Capítulo 1 – Espaços de poder
1.3. A propriedade da terra
1.3.1. A propriedade original
O bairro Guerra Junqueiro surge numa das etapas marcantes da expansão da cidade do Porto. A urbanização, a indústria e os serviços eram uma realidade distante, já que no início do século XX as áreas interiores das freguesias de Massarelos e de Lordelo do Ouro eram marcadas fundamentalmente por terrenos agrícolas, ligados à principal atividade económica da população, a agricultura. A proximidade do rio Douro possibilitava ainda a pesca como atividade complementar. Como se referiu é, nesta parte da cidade que se situam algumas das quintas das principais famílias burguesas portuenses do início do século XX.
Podemos reconhecer um cenário idílico, propiciado pela abundância de campos verdes e pela ausência da agitação do centro da cidade, mas que também é marcado pelos hábitos de famílias com considerável capacidade financeira e que moldam este espaço através de propriedades, com as suas casas apalaçadas, com os grandes jardins, e eram também o sustento de um número considerável de pessoas e famílias que asseguravam os serviços domésticos e as atividades agropecuárias dos campos anexos. Pode-se afirmar que para além de influenciarem o espaço, marcam ainda a estrutura social da população local.
A família Ribas
Como está expresso na documentação camarária relativa aos projetos para a construção no espaço em análise, uma grande parcela de terrenos onde o bairro Guerra Junqueiro se fixa pertence a propriedades da família Bessa Ribas, que aqui detinha a propriedade denominada Quinta do Bessa. Mas quem eram os Bessa Ribas?
A família Bessa Ribas encontra as suas raízes em Manuel Gonçalves Bessa, que vivia em Lordelo do Ouro na primeira metade do século XVIII, sendo o dono original de uma grande propriedade na área da Boavista que foi crescendo com as gerações seguintes68. No entanto, António de Bessa Leite é o membro da família mais conhecido e
68 MACHADO, João Afonso – António de Bessa Ribas – O capitalista e o benemérito portuense. O Tripeiro. Série Nova. Ano VI, número 6, 1987, págs. 174-178.
que marcou não só o local de fundação do bairro Guerra Junqueiro como toda a cidade do Porto.
O industrial António de Bessa Leite (1826-1905) herda a tradição familiar da indústria dos curtumes, que tem origem na Fábrica de Curtumes do Bessa com início da atividade entre 1807 e 1815, surgindo de uma sociedade no Campo Alegre formada pela família Clamouse Browne e Francisco Ferreira Bessa. Esta antiga fábrica não se mantém em atividade durante muitos anos já que em 1852, António de Bessa Leite edifica nos terrenos dos Bessa, a nova Fábrica de Curtumes, em sociedade com o seu irmão Henrique. Esta propriedade é, nesta altura, um terreno de grandes dimensões, que corresponde aos espaços ocupados hoje pelo Estádio do Bessa, a Rotunda da Boavista e a Rua do Campo Alegre em toda a sua extensão, o que inclui claramente o espaço onde se construirá o bairro Guerra Junqueiro69.
António de Bessa Leite, homem pautado pelos valores do trabalho, pela justiça e pelos atos de solidariedade e filantropia e que aumentou a fortuna da família, morre em 1905 sem geração70. A sua riqueza é distribuída pelas muitas instituições portuenses das
quais era benemérito, como por exemplo a Santa Casa da Misericórdia. No entanto, a Quinta do Bessa e a Fábrica de Curtumes, já com o nome de António Bessa Leite & C.ª, fica entregue à família: o sobrinho António de Bessa Ribas, filho da sua irmã Carolina Augusta de Bessa Leite e do músico Nicolau Medina Ribas herda todos os prédios das freguesias de Massarelos, Lordelo do Ouro e Aldoar e ainda passa a deter um quarto da fábrica do seu tio, estando para ele reservado o lugar de sócio-gerente, com a imposição de manter e zelar pela fábrica assim como pela casa na avenida da Boavista e todos os que lá serviam71. O restante capital industrial é legado às irmãs de António de Bessa
Ribas, metade para Laura Albertina Bessa Soares Cardoso e um quarto a Elisa Adelaide de Bessa Cardoso Lima72.
69 Idem, ibidem.
70 Idem, ibidem, pág. 176.
71 RIOS, Alice – Famílias tradicionais do Porto. Porto: Uniarte, 2008, pág. 40.
72 MACHADO, João Afonso – António de Bessa Ribas – O capitalista e o benemérito portuense. O Tripeiro. Série Nova. Ano VI, número 6, 1987, págs. 174-178.
António de Bessa Ribas casou com Helena Souza Dias com quem teve quatro filhos, António, Helena, Carolina e Manuel73. São os filhos Helena Dias de Bessa Ribas
e Manuel Dias de Bessa Ribas que são mencionados no projeto da Câmara Municipal como detentores dos terrenos cedidos para a abertura das ruas interiores do bairro Guerra Junqueiro, ruas de Soares de Passos, de Guilherme Braga e de António Nobre.
Da vida de Helena Dias de Bessa Ribas sabe-se que casou com Alberto Figueiredo que foi cônsul na Bélgica no Porto. Já Manuel juntou-se ao irmão António na gestão da Fábrica Portuense de Curtumes em finais da década de 30, partilhada ainda com Manuel Alves Monteiro, conseguindo retirar esta fábrica dos problemas financeiros em que se encontrava. Estas duas famílias unem-se por casamento, passando posteriormente a Fábrica a designar-se por Monteiro, Ribas – Indústrias, S.A.74
Pode-se então concluir que a família Bessa Leite, e posteriormente Bessa Ribas, prosperou na emergência do Porto industrial, sendo detentora de grande fortuna, a qual foram capazes de manter e até aumentar pela sua capacidade na gestão das atividades ligadas à indústria, conservando o seu nome ligado a este ramo até aos dias de hoje. A família Vilar
Ao contrário do que se verificou com a família Bessa Ribas, nenhuma informação foi possível recolher sobre a família Vilar, à exceção de curtas informações relativas ao testamento de António Francisco Vilar, proprietário75. Neste testamento é nomeada
testamenteira Maria Amélia da Silva Ribeiro Vilar, a proprietária referida na documentação relativa ao projeto da construção do bairro Guerra Junqueiro, em que se refere a cedência de propriedade para a abertura das ruas de António Nobre e de Guilherme Braga. Foram feitas pesquisas tanto no Arquivo Histórico Municipal do Porto como no Arquivo Distrital do Porto: em nenhum deles se encontraram os nomes de António Francisco Vilar e de sua mulher Maria Amélia da Silva Ribeiro Vilar, com exceção do já referido testamento.
73 RIOS, Alice – Famílias tradicionais do Porto. Porto: Uniarte, 2008, pág. 40. 74Idem, ibidem, pág. 41.
75 A.H.M.P - Câmara Municipal do Porto. Série – Registo de testamentos da Administração do Bairro Ocidental. Registo do testamento com que faleceu António Francisco Vilar, proprietário. Documento/Processo, 1917/03/19 – 1917/03/19, págs. 87-89. A-PUB/5400 – f. 86-89v.
Neste documento menciona-se a data de morte de António Francisco Vilar, que ocorreu a quinze de Março de 1917, não deixando qualquer herdeiro, pelo que a totalidade dos seus bens é deixada a sua mulher. No entanto, não são mencionados os bens, e consequentemente não se obtém informação sobre a propriedade que detinham no bairro Guerra Junqueiro. António Francisco Vilar era negociante e proprietário e tinha a sua morada no Beco de Serralves, no Porto, o que sugere uma proximidade relativa da propriedade original que detinham no bairro Guerra Junqueiro.
Assim, apesar de o terreno cedido pela proprietária Maria Amélia da Silva Ribeiro Vilar ser relativamente pequeno em relação à propriedade que os Bessa Ribas cedem à Câmara Municipal do Porto para a abertura do bairro Guerra Junqueiro, este foi importante para o conjunto do bairro. No entanto, não foi possível recolher informação sobre os seus proprietários, o que limita um pouco a caracterização da propriedade original.