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O CENTRO HISTÓRICO DE HOJE (1970 – 2006)

A PROPOSTA E A RELIDADE

O Projeto da Avenida Beira Mar tem por justificativa os seguintes pontos, a serem discutidos: a) Solucionar problemas de trânsito; b) Solucionar os problemas de integração entre os bairros da cidade e entre os Municípios vizinhos, c) Solucionar o problema de espaços públicos e d) Retomar a ‘relação com o mar’.

Com relação ao trânsito, temos o seguinte panorama: o sistema viário da área afetada pelo aterro, é composto principalmente pela Av. Presidente Kennedy e as ruas que fazem a sua continuação até a Ponta de Baixo. O fluxo maior de automóveis se dá no Distrito de Campinas, onde a Av. Presidente Kennedy faz o escoamento para as ruas secundárias e para a Av. Central do Kobrasol. O fluxo na Praia Comprida também é intenso, mas talvez mais por ser uma espécie de ‘corredor de ônibus’, o que torna o tráfego lento. No Centro Histórico este tráfego é incomparavelmente menor.

A falta de integração entre as cidades vizinhas é visível, mas advém da falta de um planejamento urbano que conte com a participação de todas, como já foi discutido anteriormente. Na pior das hipóteses, ainda temos a BR 101, que está duplicada neste trecho e possui vias de escoamento lateral, para a comunicação com Palhoça e Biguaçu. Com Florianópolis temos a BR 282, aí sim, mais problemática.

Entretanto, o projeto original propunha resolver estas duas questões através da execução de vias rápidas de circulação pelo aterro, com três pistas de rolamento cada uma. Em uma extremidade, terminaria na BR 282, já em Florianópolis, e na outra em um entroncamento na Ponta de Baixo, em São José. Neste ponto, o projeto foi bastante infeliz. Em primeiro lugar, pela falta de planejamento integrado. A Capital simplesmente rejeitou o Projeto e não se dispôs a realizar o trecho que passaria em seu território. Assim, uma das ligações estava comprometida. Em segundo lugar, a ligação com a Ponta de Baixo era uma proposta absurda: seis pista de rolamento desaguando em um entroncamento de vias simples. A outra ligação

(onde está aqui a integração com Palhoça?) também estava comprometida.

A problemática dos espaços públicos de uso coletivo em São José é antiga, mas talvez a solução mais adequada, para uma cidade com uma área urbana tão densamente povoada, seja a a implantação de Praças de bairro, com todos os equipamentos necessários para a sua vitalidade. A proposta da Beira Mar como parque, contém um espírito segregador do ponto de vista social, pois beneficia somente as populações mais próximas, que são as que possuem o maior poder aquisitivo.

Finalmente, o contato com o mar. Historicamente, a cidade de São José foi construída ‘de costas’ para o mar, pois até há menos de um século, a orla era considerada um espaço desprezível, deixada para os escravos e o lixo das casas. Isto fica bastante claro no Código de Posturas, instituído em 1868. Em um dos capítulos, denominado Asseio, o artigo 57 (p. 78), determina:

Os despejos de águas servidas, lixo ou quaesquer immundicias, e o das meterias fecaes, serão feitos no mar, e só de noite depois do toque de recolher. Os contraventores, sendo livres, incorrerão nas penas do artigo antecedente [4$000 réis] e sendo escravos, sofrerão trez dias de prisão, além do pagamento da metade da multa estabelecida no referido artigo. Somente em meados do século XX as praias seriam mais utilizadas pelas famílias, e em São José, principalmente próximas ao Centro Histórico onde havia a maioria das construções. E é justamente quando a relação homem-mar é ampliada que o crescimento da cidade passa a interferir.

Coincidentemente, o ato de maior negligência com o mar partiu da própria municipalidade, ao construir, na década de 70, o prédio da Prefeitura e do Ginásio de Esportes, de costas para o mar. Até hoje, os fundos destas construções são degradadas e perigosas. A municipalidade é reponsável ainda por permitir novas construções nas faixas lindeiras e não aplicar recursos em saneamento básico, propiciando a poluição do mar. Ou seja, ao contrário do que afirma o Estudo de Impacto Ambiental, em uma tentativa de culpar a população pela poluição da orla marítima, o Poder Público contribuiu tanto quanto qualquer um neste processo da

perda de contato com o mar. (SILVA, 2003) Mas que tipo de contato esta obra tenta resgatar? E para quem?

No ano de 2003 o projeto de urbanização apresentado pelo Município, concebido sem licitação ou Concurso Público, foi desenvolvido pela equipe da arquiteta Leonor Hatmann. De tão incoerente provocou reações contrárias, pois, além de não haver integração com a cidade, foi considerado, entre outras coisas, de custo extremamente elevado para a atual situação econômica. Na área histórica, a privatização e a elitização do espaço é clara, ao incentivar a especulação de hotéis e marinas de luxo (figura 10). Para Silva, “conclui-se que a pretensão do Poder Público Municipal é aterrar toda a orla marítima para que a iniciativa privada utilize aquele nobre espaço criado e passe a gerar recursos para a Prefeitura. “ (SILVA. 2003, p. 6)

Figura 10 – Planta de parte da proposta urbanística da arquiteta Leonor Hatmann para a Beira Mar. Marcado com um círculo, o término de seis pistas de rolamento em apena uma, na Ponta de Baixo.

Este tipo de intervenção, baseado em aterros sobre áreas de marinha não é novidade no planejamento urbano, mas quase sempre gera conseqüências indesejáveis e previsíveis, como a reserva de mercado do solo o que era para ser público torna-se privado. É a necessidade de concentrar sobre os espaços o maior número possível de atividades, visando obter a maior renda, tendência essa que gera alta especulação imobiliária nos centros, e levanta a questão da preservação do patrimônio, já que muitos prédios históricos deterioram-se onde há terrenos de alto valor a serem explorados.

Em São José isto é claramente visível. Após o aterro, muitos moradores tiveram suas propriedades compradas por construtoras, que exibem seus nomes em placas e tapumes, principalmente no bairro Praia Comprida. Outros privilegiados comerciantes já “tomaram” sua parte no aterro e fizeram o estacionamento de seus estabelecimentos à beira mar. O supermercado Bistek, por exemplo, além de gerar o fechamento de vários pequenos comércios locais, foi beneficiado com um estacionamento aberto na área pública (foto 48).

Foto 48 - Beira Mar na Praia Comprida. Destaque para o supermercado Bistek. 2006.