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A proposta curricular oficial e o Ensino Fundamental

4 FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA GEOGRAFIA

4.3 A proposta curricular oficial e o Ensino Fundamental

Como marco de renovação para esse nível de ensino e os demais componentes curriculares, identificamos também no âmbito das políticas educacionais, nos anos 1990, a implantação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) com proposta de orientação

curricular para a Educação Básica. Compreender essas duas posições – a proposta acadêmica e a propositura oficial – nos ajudam a desvendar o embate entre o discurso acadêmico e o discurso oficial sobre o sentido da Geografia na escola. Como propõe Cavalcanti,

O conteúdo dessa discussão pode ser situado em duas posições: numa, busca-se consolidar um projeto oficial para o ensino e para a geografia, em particular; noutra, como resistência a esse projeto, investigam-se modos alternativos e mais autônomos de trabalho com a Geografia, sem vínculo explícito com as orientações de caráter oficial. (2012, p.39,40).

Os PCN são uma proposta de currículo formal, prescrita pelo Governo Federal, que tem como objetivo oferecer uma referência curricular nacional para o Ensino Fundamental, que possa ser discutida e traduzida em propostas regionais nos estados e municípios brasileiros, em projetos educativos nas salas de aula. Propõem ainda garantir a todo aluno de qualquer região do País, do interior ou do litoral, de uma grande cidade ou da zona rural, que frequentam cursos nos períodos diurno ou noturno, que sejam portadores de necessidades especiais, o direito de ter acesso aos conhecimentos indispensáveis para a constituição de sua cidadania. (BRASIL, 1998a, p.9).

Na elaboração deste documento, existe para cada área e para todos os temas referidos um documento específico que parte de uma análise da área ou do tema, de sua importância na formação do aluno do Ensino Fundamental e, em função disso, traz uma proposta detalhada em objetivos, conteúdos, avaliação e orientações didáticas.

Os PCN estão organizados em ciclos, numa tentativa de superar a segmentação do regime seriado e minimizar a ocorrência da repetência e da evasão escolar (LIBÂNEO, 2013, p.165). O primeiro ciclo diz respeito à primeira e à segunda séries; o segundo ciclo, à terceira e à quarta séries; o terceiro ciclo se refere à quinta e à sexta séries; e o quarto ciclo se reporta à sétima e à oitava séries.

No documento introdutório, para o terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental são indicadas as linhas norteadoras, que constituem propostas de reorientação curricular que a Secretaria de Educação Fundamental do Ministério da Educação (MEC) oferece às secretarias de Educação, escolas, instituições formadoras de professores, instituições de pesquisa, editoras e a todas as pessoas interessadas em Educação, dos estados e municípios brasileiros (BRASIL, 1998a, p.9).

Os PCN também são constituídos por Temas Transversais, um documento que permite discutir, na escola e na sala de aula, questões da sociedade brasileira, como as ligadas a Ética, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Pluralidade Cultural, Saúde, Trabalho e

Consumo ou a outros temas que se mostrem relevantes (BRASIL, 1998a, p.9). Os conteúdos relativos a esses assuntos, bem como o enfoque adotado em cada qual, estão explicitados nos documentos de áreas. Para aprofundar os assuntos, há textos de fundamentação que também podem contribuir para o desenvolvimento de projetos específicos que a escola tenha necessidade e interesse em desenvolver (BRASIL, 1998a, p.65). Segundo Libâneo,

A transversalidade pressupõe, portanto, um tratamento integrado das áreas e uma vivência no âmbito da organização da escola dos valores trabalhados em sala de aula. Implica, também, adaptações a contextos locais. Por exemplo, ao se tratar da educação ambiental, serão contemplados conteúdos e vivências conforme peculiaridades locais, por exemplo, nos seringais da Amazônia ou na periferia das grandes cidades. (2013, p.165).

Quanto aos objetivos gerais para o ensino da Geografia (Ensino Fundamental II), segundo os PCN (BRASIL, 1998b, p.34,35), espera-se que, ao longo dos oito anos, os alunos constituam um conjunto de conhecimentos referentes a conceitos, procedimentos e atitudes relacionados à Geografia, que lhes permitam ser capazes de:

 conhecer o mundo atual em sua diversidade, favorecendo a compreensão, de como as

paisagens, os lugares e os territórios se constroem;

 identificar e avaliar as ações dos homens em sociedade e suas consequências em diferentes

espaços e tempos, de modo que construam referenciais que possibilitem uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais locais;

 conhecer o funcionamento da natureza em suas múltiplas relações, de modo que

compreendam o papel das sociedades na construção do território, da paisagem e do lugar;

 compreender a espacialidade e temporalidade dos fenômenos geográficos estudados em

suas dinâmicas e interações;

 compreender que as melhorias nas condições de vida, os direitos políticos, os avanços

tecnológicos e as transformações socioculturais são conquistas ainda não usufruídas por todos os seres humanos e, dentro de suas possibilidades, empenhar-se em democratizá-las;

 conhecer e saber utilizar procedimentos de pesquisa da Geografia para compreender a

paisagem, o território e o lugar, seus processos de construção, identificando suas relações, problemas e contradições;

 compreender a importância das diferentes linguagens na leitura da paisagem, desde as

imagens, música e literatura de dados e de documentos de diferentes fontes de informação, de modo que interprete, analise e relacione informações sobre o espaço;

 saber utilizar a linguagem gráfica para obter informações e representar a espacialidade dos

fenômenos geográficos; e

 valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a sociodiversidade, reconhecendo-os como

direitos dos povos e indivíduos e elementos de fortalecimento da democracia.

Conforme avaliamos nos objetivos, a criança, ao término do Ensino Fundamental, deverá ter desenvolvido um conjunto de saberes que lhe permite compreender a organização do espaço geográfico, bem como atuar na sociedade como cidadão consciente de seu papel no contexto em que vive. São conceitos, procedimentos, atitudes e valores propostos para a matéria Geografia, que exige da escola uma estrutura flexível e diversificada; do professor, requer dinamismo e criatividade na mediação do conhecimento; do aluno espera-se a capacidade de desenvolver habilidades que ajudam na elaboração de conteúdos procedimentais, quais sejam: pesquisar, conceituar, calcular, ler, descrever, observar, identificar, comparar, associar, analisar, relacionar, interpretar, representar, entre outras.

Para garantir o alcance desses objetivos, necessitamos de uma organização escolar diferente da configuração convencional. Conhecer o mundo atual por meio da Geografia na escola sugere utilizar-se cada vez mais das tecnologias da informação e comunicação para ter acesso às imagens, às informações que dão conta dos lugares mais longínquos; identificar e analisar as ações das pessoas em sociedade e da própria natureza requer uma leitura do espaço geográfico, que poderá ser explorada por meio de forma indireta, de imagens, mas também pela leitura direta, de aula em campo; compreender os fenômenos geográficos como, por exemplo, dados populacionais, dinâmica espacial das indústrias, das grandes empresas nacionais e multinacionais exige a manipulação de dados expressos em mapas, gráficos, tabelas e quadros. Com isso, a escola deverá oferecer, além dessas representações gráficas expressas nos livros didáticos, materiais e fontes de consulta de fácil acesso. A escola também deverá reconhecer e valorizar o patrimônio cultural, demandando práticas escolares dinâmicas, como visitas a museus, praças, parques ecológicos, ou seja, em diversos espaços formativos que a cidade pode oferecer, para auxiliar no ensino e na aprendizagem.

Assim, a concepção de escola é ampliada em ultrapassagem aos seus limites físicos. Enfim, estes objetivos passam uma mensagem tácita, fazendo alusão a outro tipo de escola, ou seja, uma escola mais aberta e com espaços plurais, capaz de garantir condições adequadas de ensino e aprendizagem aos professores e educandos. Entendemos que a diversidade é própria da natureza humana! Oferecer um espaço fechado às crianças e aos jovens é convidá-los a esquecer o seu potencial criativo, desconsiderar as diversas inteligências e cair no marasmo, no desencanto, num universo monocromático, enquanto lá

fora o mundo se expressa policolorido. Segundo Antunes (2005, p.62), a inteligência constitui um potencial biopsicológico do ser humano que o ajuda a resolver problemas. Este atributo é inato à espécie, e assim nascemos com nossas inteligências, cabendo ao ambiente, no qual se inclui naturalmente a escola, mais acentuadamente estimulá-las.

A reorganização curricular também perpassa a ampliação do Ensino Básico. O Ensino Fundamental de nove anos remonta ao antigo Ensino de 1º Grau instituído pela Lei Federal nº 5.692, de 11 de agosto de 1971, em atenção à Lei nº 4.024/1961, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Conforme essas diretrizes, o Ensino de 1° e 2º graus, art. 1º, tinha como objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de autorrealização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania (ZOTTI, 2004, p.163).

O Ensino Fundamental de nove anos constitui uma das etapas da Educação Básica, que tem por finalidade desenvolver o educando, assegurando-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecendo-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. As etapas da Educação Básica são Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio (LIBÂNEO, OLIVEIRA TOSCHI, 2012, p.344).

A Lei nº 11.274, de 6 de fevereiro de 2006, alterou os artigos da LDB de 1996 e ampliou de oito para nove anos essa etapa da escolarização brasileira, com matrícula obrigatória a partir de seis anos de idade. As unidades escolares tiveram um prazo até 2010 para se adaptarem à nova lei.

O Ensino Fundamental, com duração de nove anos, conforme as Diretrizes Curriculares, Resolução nº 7, de 14 de dezembro de 2010, abrange a população na faixa etária dos seis aos 14 anos de idade, e se estende, também, a todos os que, na idade própria, não tiveram condições de frequentá-lo. Consoante o Art. 9º dessa Resolução, que trata sobre o currículo, este deve ser entendido como constituído pelas experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, permeadas pelas relações sociais, buscando articular vivências e saberes dos alunos com os conhecimentos historicamente acumulados e contribuindo para formar as identidades dos estudantes (BRASIL, 2010a).

Os alunos em fase de escolarização que frequentam essa etapa do ensino estão assim distribuídos: Ensino Fundamental I (1º ao 5º anos), crianças de seis a dez anos de idade; Ensino Fundamental II (sexto ao nono anos), crianças de 11 a 14 anos de idade. “O ensino fundamental, como toda a educação básica, pode organizar-se por séries anuais, por períodos semestrais, por ciclos, por períodos de estudos, por grupos não seriados, por idade, por

competência ou por qualquer outra forma que o processo de aprendizagem requerer”.

(LIBÂNEO, OLIVEIRA e TOSCHI, 2012, p.349).

Segundo o art. 32 da LDB, os objetivos do Ensino Fundamental devem proporcionar uma formação básica do cidadão mediante:

I – o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno desenvolvimento da leitura, da escrita e do cálculo;

II – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;

III – o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;

IV – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. (BRASIL, 1996).

De acordo com essas Diretrizes, a carga didática mínima para esse nível de ensino é de 800 horas/relógio, distribuídas em, pelo menos, 200 dias de efetivo trabalho escolar. Está prescrito também que os conteúdos estão constituídos por uma

[...] base nacional comum e a parte diversificada tem origem nas disciplinas científicas, no desenvolvimento das linguagens, no mundo do trabalho, na cultura e na tecnologia, na produção artística, nas atividades desportivas e corporais, na área da saúde e, ainda, incorporam saberes como os que advêm das formas diversas de exercício da cidadania, dos movimentos sociais, da cultura escolar, da experiência docente, do cotidiano e dos alunos. (BRASIL, 2010a).

Esses conteúdos são formados por componentes curriculares que, por sua vez, se articulam com as áreas de conhecimento, a saber: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas. As áreas de conhecimento favorecem a comunicação entre diversificados conhecimentos sistematizados e entre estes e outros saberes, mas permitem que os referenciais próprios de cada componente curricular sejam preservados (BRASIL, 2010a).

Consta no art. 14 que o currículo da base nacional comum do Ensino Fundamental deve abranger, obrigatoriamente, conforme o art. 26 da Lei nº 9.394/96, o estudo da Língua Portuguesa e da Matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente a do Brasil, bem como o ensino da Arte, a Educação Física e o Ensino Religioso.

Esses componentes curriculares obrigatórios do Ensino Fundamental estão assim organizados em relação às áreas de conhecimento:

a) Língua Portuguesa;

b) Língua Materna, para populações indígenas; c) Língua Estrangeira moderna;

d) Arte; e

e) Educação Física; II – Matemática;

III – Ciências da Natureza; IV – Ciências Humanas: a) História;

b) Geografia;

V – Ensino Religioso.

As alterações no Ensino Fundamental II, em virtude da ampliação do ensino de oito para nove anos, se dão nas séries iniciais, pois o último ano da Educação Infantil foi transformado no primeiro ano do Ensino Fundamental. No sistema público de ensino, essa ampliação representou uma conquista para as crianças carentes que não tinham acesso à pré- escola. Com isso, elas passaram a ter um tempo maior de escolarização. Este privilégio já era garantido pelo sistema de ensino privado, que atende às crianças abastadas. No que diz respeito aos alunos do Fundamental II, a modificação se traduz muito mais numa mudança de nomenclatura, e não provocando trocas no ensino da Geografia.

A garantia da qualidade da Educação para esse nível de escolarização é prevista na forma da lei que orienta os sistemas de ensino e as escolas. Conforme o Art. 26 das DCN para o Ensino Fundamental de nove anos, os sistemas de ensino e as escolas assegurarão adequadas condições de trabalho aos seus profissionais e o provimento de outros insumos, de acordo com os padrões mínimos de qualidade referidos no inciso IX do art. 4º da Lei nº 9.394/96 e em normas específicas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, com vistas à criação de um ambiente propício à aprendizagem, com base:

I – no trabalho compartilhado e no compromisso individual e coletivo dos professores e demais profissionais da escola com a aprendizagem dos alunos;

II – no atendimento às necessidades específicas de aprendizagem de cada um mediante abordagens apropriadas;

III – na utilização dos recursos disponíveis na escola e nos espaços sociais e culturais do entorno;

IV – na contextualização dos conteúdos, assegurando que a aprendizagem seja relevante e socialmente significativa;

V – no cultivo do diálogo e de relações de parceria com as famílias.

A lei sugere a criação de um ambiente, onde os professores possam encontrar condições de trabalho favoráveis; este ambiente adequado deverá estar vinculado a espaços que transcendem os espaços físicos das escolas, ou seja, o ensino e a aprendizagem poderão

acontecer em “espaços sociais e culturais do entorno”, portanto, a escola deverá considerar o

potencial formador que existe no bairro, na cidade... Dessa maneira, compreendemos a mensagem implícita: não só a escola deverá estar preparada para receber os alunos, mas também a cidade de maneira geral. Esse projeto convida a escola a estabelecer conexões entre os demais espaços da cidade para que esta venha a se preparar para desenvolver o seu potencial formador.

No capítulo a seguir, expomos os dados colhidos na Escola pesquisada e realizamos a análise destes indicadores, refletidos à luz das discussões sobre a Teoria Crítica da Educação e o Ensino de Geografia.

5 OS PROFESSORES E A GEOGRAFIA NO CHÃO DA ESCOLA PÚBLICA: