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CAPÍTULO III O GRANDE FINAL IMPACTO DO SOM DA RUA: OS RESULTADOS

1. A prosa da falta de afeto sob o calor do canto

A Anabela tem 51 anos e é solteira. Conseguiu completar o 12º ano após mudar a sua vida e iniciar uma nova jornada. Está desempregada no momento atual, mas não desiste de procurar o trabalho que será o idealizado para si – a escrita.

Após a perda precoce da mãe e o falecimento marcante do pai, a vida da Anabela colocou desafios que pareciam insuperáveis. As constantes fugas do colégio onde cedo foi colocada pelo pai, fizeram com que a rua fosse um local de abrigo. Engravidou, mas não amou o companheiro. Ele forneceu-lhe a casa e este foi um sacrifício que viu como necessário para assegurar condições aos filhos. Sofreu nas mãos do cunhado, irmãs e do próprio filho, mas reergueu-se com vontade de viver e de cantar.

Anabela escreveu um livro em 2008. Este ano, 2016, irá lançar o segundo. É um testemunho em prosa.

Triste. Esta é a palavra que Anabela escolheu para descrever esta fase da sua vida. Perdeu a mãe com 5 anos e o pai colocou-a no Colégio de Nossa Senhora das Candeias. Anteriormente, tinha frequentado a Escola Primária de São Bernardo e o D. Afonso de Aveiro, na cidade de Aveiro. A relação com os familiares foi quase nula. Tinha irmãs e irmãos, mas a entrada no colégio desligou essa relação familiar.

Frequentou a escola e gostava de estudar e do convívio com outras crianças. Porém, há umas décadas atrás, o colégio não era o que é nos dias de hoje. Faltava-lhe o afeto, o carinho. Faltava-lhe a família. Aquando da entrada no colégio, as visitas do pai e de um irmão ainda eram rotina, mas com o tempo foram sendo sombras do passado. Apesar de duas irmãs e um irmão frequentarem esse colégio, pouco ou nada conviviam, sendo que essa lacuna transbordou para toda a vida e é o vazio que, talvez, ainda não foi

Por ter essa carência afetiva, que ainda agora diz ser característica dela, talvez considera que as visitas ao irmão a Águeda fossem os momentos mais marcantes da sua infância.

“De início ainda tive o meu pai, o meu falecido pai, a ir-me visitar e o meu irmão, mas entretanto deixaram de ir visitar. A mim e aos meus irmãos (…) Claro que uma pessoa ao ser criada assim num colégio não é como ter um pai, que nos dá carinho, não é? Lá não me davam um beijo, não me davam carinho (…)”

A transição para a adolescência não foi tranquila. Sente que a maior mudança que ocorreu ao longo da sua adolescência foi o aumento da sua revolta. Os comportamentos fugazes, mesmo no colégio, levaram a que fosse medicada na instituição para controlo. Era essa a forma que descreve o colégio. Quando alguém fugia às normas ou ao que eles delineavam, a medicação era a solução principal para garantir o controlo das crianças e dos jovens. Mas isso ainda piorava a situação. Anabela tentou fugir diversas vezes. Dizia que não tinha a atenção necessária que uma criança deve ter. Aliás, ninguém tinha qualquer atenção independentemente da idade que tivesse. Não se criavam relações afetivas, não se desenvolviam sentimentos e partilha de emoções. Relembra que as visitas eram custosas. Estar num canto, iludida à espera que alguém entrasse na porta para a visitar e cair na realidade de que ninguém a visitava, inundava o peito que já transbordava de tristeza. Era doloroso ver as outras crianças e jovens receber a família e terminar a visita com oferendas e lembranças e ela, no final, estar de mãos e coração vazio.

Ao longo da sua adolescência, a relação familiar manteve-se de igual modo. Aos 12 anos a vida colocou-a novamente à prova. O seu irmão – o mesmo que se encontrava no colégio – faleceu. Anabela tinha 12 anos e o seu irmão tinha 10 anos.

Aos 14 anos retiraram-na dos estudos. Anabela tinha gosto por aprender e descobrir, daí que essa saída do meio escolar resultou numa maior revolta. As constantes tentativas de fuga fizeram com que aos 15 anos fosse transferida para o Instituto de Monsenhor Airosa, em Braga. Era outra das medidas do colégio para o

controlo dos mais fugazes: a deslocação para outra instituição. Esteve em Braga durante, mais ou menos, um ano. Diz que não foi preparada para a vida. Teve os olhos tapados durante esta fase. A falta de afeto e convivência no colégio fez com que as conversas essenciais ao longo do crescimento de qualquer jovem – desde a mudança corporal à mudança psicológica – não acontecessem. Qualquer demonstração de afeto, mesmo em televisão, era suprimido da rotina diária destes jovens.

“Tentei fugir para conhecer a minha família porque é triste estar num colégio e, ao domingo, havia visitas dos familiares e sabe o que é uma pessoa estar num cantinho à espera que alguém nos vá ver e ninguém aparecer?”

Regressou ao colégio aos 16/17 anos. A vida no colégio não permitia o desenvolver de amizades. Assim, de lá, não relembra grandes amigos. Apenas diz haver uma exceção: a sua antiga professora de francês. Era a única pessoa que lhe dava a atenção e o carinho que ela precisava. Era ouvinte e conselheira. Anabela confessou que, posteriormente, tentou o suicídio. Sempre que esses pensamentos lhe invadiam a alma, era à professora que ligava e era com quem desabafava nos momentos mais críticos. Por esse motivo, em 2008, foi oferecer-lhe um dos exemplares do seu livro. Em 2016, por circunstância da vida, não o poderá fazer.

Com a idade de 16 anos o seu pai matou-se e pediu a Anabela que se matasse com ele. As fugas sistemáticas do colégio levaram a um vedar definitivo da entrada aos 17 anos. Foi com esta idade que iniciou a vida na rua.

Anabela frequentava um café perto da casa das irmãs. Ir até esse café era a única maneira que tinha para ver as irmãs. Mas vi-as, somente. Não havia contacto, por palavra ou atitude. Foi aí que conheceu o pai dos seus filhos. Esse homem, tal como ela, frequentava diariamente o café. Um conhecido dissera-lhe que ele estava disposto a fornecer-lhe um teto. Anabela estava a viver na rua e, como tal, acabou por aceitar. Ficou a viver com esse homem e engravidou. A sua permanência na casa tinha um “custo”. Não monetário, mas sexual. Foi assim que acabou por ficar presa a esse

homem, pai dos seus filhos, mas pessoa que nunca amou. Sujeitou-se a esta vida porque assim garantia as condições de sobrevivência dos seus filhos.

As irmãs nunca ajudaram a melhorar a situação. O único irmão predisposto a ajudar, que outrora tinha frequentado a Casa do Gaiato, estava na altura casado e residia em Loures. Foi vários anos depois, após entrar em associações locais, que com o dinheiro angariado da venda dos seus trabalhos, ela conseguiu visitar o irmão. Esteve 20 minutos com ele. Foram 20 minutos que consolaram quase uma vida.

O falecimento do pai deu, por direito, uma casa a Anabela. Uma das suas irmãs tinha sido despejada da casa onde morava e pediu a chave da casa, dizendo que a ajudaria a tomar conta dos filhos. Anabela deu a chave à irmã e passado um mês deslocou-se para lá. Viveram juntas, porém a própria irmã fustigou-lhe a vida. O seu cunhado, igual. Sofreu na pele da própria família. Chegou a dormir na rua com o filho.

Teve problemas com o álcool, em parte empurrada pelo companheiro. Foi vítima de violência doméstica pelo filho mais velho e acabou por ser abandonada pelo pai dos seus filhos. Esteve com ele durante 15 anos.

“Abandonou-me com os filhos. Nem… nem dinheiro nem nada. Ainda bastante tempo sem saber. Houve alturas, nesta fase da minha vida, que nem um pão seco eu tinha para dar aos meus filhos. Mas eu aí andava doente (…) Em 2 anos tive 11 internamentos.”

Este foi o momento de reviravolta na sua vida. Reergueu-se e começou a lutar. Ainda diz que essa luta devia ter começado mais cedo, mas as circunstâncias não o deixaram. Deixou o álcool e livrou-se desse peso. Trabalhou em vários locais, desde indústria têxtil, limpezas, a confeitaria. Tudo para conseguir manter a sua sobrevivência e condições básicas de vida. Ao longo dos anos teve vários trabalhos. No entanto, nunca nenhum foi de encontro ao que realmente ambiciona – a escrita. Aquando da integração no mercado de trabalho, relembra uma boa relação com os demais trabalhadores. Considera ser extrovertida, daí que marque com a sua personalidade. Em 2008 escreveu um livro. Um livro de poemas. Ainda este ano vai lançar o segundo. Diz que este foi o

momento mais marcante enquanto pessoa adulta. Acrescenta, ainda, que viveu a sua primeira paixão com uma mulher.

A Anabela não é verdadeiramente feliz. Não o foi na infância, na adolescência, nem em idade adulta. Diz que não o é, mas está quase. Falta um pouco para se sentir preenchida, no marcador da felicidade.

Há um ano o Som da Rua conta com a presença da Anabela. Conheceu o grupo por intermédio de uma técnica com a qual desenvolvia uns trabalhos manuais. Soube, desde logo, que era esse o grupo onde se encontrava um dos irmãos. Reconhece o quanto gosta do Som da Rua. Gosta do convívio, do reconhecimento e do conhecer novas pessoas. Também gosta dos espetáculos que o grupo faz. Mas acima de tudo, adora cantar. O Som da Rua fortaleceu os laços com o irmão que também integra o grupo. Apesar de ele ser de carácter difícil, é um momento onde consegue estar com ele. A nível comunitário, considera que o grupo ajuda no reforço dos laços sociais. Este e todos os projetos onde ingressa. Talvez por isso nunca tenha pensado em abandonar o grupo.

Muitos são aqueles que participam no grupo, mas a Anabela diz que se consegue rever em muita gente. As histórias cruzam-se e ali todos já passaram ou passam por algo. Por já ter sido posta à prova, é que se identifica com muitos deles.

“Muitas vezes até me revejo nelas, entende? Vejo nelas porque já passei por isso e muitas vezes… já ajudei algumas pessoas, já ajudei. E muitas vezes quem precisava de ajuda era eu.”

Daqui a 10 anos imagina-se feliz, verdadeiramente feliz, com um amor ao seu lado. Jeitosa, de preferência, como assume a Anabela. Imagina o Som da Rua, presente e ativo na sua vida. Descreve o grupo como “um tempo muito bem passado”.