aluno (lado individual, insistindo na criatividade), o que se faz a duras penas, sem muito sucesso, e o processo interacional fica, em última análise, marginalizado. Dá-se, então, uma contradição: no ensino, apela-se para a metalinguagem (ensino de conceitos gramaticais); na aprendizagem (escritura), espera-se expressão individual, mas ao mesmo tempo algo que corresponda ao que foi ensinado. (SANTA CATARINA, 1998c, p. 60).
A Proposta redimensiona essas práticas em fala e escuta; leitura e escritura, e a denomina prática de análise linguística. No entanto, essa prática ainda é um desafio a ser transposto, haja vista a resistência dos professores e da própria escola que, por uma formação mais tradicional, mais estruturalista, rejeita a ideia de mediar o processo de construção do conhecimento e, como assinala a Proposta Curricular, insiste em ser uma “mera transmissora de conhecimento” (SANTA CATARINA, 1998c, p, 68). Furlanetto indaga:
O perigo de uma aula metodizada é o silenciamento; também o professor, de alguma forma, está sendo silenciado – e ao ser silenciado, sofre o processo de reificação. No ensino de língua, se o trabalho pedagógico for desenvolvido tendo o conhecimento gramatical como fim, como chegar ao conhecimento da vida social que a língua representa, com sua multiplicidade de gêneros, de estilos, de perspectivas? (FURLANETTO, 2008, p. 296).
E, além disso, como enfatiza a mesma autora,
o peso da tradição se manifesta pela aceitação e legitimação sociopolítica de instrumentos que circulam ainda no ambiente escolar (através do discurso pedagógico) – somando-se a este o reconhecimento de que a PC-SC apresenta lacunas e noções não bem esclarecidas. (FURLANETTO, 2008, p. 302).
O documento também chama a atenção para o “comprometimento de cada professor [...] e por isso tem enfatizado que não há como parar de aprender” (SANTA CATARIA, 1998c, p. 69). Embora o estado de Santa Catarina incentive o estudo da Proposta Curricular e distribua material para os professores, boa parte deles desconhece o conteúdo desse documento como aponta Bonetti em sua pesquisa para a dissertação de mestrado: “91,6% do total das informantes, não conhecem bem ou não entendem o que está sendo proposto no texto da PC-SC-LP [...]. Conclui-se, portanto, que o grau de conhecimento acerca do conteúdo da PC-SC-LP [...] não é dos mais animadores” (BONETTI, 2003, p. 127), o que cria uma barreira e dificulta a adoção dessa nova prática por parte dos docentes. Percorrendo esse caminho, Furlanetto acentua o problema de compreensão da Proposta Curricular:
Um problema geral diz respeito à compreensão, pelo professor, do documento oficial, como tem sido explicitado em algumas pesquisas. [...] na prática, um confronto entre padrões de língua, o que leva a questões sobre leitura e interpretação. O problema que se apresenta aí é que ‘transmitir’ saberes de uma esfera específica da sociedade (aquela em que se produz ciência) para outra pressupõe que haja procedimentos didáticos (visto que o saber se exterioriza, para ser divulgado) para que o divulgador (professor, no caso) faça a ponte para seus estudantes. (FURLANETTO, 2008, p. 300)
Há uma lacuna entre o que apregoa a PC-SC e a prática docente. Dela Justina, em sua dissertação de mestrado “A Leitura da Proposta Curricular de Santa Catarina: investigando os níveis de Letramento”, aborda a questão que aqui interessa. Embora seu trabalho não seja sustentado pelo dispositivo teórico da Análise do Discurso, a autora levanta a questão da leitura e aponta, como parte de sua pesquisa, a dificuldade dos professores que consideram a PC-SC de difícil leitura. Dela Justina questiona:
[...] pode-se observar que a maioria dos professores considera a leitura desse documento difícil. Mas, todo texto tem inscrito em si um leitor potencial e, neste caso, é exatamente o professor que atua na rede pública estadual. No momento da constituição da escrita do texto, segundo Orlandi, o leitor já deve estar operando e pode ser um cúmplice ou um adversário. Para o órgão oficial que emitiu a proposta, o leitor professor era imaginado como cúmplice, mas o professor tem considerado o documento como adversário. Onde está o desencontro? (DELA JUSTINA, 2003, p. 32).
Apesar dos problemas apontados, a Secretaria de Estado da Educação tenta manter viva a discussão acerca da proposta por meio de formação continuada, da produção de novos documentos, publicação de cadernos com instruções mais específicas. O intuito desses esforços gira em torno da possibilidade de atualizar os professores com as concepções inovadores e ajudar a quebrar a barreira, a resistência que ainda persiste entre muitos docentes em aderir às novas configurações de trabalho com a língua materna, seja essa resistência advinda da força da tradição, seja pela falta de compreensão do que está disposto no documento.
4.2 A PROPOSTA CURRICULAR E O LIVRO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA: