5. O CONSTRUCT STATE E OS COMPOUNDS: UMA ANÁLISE MORFOSSINTÁTICA
5.2 O CONSTRUCT STATE
5.2.2 A questão da definitude
5.2.2.3 A proposta de Danon (2001)
Destacamos a proposta de Danon (2001) neste trabalho, primeiramente, pela sua relevância na literatura especializada e, em segundo lugar, por apresentar a definitude como um traço, presente na derivação sintática, desvencilhado de um conteúdo semântico obrigatório. Tal hipótese, em uma análise que tenta explicar a presença de um morfema que não provoca alterações para a interpretação semântica do sintagma, torna-se relevante.
Danon (2001) mostra que o hebraico fornece evidências para assumir que a definitude é um traço na sintaxe. No entanto, essa definitude formal não está relacionada com a definitude semântica e não há um mapeamento um por um entre os dois tipos de definitude.
Primeiramente, para este autor, o ha- ‘the’, no inglês, deve ser considerado como um morfema preso e não como um item lexical independente. Além disso, o autor argumenta que a motivação para a existência de um traço de definitude no hebraico deve-se, principalmente, a duas propriedades dos DPs definidos desta língua: (i) a concordância de definitude, já relatada neste trabalho, e (ii) a presença de uma marca de objeto, apenas nos objetos que são definidos.
A possibilidade de concordância entre o nome e o adjetivo está exemplificada em (111):
(111) a) ha-yeled ha-gadol
DET-menino DET-menino
“o menino grande”
b) ha-yeled gadol
DET-menino grande
”o menino é grande”
c) *yeled ha-gadol
menino DET-grande
d) yeled gadol
menino grande
“um menino grande”
Para Danon, a possibilidade de concordância apresentada entre nomes e adjetivos é similar à marcação de gênero nos verbos do hebraico e não interfere na interpretação dos sintagmas. Essa é, para o autor, uma evidência de que definitude é um traço formal em hebraico. Dessa forma, o autor só pode afirmar que a marcação de definitude nos APs é puramente formal por meio da afirmação de que existe um traço [def] no nível da sintaxe em hebraico.
Outra propriedade peculiar da sintaxe do hebraico, citada por Danon, é a sensibilidade da marca ’et à definitude do objeto. Sempre que um objeto é marcado com o artigo definido
ha-, ele deve ser precedido pelo ’et, tradicionalmente analisado como uma marca de Caso
acusativo falsa. Objetos indefinidos, contudo, não podem ser precedidos pelo ’et, como vemos em (112):
(112) a) ra’iti *(’et) ha-yeled
vi.1sg *(’et) DET-menino “Eu vi o menino”
b) ra’iti (*’et) yeled
vi.1sg (*’et) menino
“Eu vi um menino”
Neste ponto, Danon levanta uma questão sobre o paradigma acima: por que algo sintático como uma marca de Caso acusativo falsa é sensível à definitude do objeto? Utilizando a proposta de que o hebraico possui um traço de definitude na sintaxe, o autor
argumenta que a interação entre a marcação de Caso para o objeto e a definitude está inteiramente no nível da sintaxe e deve ser explicada em termos sintáticos. Isso difere, portanto, de uma proposta em que a definitude é uma propriedade semântica e a interação em pauta é um problema da interface sintaxe-semântica.
A argumentação de Danon caminha para demonstrar que definitude sintática e definitude semântica são coisas diferentes, quando o autor traz evidências contra a possibilidade de conciliar definitude sintática com qualquer definição semântica de definitude. Assim, ele mostra que NPs, semanticamente idênticos, podem diferir em termos de definitude sintática. Por exemplo, os demonstrativos, em hebraico, são adjetivos que aparecem pós- nominalmente, segundo o autor. Como qualquer outro adjetivo, eles são possíveis tanto com nomes definidos, quanto com nomes indefinidos e concordam com o nome em definitude formal. O valor semântico, porém, não é afetado pela ausência ou pela presença do artigo definido, como vemos abaixo em (113).
(113) a) karati sefer ze
li.1sg livro este “Eu li este livro”
b) karati et ha-sefer ha-ze
li.1sg (et) DET-livro DET-este “ Eu li este livro”
Para Danon, está claro que nenhuma caracterização semântica de definitude, que atribua um valor específico de definitude para o DP demonstrativo, poderá explicar o fato de que os demonstrativos hebraicos possam ser tanto sintaticamente [+def], quanto sintaticamente [-def].
Resumindo, para a semântica, o pronome demonstrativo é semanticamente definido, mas de acordo com Danon, ele é sintaticamente indefinido, o que se comprova pela falta do marcador de objeto definido ‘et, um marcador sensível a definitude sintática.
Podemos observar que o autor não considera que o pronome demonstrativo seja a realização do traço [+def]. Esse fato deriva da ausência da partícula ‘et no exemplo em (113)a). A partícula ‘et é utilizada pelo autor para testar o traço de definitude formal, que só é realizado, na sua concepção, através do ha-. Contudo, a partícula ‘et pode acompanhar o pronome demonstrativo ze, como em (114):
(114) karati et ze
li.1sg et este/isso “Eu li isso”
Parece, portanto, que o ze ‘este’ pode e deve ser considerado também o portador do traço [+def], se considerarmos o ‘et como um marcador de definitude sintática. Assim, tanto em (113)a) como em (113)b), os DPs demonstrativos possuem o traço [+def] e a marca ‘et não parece ser um bom instrumento para testar a proposta de definitude sintática, pois na presença de um traço[+def] ela não aparece, por exemplo em (113)a). O que parece ser difícil explicar é: por que a presença do ha- não traz nenhuma influência na interpretação das sentenças? Ou então, por que o ha- aparece nos adjetivos, ou em constucões com os pronomes demonstrativos não contribuindo para a interpretação das mesmas? E a pergunta que segue a essas, qual é a natureza do ha-?
Enfim, Danon afirma que o traço [def] não é a única maneira para o sintagma nominal ser semanticamente definido; demonstrativos, por exemplo, fornecem uma interpretação definida independentemente do traço formal. Em outras palavras, para Danon, um sintagma nominal sem o traço [+def] não é necessariamente indefinido. Contudo, acreditamos que demonstrativos também carreguem o traço [+def] e, como conseqüência, permitam a presença do ‘et e a interpretação de definido ao sintagma nominal.