2. As paixões e a natureza da moralidade
2.1 Fatores indispensáveis
2.1.5 A propriedade e o poder
A propriedade é a relação que mais estreitamente se liga ao orgulho e à humildade, pois pode ser vista como uma espécie de causação: o proprietário tem o poder de agir sobre o objeto, conforme a sua vontade e o prazer que tira do seu usufruto. As ideias do proprietário e da propriedade relacionam-se de tal forma que quando concebemos uma, concebemos a outra. Uma transição de ideias, ligada a uma transição de impressões, produz uma transição entre paixões. Por isso, quando um prazer ou mal-estar advém de um objeto ligado ao eu pela propriedade, essa relação entre ideias produzirá essas paixões. A fonte do orgulho, com origem na propriedade, reside nas qualidades dos objetos, como a beleza, a utilidade, ou a novidade.
No livro I foi esclarecido que a distinção entre o poder e o seu exercício é vã. O poder existe quando é exercido, não enquanto permanece na sua possibilidade. Mas as paixões advêm
81 do poder neste sentido, que é aquele em que pensamos o poder. Ficamos satisfeitos pela simples possibilidade de ter um prazer, e insatisfeitos quando esta não existe ou quando um mal é possível. Referimo-nos ao poder como algo ligado ao seu exercício provável ou possível, e não necessariamente efetivo. Consideramos que alguém tem um poder quando, pela experiência repetida, inferimos a probabilidade de ele ser exercido, que provoca em nós uma paixão. O poder é, assim, a possibilidade de agir. Mas a probabilidade e a possibilidade traduzem-se na incerteza, que nos provoca paixões agradáveis, mas também desagradáveis, consoante o que estiver em risco. O mesmo acontece quando a possibilidade de obter um prazer não reside numa ação, mas em condicionantes físicas e incontroláveis, circunstância que pode traduzir-se na diminuição da probabilidade de o nosso prazer se tornar real. A nossa satisfação aumenta consoante um bem, que podemos agarrar sem condicionantes, se aproxima, caso em que a imaginação antecipa o prazer que resulta da obtenção do objeto em causa, dando a mesma alegria ao espírito que ele sentiria se o bem já fosse certo. A imaginação concebe esse bem com cores tão vivas que a sua probabilidade parece maior do que a que realmente possui, chegando ao ponto de encarar o prazer como inevitável. Mesmo essa antecipação proporciona-nos prazer. A riqueza e o poder produzem orgulho e a pobreza e a escravidão, humildade, porque, no primeiro caso, obtém-se o poder de adquirir propriedade e prazer, no segundo, torna-nos dependentes de um poder que não é o nosso, o que aumenta o risco de mal-estar263. Sendo agradável devido ao poder que representa, a propriedade é uma qualidade que apreciamos nos outros.
Da mesma forma que a propriedade causa orgulho por nos proporcionar o poder, quem possui riqueza e poder é alvo do nosso amor/ódio. A estima que temos pelos ricos e poderosos advém da simpatia264. A propriedade e o poder são qualidades que, transferidas para nós, proporcionam orgulho.
Hume esclarece que, das três causas possíveis da estima/desprezo relativamente a quem tem poder e riqueza, a última é a que prevalece e provoca estas paixões mais universalmente: i) os objetos que essas pessoas possuem são, em si mesmos, agradáveis e despertam sensações de prazer ou mal-estar em quem os observa (eles são belos); ii) uma expectativa de obter vantagens dessa riqueza e poder, por meio de uma relação que podemos ter com a pessoa rica e poderosa; iii) a simpatia, que nos permite participar da sua satisfação no usufruto desses objetos265. O que é agradável aos sentidos, é-o igualmente para a imaginação, apresentando-se-lhe a imagem da satisfação que o espírito pode obter, no contacto com os órgãos do corpo. Mas o facto de a
263 T, II, i, 10.
264 Consultar o conceito no ponto 2.3.1. 265 T, II, ii, 5, p. 418.
82 imaginação estar desta forma, na produção das paixões, conexa aos sentidos, não é a causa destas paixões.
Uma vez que as ideias de prazer/mal-estar só podem exercer influência pela sua força e vivacidade, naturalmente, as ideias que têm esta influência serão as que são favorecidas pelo maior número de circunstâncias e têm uma natural tendência para se tornarem vivas e fortes: é o caso das ideias das paixões e dos outros homens. Assemelhando-se mais a nós próprios do que qualquer outro ser, estes têm vantagem sobre todos os outros objetos, para este efeito. Mesmo que os objetos que pertencem aos outros, enquanto tais, sejam agradáveis e as suas ideias sejam avivadas na imaginação, esta não se limita a esses objetos, mas estende-se aos que se relacionam com ele e, particularmente, ao seu proprietário. O mais natural é que os objetos despertem uma paixão pela pessoa que os possui e, portanto, que ela entre na paixão que sentimos, pois esta é sentida relativamente a essa pessoa, enquanto alguém que pode ter uma sensação de prazer despertada por esse objeto. Além disso, o poder e a riqueza em si mesmos produzem, naturalmente, estima, por isso, a estima que temos aos ricos não advém da beleza dos objetos que possui. E como pensamos no poder sem pensar, necessariamente, no seu exercício, não precisamos de pensar nos objetos que possui ou pode possuir para que essas paixões se despertem. O dinheiro representa todos os objetos que a pessoa pode adquirir, que são distantes, mas a riqueza, enquanto poder, é próximo, porque efetiva (os objetos podem ser adquiridos, mas não têm de o ser, e quando o são, despertam mais imediatamente a estima).
O facto de representar esses objetos faz do poder um objeto adequado às nossas paixões, pois já transmite as ideias agradáveis da posse de um qualquer objeto, e do poder em si mesmo. A riqueza representa os bens que podem ser adquiridos mediante a vontade e, por isso, remetem necessariamente para a pessoa que as tem. E não podemos considerar esta relação entre a vontade e a sua ação sem a simpatia. Na ilusão, da imaginação, de que os objetos se encontram mais próximos da existência, e de nós, do que na realidade estão (própria da noção de poder como algo separado do seu exercício), esses objetos e o poder satisfazem-nos quase tanto como se fossemos nós os seus possuidores.
Deste modo, a primeira razão converte-se na terceira, pois que o prazer que sentimos ao observar o objeto e o seu possuidor é resultado do mecanismo da simpatia. Por outro lado, apesar de o proprietário nos poder prestar um serviço ou beneficiar (caso em que teríamos acesso aos objetos possuídos e sentiríamos o prazer que eles podem despertar), este poder não está no mesmo pé de igualdade que o poder que essa pessoa tem para usufruir dos bens. Mas a possibilidade de obtermos os benefícios dessa riqueza depende de uma relação entre nós e o proprietário e da sua boa vontade. Mas mesmo antes de termos alguma relação com eles, ou de descobrirmos a sua boa vontade, temos por eles uma estima que é desinteressada, independente
83 da nossa posição em relação àquele objeto (uma pessoa que possui riqueza). Categorizamos todas as pessoas (conhecidas ou estranhas) pela sua riqueza, por meio de regras gerais. Mas não é por elas que estimamos os ricos e poderosos: seria preciso uma experiência uniforme e numerosa e uma superioridade dos casos que são conformes à regra em relação aos que não se conformam a ela, para que pudéssemos estendê-la para além da experiência. Há pessoas que não conhecem sequer uma pessoa rica e sentem essa satisfação. Por isso, o hábito não intervém na produção destas paixões.
Hume conclui que a simpatia é a responsável pela estima aos ricos e poderosos. A riqueza proporciona satisfação ao seu proprietário, que passa para o observador pela produção, na sua imaginação, de uma ideia semelhante, em força e vivacidade, à impressão original do proprietário. A ideia ou impressão que o observador forma, na sua imaginação, está ligada à paixão agradável do amor. Esta paixão provém do seu próprio objeto: o proprietário. Ele é alvo de amor da nossa parte em razão do poder e riqueza que detém.
O homem deseja, naturalmente, companhia, e todos os desejos que desenvolve se dão num mundo onde ele convive com outros, e todos os seus prazeres são inflacionados pelo facto de serem partilhados. Todas as paixões que temos são animadas pela simpatia, pois a expectativa da opinião dos outros, ou o desejo de conformidade com eles, é algo sempre presente no nosso espírito quando temos uma paixão. Assim, o prazer do proprietário, projetado para o espectador, provoca o prazer e a estima. Por sua vez, quando o proprietário deteta esses sentimentos (igualmente por simpatia), secundariamente ou por uma segunda reflexão, sente orgulho, o que também pode, finalmente, ser apreendido pelo espectador e tornar ainda maior a sua estima (pelo facto de aquela pessoa sentir orgulho, que é uma paixão agradável, devido à opinião que os outros têm dela). Hume admite que este orgulho secundário é o principal aspeto que nos atrai na riqueza, ou seja, a explicação para nós próprios a termos, e para a estimarmos nos outros266.