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A proposta inicial das escolas experimentais durante a administração do

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 147-152)

PARTE III: ANÍSIO TEIXEIRA EM AÇÃO

5 A experiência das escolas anisianas

5.1 A proposta inicial das escolas experimentais durante a administração do

Na passagem de Anísio Teixeira pelo Departamento de Educação do Distrito Federal (1932-1935), ele vinculou ao Instituto de Pesquisas Educacionais, confiado a Delgado de Carvalho, a incumbência de incrementar e complementar a preparação de professores junto às Escolas Experimentais (LIMA, 1978). Foram instituídas cinco Escolas Experimentais: Escola

Barbara Ottoni (voltada para o método de projetos115 e a escola comunidade), Escola Manoel

Bomfim (desenvolvia o Plano Dalton116), Escolas Argentina, México e Estados Unidos

(seguiam o Sistema Platoon). Com essas Escolas Laboratório, Anísio intencionalmente

conseguiu desenvolver – mesmo por um tempo curto – as experiências pedagógicas baseadas

no pragmatismo e na Escola117 de Dewey (CHAVES, 2001; XAVIER, 2007; PAULILO, 2007).

Tais escolas se constituíram como modelos que garantiriam parte da remodelação do ensino público a partir do padrão de formação docente cunhado num novo fazer pedagógico, com propostas renovadoras para o magistério, mais dedicação, promovendo a prática de novos conhecimentos, técnicas, hábitos e debates coletivos.

No ano de 1933, segundo o relato de Helena Moreira Guimarães118, diretora da Escola

Barbara Ottoni – primeira escola experimental –, na época, tudo começou “[...] sem instalações especiais, ou sequer adaptadas, dispondo de material o mais comum, inclusive o humano, que não havia sofrido nenhuma seleção, lançamo-nos na mais ousada aventura da nossa vida de magistério, apoiada por um grupo de professoras”. Percebe-se na fala da diretora um pouco da ideia do improviso e possíveis percalços no desenvolvimento da proposta do “método de projetos”, mas, mesmo sem instalações adequadas e posta à prova tal iniciativa, o grupo de docentes envolvidos no trabalho tido como inovador sentia-se com distinção profissional

115 Método de Projeto: no seu sentido didático é uma atividade intencional e bem motivada possuindo um alto valor pedagógico, que consiste em fazer algo dentro do seu ambiente natural, onde a criança tenha intenção de realizar algo porque assim a sua atividade será muito mais proveitosa, o seu interesse será muito maior, sendo que a vontade de apresentar concretamente o fruto do seu trabalho será uma excelente motivação. Todo o projeto realizado segue determinados passos, por exemplo: 1º desígnio, 2º apreciação, 3º execução, 4º julgamento.

Apostila de Metodologia. Rio de Janeiro: INEP, 1956 (documento mimeografado).

116 Segundo o Plano Dalton, cada aluno poderia preparar o seu plano de estudos, de forma a atender às suas necessidades, especificidades, interesses, particularidades e capacidades, a fim de promover autonomia, autoconfiança e o autogoverno. Esse conjunto de atitudes e hábitos estava voltado para melhorar as competências sociais dos alunos, visando o autocontrole e o sentido de responsabilidade para com os outros.

117 Inaugurada em 1896, em Chicago, para testar as próprias ideias educacionais do filósofo americano, mais tarde denominada de Laboratory School of the University of Chicago (CHAVES, 2001, p. 108).

118 Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 22, n. 55, julho/setembro de 1954. Ideias e debates. “A primeira Escola Experimental Bárbara Ottoni”. Helena Moreira Guimarães, p. 43.

naquele movimento de mudança que entrava nos muros escolares.

Ainda, de acordo com o relato da diretora, não foi aplicado nenhum teste de inteligência, não foram feitas tentativas de homogeneização para a formação de turmas e, apesar disso, o critério para agrupamento utilizado foi a adequação idade/série. Contudo, aparece como destaque a frequência constante dos alunos. Os estudantes estavam distribuídos em cinco turmas: duas de 1º ano, duas de 2º ano e uma de 3º ano, com no máximo 30 alunos. Porém, o número teve que ser aumentado nos anos seguintes, uma vez que os grupos de 4º e 5º anos eram formados de antigos alunos das classes anteriores de 3º ano, juntamente com alunos de outras escolas. Assim, em 1935 havia uma considerável renovação dos grupos de 3º, 4º e 5º anos, como destacamos no quadro da Escola Bárbara Ottoni:

Turmas N.º de Alunos 1º ano 33 2º ano 34 3º ano 36 4º ano 40 5º ano 36

Ilustração 15: Quadro da Escola Experimental Bárbara Ottoni/RJ (1935) Fonte: Adaptado da RBEP (1954).

Inicialmente, para aplicar o método de projetos, a escola dispunha das crianças, da boa vontade e dedicação das professoras. Todos os desejos de trabalho das crianças estavam voltados para as atividades manuais: “[...] nos primeiros tempos de sua vida, nem mesmo

sofriam grande influência do meio. E então surgiram os primeiros projetos: fazer uma horta,

construir uma casa, fazer uma mobília, fazer brinquedos”.119 Ao experimentar de verdade, alunos e professoras sentiram as dificuldades, os alunos nem sempre tinham iniciativa, organização ou mostravam entusiasmo. As professoras, por sua vez, ficavam tentadas a intervir e dirigir o trabalho, impacientes pelo resultado. Com o desenvolvimento de cada projeto, novas aspirações e possibilidades de execução surgiram, esclarecimentos vieram à tona no decorrer

119 Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 22, n. 55, julho/setembro de 1954. Ideias e debates. “A primeira Escola Experimental Bárbara Ottoni”. Helena Moreira Guimarães, p. 44.

do trabalho, “[...] uma coisa, porém, deve ficar clara: não estávamos desatentas à atividade das crianças, não as abandonávamos aos seus caprichos, permitindo-lhes cometer erros

evidentemente inúteis”.120

Verifica-se que era preciso que os alunos organizassem um plano de trabalho, com objetivos claros e uma meta final, mesmo que realizassem um projeto principal e outros secundários. Desse modo, as crianças saberiam, de forma coletiva e cooperativa, para que fim trabalhavam, quais suas ações e sua existência dentro do grupo; enfim, teriam um significado concreto e ativo no processo de aprender.

Crianças que, a princípio, se mantinham indiferentes, apenas seguindo a opinião das outras, passam a tomar parte ativa não só nessa escolha, como mesmo nas decisões do grupo, opondo, não raro, sua opinião à que apresentávamos como a melhor. Isto que, a muitos, poderia parecer ousadia ou excesso de liberdade, nos era grato porque trazia ótimas oportunidades educativas.121

Todas tinham uma indagação: como cumprir os programas oficialmente elaborados? Amparadas numa atitude experimental, se despreocuparam com os programas oficiais, aceitando a indicação das atividades do interesse das crianças, mas, por uma necessidade que chamaram de real, adotaram um “programa provável”.

De acordo, então, com o projeto escolhido, pela turma, registrou a série de problemas de cuja solução provavelmente dependeria sua completa realização e a série de atividades que também provavelmente teriam de decorrer dessa solução. Era, portanto, um plano provável, provisório, flexível, modificado de acôrdo com as necessidades. E, assim, nem teríamos o programa rígido, organizado para a criança cumprir, nem haveria ausência absoluta de diretrizes para o professor.122

Se o programa tinha certa flexibilidade, o currículo também nos pareceu promover inovações nesse sentido, daí as matérias como música, educação física, recreação e jogos, artes e desenho estarem imbricadas na reformulação dos métodos de ensino, integradas para

120 Ibid., p. 45.

121 Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 22, n. 55, julho/setembro de 1954. Ideias e debates. “A primeira Escola Experimental Bárbara Ottoni”. Helena Moreira Guimarães, p. 45.

122 Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 22, n. 55, julho/setembro de 1954. Ideias e debates. “A primeira Escola Experimental Bárbara Ottoni”. Helena Moreira Guimarães, p. 49.

desenvolver as sensibilidades e o cuidado com o corpo.

E tanto isso é verdade que, na nossa escola, onde os projetos constituíam a unidade típica da aprendizagem, as três professôras especiais que tínhamos sentiam, para poderem trabalhar eficientemente, que se deviam guiar pelo interêsse dos grupos e satisfazer as suas solicitações.

Assim deveria fazer a professôra de música, assim procurou fazer dentro do possível, D. Dora Azevedo, nas suas aulas de recreação e desse môdo sempre procedeu D. Maria Mesquita que, numa feliz compreensão do problema, procurou desdobrar sua atividade atendendo não só à Superintendência de Desenho e Artes Aplicadas, como às necessidades vitais das turmas, orientando-as e auxiliando-as, nas suas aspirações.123

Observa-se que a Escola Experimental, ao desenvolver o método de projetos, potencializou as habilidades ditas manuais e voltadas para o ato de fazer, inventar e experimentar, o que nos dá sinais de uma educação voltada para as diferentes formas de expressividade do corpo. De igual modo, o exercício da disciplina e o desenvolvimento do autocontrole por parte dos alunos mostraram-se peças fundamentais na proposta experimental e reforçam esses sinais. A educação do corpo no projeto anisiano aparecia como um importante mecanismo no projeto civilizador em voga e a escola era vista como um recurso civilizatório, ela reproduzia e catalisava as regras do jogo social. Nessa direção, Elias (1993, p. 202) esclarece que o autocontrole seria como uma estação de retransmissão de padrões sociais,

Em parte automaticamente, e até certo ponto através da conduta e dos hábitos, os adultos induzem modelos de comportamento correspondentes nas crianças. Desde o começo da mocidade, o indivíduo é treinado no autocontrole e no espírito de previsão dos resultados de seus atos, de que precisará para desempenhar funções adultas.

Assim, a escola deveria formar hábitos gerais de entrosamento do aluno com a sua comunidade ou grupo: hábitos de asseio, de convívio social – pontualidade, honestidade, cooperação, tolerância, de ordem, de condutas de ajustamento ao ambiente escolar – disciplina, respeito às convenções da classe, ao regimento da instituição, entre outras.

Em confronto com as matérias e programas oficiais, a Escola Experimental mantinha-se na média em relação às outras escolas. Segundo o relato, com pequenas deficiências, mas,

123 Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 22, n. 55, julho/setembro de 1954. Ideias e debates. “A primeira Escola Experimental Bárbara Ottoni”. Helena Moreira Guimarães, p. 50.

de um modo geral, superadas. Além disso, os testes fornecidos pela Secretaria de Educação do Distrito Federal e realizados na escola Barbara Ottoni, mostravam percentagens satisfatórias. A direção procurava estabelecer elementos de comparação com os resultados obtidos pela Escola Experimental Manoel Bonfim, que aplicava o Plano Dalton.

Na fase de implantação inicial das Escolas Experimentais, na década de 1930, cabe esclarecer que a proposta desenvolvida na escola Manoel Bonfim era de que o aluno tivesse toda independência em relação ao seu trabalho, de maneira que cada passo fosse realizado em uma autoinstrução. Havia uma grande liberdade na escolha do material e na ordem das tarefas a serem executadas, o próprio local de trabalho poderia ser escolhido pelos alunos e não haveria horário fixo em que eles não pudessem realizar seus afazeres. As salas de classe eram transformadas em salas de trabalho onde os alunos podiam colocar-se em intensa atividade instrutiva, receberiam os planos de trabalho que seriam executados mensalmente e serviria para fazer as investigações. Para aqueles alunos que não estivessem habituados a esse sistema de trabalho, a tarefa somente aconteceria por uma semana ao invés de um mês. “O ambiente destinado ao estudo de qualquer matéria precisa estar preparado para que o aluno encontre com a maior facilidade aquilo que foi ilustrativo. Se tiver que estudar História Natural deverá

encontrar todo o material que se relaciona com o assunto, afim da objetivação ser direta”.124

Depois de pouco mais de quatro anos de trabalho na Escola Experimental Barbara Ottoni, a avaliação feita pelas professoras foi que tiveram pouco tempo para conclusões definitivas, porém julgaram ideal, natural, racional e humano o método adotado na escola. Para uma aplicação ampla do método de projetos, seriam necessárias: instalações maiores; espaço adequado para atender às atividades infantis; dependência do mestre e da escola, uma vez que, quanto mais fossem mediadores e servissem de exemplos, mais se tornariam indispensáveis no processo; classes pequenas, pois grupos numerosos dificultavam o trabalho do professor.

A experiência com as Escolas Laboratório constituía mais um desdobramento que o projeto anisiano perseguia no intuito de remodelar e reorganizar a escola em todo o seu conjunto para que se tornasse um instrumento de reorganização da sociedade. Assim, seria possível proporcionar uma educação universal, não somente voltada para as camadas pobres e desfavorecidas. As regras deveriam ser construídas coletivamente de forma democrática, com respeito e dignidade com as classes populares, mas, sempre haveria limites nessa socialização. O mundo não era belo, havia conflitos, disputas. Nessa esteira, o projeto anisiano não estava

em um lugar remoto e imaculado; pelo contrário, estava no “olho do furacão”, encontrava resistência, julgamentos e condenações em várias frentes na sociedade que iam desde políticos e educadores que se opunham ao seu trabalho e ideias, imprensa, governo, igreja, entidades civis, até diretores, professores e pais insatisfeitos com as novas propostas. Era um novo modelo de educação, que tinha inspiração no modelo padrão americano, que vislumbrava o futuro, mas que esbarrava no passado colonial luso-brasileiro que, no fundo, almejava ser europeu.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 147-152)