Havia Outra Proposta
4.3. A proposta do Instituto Cidadania
Em contraponto à essas idéias, o Instituto Cidadania produziu um importante documento. Abaixo, faz-se uma análise do texto apresentado pelo Instituto, escrito a diversas mãos, muitas delas, importantes figuras do governo Lula. Logo no item II, lemos:
Para analisar as conseqüências da crise e evitar sua repetição, é preciso entendê-la dentro de uma perspectiva histórica. Ela resultou do fracasso da reforma do setor elétrico, que foi con-cebida tendo a privatização como eixo central, com vistas à implantação de um modelo de mercado na geração e distri-buição. A imposição desse modelo trouxe efeitos nefastos ao funcionamento do setor:
Os grupos privados, nacionais e estrangeiros, atraídos
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pela privatização, se limitaram basicamente a adquirir ativos das distribuidoras e de algumas geradoras impor-tantes, mas não promoveram a expansão necessária da oferta de energia;
As geradoras estatais, que dispunham de recursos,
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foram proibidas de investir, porque estavam incluídas no Programa Nacional de Desestatização e, também, devido a metodologia de elaboração das contas públicas imposta pelo acordo com o FMI.
A obrigação de expansão deixou de existir, passando o
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planejamento a ser precário e meramente indicativo, tor-nando-se, por isso, muito indefinida a responsabilidade pelo aumento da oferta de energia.
O papel de atrair capitais foi transferido aos agentes do
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mercado. “Esses, mesmo sob a forma de produção indepen-dente, não compareceram na proporção devida”.
Como se pode constatar, sobre o papel a ser desempenhado pelas empresas públicas, há uma total divergência entre a proposta do instituto e a prática do atual governo, já que, como mostrado no capítulo IV, empresas do grupo Eletrobrás, estranhamente, permaneceram, por um longo período, inseridas no Programa Nacional de Desestatização. Esse
“esquecimento” manteve limitações criadas no governo anterior. Além
disso, continuaram sendo obrigadas a congelar recursos advindos de tarifa para composição do superávit primário numa intensidade ainda maior.
O ponto chave da proposta do Instituto era justamente denunciar a enorme incompatibilidade do sistema mercantil, gestado em sistemas de base térmica, e o sistema de base hidráulica com as características do brasileiro. Logo na página 12, há um quadro com as conseqüências das diferenciações físicas.
Como se pode verificar no próprio documento, não se propu-nha e re-estatização das empresas privatizadas ou qualquer proposta politicamente radical. Muito ao contrário, apenas eram identificados problemas:
Na incompatibilidade física.
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Na primazia do mercado atacadista, que privilegiava as figuras
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dos comercializadores e consumidores livres.
Na falta de compromisso dos investidores com o longo prazo.
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Na figura predominante do regime jurídico de produção
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independente.
Numa continuidade de privatização, não mais das empresas,
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mas sim da energia.
O principal diagnóstico era o de que eletricidade era um assunto muito fundamental para que um país em desenvolvimento decida ado-tar uma política sob força e lógica de mercado. Seria essencial manter o papel das empresas públicas, e, sendo assim, merece destaque o trecho que propõe “Eficiência e Transparência na Gestão do Setor”
Tabela 4.1. Diferenças marcantes entre sistemas térmicos e sistemas hidráulicos.
Sistemas térmicos Sistemas hidráulicos Uma decisão operativa tomada
hoje não afeta a operação nem a confiabilidade futura.
Uma decisão operativa tomada hoje afeta a operação e a confiabilidade futura.
Cada unidade tem custo direto de operação (custo de combustível e outros) que independe da geração de outras usinas.
O custo de operação é definido no ambiente cooperativo e dependente do futuro. O custo de uma usina depende das outras.
A capacidade de ofertar energia total é igual à soma das capacidades de cada usina. O sistema de transmissão não afeta esse valor.
A capacidade de ofertar energia do sistema não é simplesmente a soma de capacidades individuais de usinas. O sistema de transmissão afeta esse valor.
O custo do combustível fornece uma referência natural para definição do preço spot da energia.
Preço formado pelo mercado.
O preço spot é um custo de oportunidade de uso da reserva calculado monopolisticamente.
Não é formado pelo mercado.
A rede de transmissão não afeta a quantidade de energia garantida.
Prevalece a lógica elétrica na determinação dos fluxos.
A rede de transmissão afeta a energia garantida, pois exerce um papel de remanejamento de recursos hídricos. Prevalece a lógica energética na determinação dos fluxos.
“Será criado um novo modelo de gestão, que contemple o desenvolvimento organizacional e administrativo das empresas federais e estaduais, explicitando suas responsabilidades sociais, fazendo-as respeitar os direitos do consumidor e subordinando-as ao controle pela sociedade. Haverá obrigatoriedade de estabelecer nessas empresas contratos de
gestão que assegurem administração transparente, realizada por profissionais competentes, definindo papéis e fixando prazos e metas, especialmente no que concerne à implementação dos planos setoriais de investimento, isoladamente ou em parceria com a iniciativa privada.”
As notícias sobre as ferrenhas disputas políticas em torno de cargos de direção das estatais são mais do que uma evidência de que esse prin-cípio foi abandonado. Além disso, a penetração de critérios políticos no preenchimento de cargos nunca atingiu a profundidade que ocorre no atual governo. Nunca dantes tantos cargos de menor importância foram alvo de cobiça política.
A tabela abaixo resume as diferenças entre o modelo então vigente, as propostas do Instituto e as adotadas pelo atual governo.
Tabela 4.2. Diferenças básicas entre modelos.
Modelo Liberal Modelo Cidadania Modelo governo Lula
Natureza da
energia elétrica Mercantil Serviço público essencial
O modelo corrigiu os erros mais evidentes.
Entretanto, ainda é adepto da filosofia mercantil, já que admite a existência de um mercado totalmente livre que já atinge cerca de 30% do total da energia consumida.
Permanece a figura do produtor independente.
Desverticalização mas absorveu a idéia de
“transmissor puro” do o mercado atacadista do modelo liberal, mas com restrições às distribuidoras de aspectos comerciais nos critérios de operação.
Planejamento Indicativo Determinativo Determinativo, mas ainda dependente do mercado.
Licitação de
novas usinas Concessão onerosa
por leilão Leilão pela menor
tarifa Menor tarifa
Despacho Operativo das
Usinas Por oferta de preço Por custo Por custo, mas com grandes crises nos critérios
Um misto entre política energética e mercado.
Operação das definição clara e completa sobre o papel das térmicas.
Participação parceria com o setor privado. Licitação por blocos de energia.
Suspenderam-se as privatizações. Programa de parceria com o setor privado. Licitação por
Manteve-se a proibição de empréstimos às empresas para a exploração de energias alternativas para a exploração de energias alternativas e em leilões separados das novas.
Gestão das empresas
públicas Privatização Gestão profissional e transparência
Utilização política dos cargos de direção das empresa, sob o conceito de
“governabilidade”.
Para explicar a metamorfose das concepções que, a primeira vista, pareciam consenso, é essencial entender quais bases técnicas tinham parte das forças ali reunidas para rejeitar o modelo implan-tado. Basicamente, a visão do grupo técnico era apoiada na sua própria experiência metodológica. Como explanado no Capítulo II, o sistema brasileiro tem características realmente peculiares que produzem a capacidade de gerar, o que se chama aqui, “rendas oclusas”. Estas são diferenciais de preço que, se não forem alvo de uma política pública, serão apropriados indevidamente.
Inversamente à complexa adaptação utilizada na formulação mer-cantil, a visão técnica é relativamente simples e é alicerçada nos seguin-tes pontos:
Usinas hidroelétricas têm vida útil muito superior ao período I.
de concessão o traz diversas conseqüências para uma ótica em que sua energia possa ser tratada como uma “commodity”.
O sistema brasileiro, na sua base, é composto de usinas hidro-II.
elétricas com grandes reservatórios capazes de acumular água para mais de um ano de geração, o que transforma a sua opera-ção num problema de médio e longo prazo, incompatível, por-tanto, com a visão imediatista do mercado.
Essas usinas estão interligadas por uma extensa rede de trans-III.
missão que faz com que o sistema seja único. Isso possibilita o atendimento à carga a partir de várias opções de despacho.
Em função dessas características, as decisões de geração são tomadas por um operador que é obrigado a agir monopolisti-camente, sob pena de redução da capacidade de geração caso não o fizesse.
Qualquer modelo que queira implantar competição em sistemas IV.
desse tipo terá obrigatoriamente que desvincular o comércio e a produção de cada usina, sob pena de perda de sinergia.