Capítulo 2. A criminalidade e a prostituição na w3 norte
1. A prostituição, a cidade e a criminalidade
O ambiente profissional de “putas” é criminógeno? A resposta é afirmativa se tomarmos em conta algumas das representações sociais reproduzidas por parte dos moradores das cercanias da Avenida W3 norte, reproduzidos nos recortes de jornais acima transcritos, os quais associam diretamente a atividade de prostituição ao aumento da criminalidade referente a tráfico de drogas, roubos, furtos, e até homicídios.
Mas será mesmo que podemos dizer que o exercício livre da prostituição constitui uma das causas da criminalidade urbana? Embora essa seja uma questão importante, não há muitas pesquisas destinadas a estudá-la especificamente, o que reforça ainda mais a necessidade de discussão sobre o tema.
Contudo, tem-se que, ainda que objetivamente inexista essa relação necessária entre prostituição e criminalidade, no imaginário social, ela está presente. Ambos são considerados “anomalias sociais” ou “desvio de condutas”, objetos do controle social em maior ou menor grau. Aqueles que recebem com sucesso o rótulo de “criminosos” ou “putas” têm seu espaço físico e simbólico segregado na cidade e na sociedade.
Como vimos na introdução, Becker (2008, p.22) chegou a uma interessante definição que nos ajuda a refletir sobre a resposta para a questão: “O desvio não é uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma consequência da aplicação por outros de regras e sanções a um infrator. O desviante é alguém a quem esse rótulo foi aplicado com sucesso; o comportamento desviante é aquele que as pessoas rotulam como tal”.
Desse modo, ele considera que quem define o que é o desvio ou quem é a pessoa desviante não é o ato ou a conduta praticada pela pessoa, mas a reação dos outros diante dessa conduta. É essa reação que implica, ou não, a aplicação de regras ou sanções ao infrator. De acordo com essa resposta social, uma pessoa pode ser considerada como desviante mesmo sem ter cometido qualquer ato efetivamente infrator, tendo como base, por exemplo, o seu estilo de vida. A partir da mesma ideia central de desvio como reação dos outros a um comportamento ou conduta infratora, chega-se também à conclusão de que o conceito do termo desviante também não depende da própria autoimagem da pessoa como tal, mas apenas da aplicação com sucesso desse rótulo.
A teoria do desvio pode ser perfeitamente aplicável à atividade de prostituição. Como já abordado anteriormente, várias foram as narrativas - morais, religiosas, médicas, jurídicas e sociais - que trataram de atribuir à atividade de prostituição esse rótulo de conduta desviante, uma vez que as profissionais do sexo eram tidas como pessoas abjetas, desviantes da
expectativa social de conduta que é reservada a um cidadão exemplar, e em especial às mulheres. E essas narrativas, cada uma ao seu modo, foram encampadas por grande parte da sociedade.
Segundo Goffman, o termo estigma é um atributo profundamente depreciativo utilizado no âmbito do espaço público, e não na intimidade. Assim, “a área de manipulação do estigma, então, pode ser considerada como algo que pertence fundamentalmente à vida pública, ao contato entre estranhos ou simples conhecidos, colocando-se no extremo de um continuum cujo polo oposto é a intimidade” (GOFFMAN, 1988).
No caso da imposição do rótulo ou do estigma de desviante às “mulheres públicas” - que por si só já são consideradas públicas, sem qualquer direito ao exercício de sua identidade ou intimidade -, esse processo se dá de forma ainda mais forte. Percebidas como imorais, um perigo e uma ameaça à feminilidade tida como ‘normal’, as prostitutas são, frequentemente, excluídas socialmente, marginalizadas e sofrem o estigma de puta” (RODRIGUES, 2007).
Outra teoria interessante que pode auxiliar na compreensão dessa vinculação direta entre a atividade de prostituição e a criminalidade é a ideia de o desvio ser tratado como um master status, ou seja, uma característica, ou melhor, um rótulo ou um estigma que é atribuído a uma pessoa que serve como parâmetro para prever todas as demais características desse indivíduo. Everett Hughes trabalhou bem essa ideia e, segundo ele, esse status é definido, em sentido estrito, como a posição social ocupada por alguém, do qual resulta direitos, limitações de direitos e obrigações (HUGHES, 1945).
Um status traduz, por exemplo, a condição ou ideia de ser médico, advogado, homem, mulher, negro, branco, pobre, filho, mãe, cidadão, estrangeiro, criminoso, entre outros. Entre essas categorias, Hughes observa que há aquelas em que se pode identificar um traço fundamental que serve para distinguir pessoas que são classificadas como tal daquelas que não possuem tais características. Por exemplo, para ser um médico, é bastante o preenchimento de certos requisitos e licença para exercer a medicina, não importando suas características físicas, sociais e seu passado. No entanto, como destaca Hughes em relação à sociedade norte-americana, espera-se que um médico seja da classe média alta, branco do sexo masculino e protestante. Assim, pode-se dizer que alguém que possui uma característica chave, que pode ser considerada um status principal, gera a expectativa informal de possuir também outras características secundárias, consideradas por Hughes, como status auxiliares.
Segundo o autor, no caso do médico, são status auxiliares a expectativa de ser homem, branco, da classe média112.
No caso de um status principal ser prostituta, contudo, tem-se como status auxiliares as pessoas serem marginalizadas, clandestinas, com baixo nível de educação e escolaridade, criminosas, disseminadora de doenças, conforme vimos nas reportagens dos jornais de Brasília, acima apostos.
A etiqueta ou o rótulo do desvio traz consigo muitas conotações que especificam traços auxiliares esperadas de qualquer pessoa que carregue o mesmo rótulo. Assim, no caso de a etiqueta ser criminoso, espera-se de um homem condenado por furto, e, logo rotulado como criminoso, que ele irá furtar outras casas, e cometer outros tipos de crime, uma vez que já ele demonstrou não ter respeito pela lei. No caso de a etiqueta do desvio ser prostituta, espera-se que sua palavra não tenha a mesma validade perante os órgãos do Estado que a das demais pessoas, em razão de seu modo de vida113.
As reflexões realizadas pelos sociólogos do desvio até então apresentadas traduzem a construção de um possível conceito do termo desvio e suas consequências, o qual não está relacionado diretamente com o fato infrator em si ou a conduta do indivíduo, mas principalmente com a reação do meio social quanto à pessoa que infringiu a regra, bem como às condições em que ela o fez. No caso da atividade de prostituição, é possível levantar a hipótese de que a categoria prostituta seja, conforme a teorização de Hughes, um master status, ou seja, o “ser prostituta” se torna a característica mais importante da pessoa e cria expectativas em relação a todas as suas outras qualidades, e que tal rótulo é aplicado a ela, em razão de ela descumprir determinado conjunto de regras sociais.
Pelas observações e pela bibliografia extensa sobre o tema, é completamente plausível afirmar que junto do desempenho da profissão vem um rótulo totalizante que entende as prostitutas como mulheres promíscuas, mentirosa, sedutoras, escandalosas, violentas e fonte de doenças. (CAPELA, 2013).
Outro suporte que auxilia a reflexão sobre as narrativas relacionadas à justificação dessa relação entre a prostituição e a criminalidade, nos seus eventuais papéis de autores, vítimas e testemunhas, é a teoria das associações diferenciais. Em síntese, ela defende que o desvio
112 HUGHES ainda apresenta outra reflexão acerca da existência das categorias de status principal e status subordinado.
Segundo ele, existem certos status no meio social que se sobrepõem a outros, ou seja, ele determina as características de outros status relacionados àquela pessoa. Por exemplo, em alguns contextos culturais, o status correspondente à raça é extremamente forte, de modo que uma pessoa é negra, antes de ser médica ou mulher. Nesse sentido, HUGHES defende que, no caso do criminoso, em certos tipos de crime, o rótulo assume a posição de status preponderante, subordinando todas as características especificas da pessoa que recebe o predicativo.
113 A propósito, tratei brevemente sobre o valor da palavra da prostituta nos processos judiciais nas narrativas jurídicas sobre
sistemático é aprendido pela pessoa em associação direta ou indireta com outros que já praticaram um comportamento desviante. Segundo Sutherland (1940), o “fato de que uma pessoa torne-se ou não um criminoso é determinado, em larga medida, pelo grau relativo de frequência e de intensidade de suas relações com os dois tipos de comportamento. Isto pode ser chamado de processo de associação diferencial”.
A partir dessa perspectiva, o comportamento desviante não seria determinado geneticamente, nem seria produzido por problemas na personalidade, e nem pela pobreza. Trata-se, sim, de um comportamento aprendido, da mesma maneira que outros tipos de comportamentos são aprendidos, por intermédio da interação com outras pessoas no processo comunicativo114. A parte fundamental desse aprendizado se desenvolve nos grupos pessoais íntimos, já que a influência dos contatos impessoais, como os meios de comunicação, é pouco importante para Sutherland (ANITUA, 2008).
No caso da prostituta, ao desafiar ou desviar por completo do “dispositivo de sexualidade”, que é o esperado de uma mulher “normal”, ela afrontaria uma rede de significados, uma rede de controles, capazes de qualificar sua conduta negativamente, de considerá-la desviante. Mostra-se interessante que, analisando sua atividade longe dos parâmetros morais, religiosos, médicos e jurídicos, a prostituta “venderia” apenas suas habilidades sexuais/conhecimentos específicos, assim como uma professora “vende” conhecimentos específicos ao lecionar uma aula, ou uma cabelereira “vende” suas habilidades manuais/conhecimentos específicos ao realizar um corte de cabelo. Ou seja, a prostituta somente é considerada uma desviante a partir de uma interação de sua atividade com as reações sociais que são conduzidas pelas reiteradas e cristalizadas representações sociais reunidas nas narrativas moral, religiosa, médica, jurídica e social.
Abjeta e segregada simbolicamente de grande parte dos níveis de interação social (moral, sexual, religiosa, médica, espacial, legal), a atividade de prostituição e a criminalidade a ela associada apresentam-se em uma rede de elementos heterogêneos e, amiúde, opostos entre si, e forças que interagem, determinando-se e disputando influência.
Finalmente, o melhor entendimento dessa relação entre a prostituição e a criminalidade depende de narrativas, para além daquelas já mencionadas. Existem diversos caminhos para tanto, em especial no que tange à prostituição de rua na W3 norte. Um deles é o estudo dos
114 Essa perspectiva de Sutherland agrega bastante valor à reflexão de como um sujeito desviante consegue ultrapassar as
barreiras do controle da conduta padrão e permanecer à margem. De fato, o desviante não foge à cultura do controle em si, ele apenas foge ao controle que tem como o parâmetro o padrão. Mesmo para integrar um grupo de “desviantes”, ele aprende novas condutas, padrões, hábitos, trejeitos, típicas daquele grupo, os quais também impõe outro tipo de controle. No caso da prostituição, uma mulher que é prostituta também, de certa forma, deverá submeter-se a outro tipo de controle, ao controle do padrão de ser prostituta, comportar-se como tal e respeitar os espaços das outras prostitutas.
casos que chegam ao conhecimento do Estado por meio dos registros dos boletins de ocorrência na área mencionada, relacionados à prostituição e à criminalidade a ela envolvida.