IV. O DIREITO BRASILEIRO FRENTE AO TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO
IV.1. A LIBERDADE DE TRABALHO COMO DIREITO FUNDAMENTAL ASSEGURADO
IV.1.2. A propriedade privada como direito constitucional limitado
As limitações ao direito de propriedade, sob o amparo da CR/88, são mais numerosas do que em cartas constitucionais passadas.
A par dos limites tradicionais, a atual Constituição traçou outras balizas, ajustando o princípio do respeito à propriedade privada às exigências da evolução da sociedade e do pensamento jus-filosófico (BITTAR, 2003, p. 157). Convivem nesse contexto, por exemplo, as regras limitadoras referentes à política urbana (art. 182); a desapropriação para fins de
144
Conferir o art. 182, caput e seus §§ da CR/88. O Estatuto da Cidade regulamentou os arts. 182 e 183 do texto constitucional e estabeleceu as diretrizes gerais da política urbana.
145
Destacam-se: a Lei n° 8.629/93 que regulamentou os dispositivos referentes à reforma agrária, a Lei Complementar n° 76/93 que dispôs sobre o procedimento do contraditório especial no processo de desapropriação de imóvel rural para fins de reforma agrária e a Lei Complementar n° 88/96 que alterou em partes a lei complementar anterior.
reforma agrária (art. 184); as limitações em defesa da cultura e do patrimônio nacional (art. 216 e parágrafos), entre outras.
O fundamento das limitações encontra-se na conciliação do exercício do direito de propriedade com interesses maiores da sociedade, permitindo o melhor aproveitamento do bem e evitando seu mau uso pelo particular, dissociado da função social que a propriedade deverá cumprir, conforme previsão constitucional no art. 5°, XXIII.
Tais restrições146 não visam à negação do direito de propriedade e nem poderiam, pois o mesmo é protegido constitucionalmente como garantia fundamental do ser humano. Elas funcionam tão somente como balizas institucionais ao exercício desse direito (BITTAR, 2003, p. 155), que deve se orientar de acordo com as necessidades da coletividade.
É necessário ressaltar, entretanto, que a existência de preceitos autorizadores da intervenção do Estado na propriedade privada, não subtrai a natureza excepcional e limitada das hipóteses previstas na Constituição ou em leis infraconstitucionais. Longe de assegurar arbítrio à Administração Pública, é dado a ela um poder-dever que somente poderá ser utilizado quando for necessário e autorizado por lei.
No caso da desapropriação, com mais razão deve-se atentar para os contornos legais. Não se trata de uma mera interferência estatal na esfera particular, mas de verdadeiro ônus que transfere, em caráter originário, o bem para o Poder Público. Ainda que haja o pagamento da justa indenização, é inegável o sacrifício de um direito fundamental do desapropriado.
Manoel de Oliveira Franco Sobrinho (1996) sintetiza bem quando são legítimas as intervenções do Estado no âmbito privado:
A imperatividade da motivação ou a coercitividade do interesse público, influindo na formação de relações jurídicas, recomendam, nas diferentes circunstâncias causais, que os motivos (motivação) estejam acima das conveniências particulares e, na esfera da norma, além da conveniência e da oportunidade administrativas. A conveniência ou a oportunidade, tão mencionadas na doutrina, claro que nas desapropriações não resultam de circunstâncias aleatórias, não dando aos expropriantes prerrogativas exorbitantes, pois como preceitos ambivalentes não justificam decisões à margem da norma fundamental e da lei aplicável (FRANCO SOBRINHO, 1996, p. 09).
Apenas com base em dados legais definidos em concreto que se pode entender o contexto das limitações do direito de propriedade, que segundo Carlos Alberto Bittar (2003, p.
146
Embora autores como José Afonso da Silva (2009, p. 279) e Lúcia Valle Figueiredo (2004, p. 301) diferenciem as limitações ao direito de propriedade das restrições, tendo em vista o caráter mais amplo daquela, optou-se no presente trabalho tratar ambas as expressões de maneira indiferenciada, seguindo as lições de Orlando Gomes (2004, p. 145) e Celso Antônio Bandeira de Mello (2010).
156) divide-se em dois grupos: as limitações de caráter público, ditadas pela supremacia do interesse coletivo sobre o particular, como é o caso da desapropriação; e as limitações de cunho privado, que visam à normalidade do exercício dos direitos subjetivos, com destaque os direitos de vizinhança.
A presente dissertação tem como enfoque apenas as limitações ditas de caráter público, em especial a desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária (art. 184 da CR/88) sempre que ficar demonstrado o conflito entre a forma de utilização do imóvel rural e os requisitos fixados na Constituição para o adequado aproveitamento da propriedade.
Em matéria de exploração de mão-de-obra escrava no campo, a desapropriação desperta evidente interesse, ao ser indicada por alguns autores como importante instrumento de combate a tal prática no Brasil. Além de sancionar o dono da terra, com a perda de sua propriedade, o Estado realiza o ideal de justiça ao distribuí-la a quem possa produzir em benefício de sua família e de toda a coletividade.
Essa modalidade sancionatória pelo descumprimento da função social da propriedade rural, inclusive, consta dentre as ações específicas de repressão econômica no 2° Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (2008) e, como prioridade geral, no III Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3)147.
Todavia, é indispensável um exame mais cuidadoso da questão.
De fato, são relevantes os objetivos a serem alcançados com a intervenção estatal na propriedade privada sob o fundamento do “interesse social”. Mas, cabe indagar até que ponto as desapropriações para reforma agrária estão sendo realizadas e se contribuem efetivamente para o enfrentamento do sistema de endividamento ilegal que, todos os dias, vitimiza trabalhadores rurais de diferentes regiões do país.
Em várias reportagens sobre o novo Plano Nacional de Direitos Humanos, o jornal Le Monde Diplomatique Brasil (2010) antecipa a análise que será realizada nos itens a seguir. Ao intitular uma das chamadas com a frase: “O campo não é prioridade” 148, o jornal critica a vinculação do governo aos interesses do agronegócio, principal responsável pelo desrespeito dos direitos humanos dos pequenos e médios agricultores, comunidades locais e povos tradicionais.
147
O 2° Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo pode ser acessado através do endereço eletrônico: <http://www.reporterbrasil.org.br/documentos/novoplanonacional.pdf>. Acesso 23.04.2011. O PNDH-3, instituído pelo Decreto Presidencial n° 7.037/2009, encontra-se disponível em: <http://portal.mj.gov. br/sedh/pndh3/pndh3.pdf>. Acesso em: 23.04.2011.
148
Reportagem realizada por José Batista Gonçalves Afonso e Airton dos Reis Pereira para a edição de fevereiro/2010.
Quando se estuda o problema trabalho escravo contemporâneo, um dos principais aspectos que chama a atenção do pesquisador é a ausência de punições efetivas pela realização da conduta típica prevista no art. 149 do Código Penal. A gravidade da exploração criminosa da mão-de-obra humana, não demandaria, então, sanções mais severas para a sua completa erradicação?
IV.1.3. A DESAPROPRIAÇÃO COMO MEIO DE INTERVENÇÃO NA PROPRIEDADE