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2 Revisão da Literatura

6. De 1890 a 1895 Subsídios teóricos da documentação

6.4 A proposta de classificação de Melvil Dewey

Em meados de 1894, quando em férias na costa noroeste da Bélgica, Otlet toma conhecimento da existência de um plano de classificação decimal. Encantado com esta ideia, ficou surpreso com o teor do que havia sido proposto por Melvil Dewey, em 1876 sob o título “A Classification and subject index for cataloguing and arranging the books and pamphlets of a library”14. No início de 1895, Otlet e La

Fontaine obtém acesso a um exemplar desta publicação, e passam a estudá-la em todos seus pormenores.

Verificam que Melvil Dewey (Melville Louis Kossuth Dewey, 1851-1931), era um jovem recém-formado que foi admitido como bibliotecário-assistente da biblioteca escolar do Amherst College, de Amherst, cidade do estado de Massachusetts nos Estados Unidos da América.

14 “Uma classificação e índice de assuntos para classificar e organizar os livros e panfletos de uma

biblioteca” (tradução nossa)

Esta instituição de ensino, criada nos anos 1920, teve sua biblioteca construída apenas 23 anos antes de Dewey iniciar seu trabalho como bibliotecário. O fato de não possuir uma tradição arraigada de indexação alfabética, como as centenárias e imensas bibliotecas europeias, é um fator que pode ter possibilitado a Dewey liberdade para levar adiante sua proposta.

O trabalho de reorganização deste acervo, pelo novo plano, foi permitida a Dewey e iniciado em 1873. Além do estudo realizado sobre este acervo inicial, composto por centenas de livros e panfletos, Dewey informa que realizou visitas pessoais a mais de 50 outras bibliotecas americanas. (DEWEY, 1876).

A proposta de Dewey, visava acima de tudo, ser tão simples que qualquer pessoa, mesmo com pouco treinamento e qualificação, tivesse condições de organizar os livros nas prateleiras e encontrá-los com facilidade, visando atender às necessidades de seus usuários. Aproximando-os por assunto, o bibliotecário poderia apresentar ao usuário um ou mais livros que tratassem do mesmo assunto pesquisado, mesmo que o título específico, solicitado pelo usuário não estivesse na estante.

Após três anos de aplicação prática em Amherst, a primeira edição da CDD, então com 44 páginas foi publicada. Dewey fez questão de informar, que esta proposta foi o resultado de discussões com dezenas de outros pesquisadores, e baseou-se também em outros sistemas semelhantes já existentes. Entre estes, ele informa que diversas idéias foram retiradas do "Nuovo Sistema di Catalogo Bibliografico Generale" de Natale Battezzati, de Milão, Itália, e que seu sistema muito se assemelhava ao plano de organização da Biblioteca escolar da St. Louis Public School, principalmente na questão de inverter a ordem das classes propostas por Francis Bacon (1561-1626).

Dewey ressalta no prefácio da edição de 1876, que uma das principais vantagens de seu método, sem acarretar qualquer despesa adicional, era o fato de que a organização de livros e panfletos pela CDD, permitia ampliar a utilidade do acervo e por consequência das bibliotecas. (DEWEY, 1876, Prefácio)

No detalhamento da proposta, Dewey informa, que a biblioteca deveria ser dividida em 9 bibliotecas especiais ou 9 classes. Estas classes, deveriam ser

consideradas de forma independente, e novamente divididas em 9 divisões especiais do assunto principal. Por último, sugere que estas divisões especiais deveriam ser divididas novamente em 9 seções, propondo o seguinte esquema:

9 classes, divididas em

9 divisões especiais, divididas em 9 seções.

Desta forma, poderia ser criada uma organização do geral para o particular de todos os livros e panfletos da biblioteca. A principal característica e vantagem da utilização deste método, seria permitir que todos os suportes do conhecimento, relativos a um determinado assunto, fossem colocados próximos uns dos outros, facilitando ao leitor encontrar tudo o que existia no acervo sobre uma determinada matéria ou assunto. Esta organização, permitiria também que assuntos semelhantes ou relacionados, também estivessem próximos, facilitando ao usuário o aprofundamento no tema, mesmo que não tivesse conhecimento à priori de um determinado título ou autor. (DEWEY, 1876, Prefácio).

Este método decimal e esta explicação de Dewey, foram entendidos e assimilados por Otlet como a solução ótima, para os problemas de organização das fichas catalográficas de todos os seus acervos. Era exatamente este objetivo, facilitar o acesso ao conhecimento, que Otlet e La Fontaine estavam perseguindo quando discutiam a forma mais racional de organizar suas fichas catalográficas.

Após o contato inicial, com a proposta de Dewey, Paul Otlet e La Fontaine realizaram a tradução das classes, das subdivisões de sociologia e de suas tabelas de assuntos. Os resultados animadores, permitiu que considerassem esta forma de organização, que apesar de criada originalmente para classificar livros e panfletos, poderia também ser adotada para a organização das fichas de repositórios sobre todo e qualquer assunto. Isto seria viável, pois o objetivo principal seria o mesmo, agrupar as fichas catalográficas que continham referências sobre o conhecimento registrado, e facilitar sua recuperação.

Além disto, a possibilidade de expansão e intercalação de novas fichas, uma das vantagens sempre ressaltadas por Otlet, permitiria que o banco de dados analógico que estavam dispostos a criar, fosse ampliado continuamente.

A imediata aplicação do método de classificação decimal, à uma parte considerável, das mais de 100.000 fichas que já haviam acumulado, permitiu que La Fontaine e Otlet, testassem as qualidades deste método de classificação.

Verificaram então, que as fichas realmente poderiam ser distribuídas conforme o assunto, intercaladas sem dificuldade e que as Classes, Divisões Especiais e Seções poderiam ser subdivididos de forma coerente e vinculadas aos termos gerais. Apesar de não estar completa, grande parte das divisões especiais já haviam sido desenvolvidas por Dewey. A possibilidade de traduzir os títulos associados ao códigos para qualquer língua, permitia considerar que em qualquer país os mesmos assuntos seriam classificados pelos mesmos códigos numéricos, evitando as limitações da classificação alfabética. Esta características, abria espaço para a cooperação internacional, apresentando-se esta classificação decimal, como uma solução completa, viável e expansível.

Neste meio tempo, eles haviam solicitado informações sobre a existência de outros tipos e métodos de classificação ao escritório em Londres, responsável pela distribuição da Classificação Decimal de Dewey. Após examinar os demais métodos de classificação propostos à época, gradualmente as ideias de Paul Otlet foram se consolidando sobre o uso da Classificação Decimal de Dewey para a organização dos repositórios sobre os quais estavam debruçados.

Esta convicção levou-o a afirmar:

“Está criada a primeira nomenclatura para todo o conhecimento humano, fixo, universal e próprio para ser expresso em uma linguagem internacional – a dos números. Ela permite a unicidade dos métodos de classificação para todas as bibliografias e permite uma exata concordância entre a classificação nas bibliotecas e a do Repertório Bibliográfico. Finalmente, ela permite um sistema ilimitado de divisões e subdivisões de assuntos com todas as partes sendo conectadas e sendo agrupadas próximas umas das outras.” (1895, p. 7, apud RAYWARD, 1975, p. 42)