A revisão de literatura sobre o abuso sexual infantil intrafamiliar é múltipla e
parte de diversos pontos de vista e de conhecimento para um mesmo fim: discutir o
abuso na perspectiva da proteção integral da criança vítima. A produção científica
sobre o tema na área da Saúde é dominante, seguida das áreas da Psicologia e
Ciências Sociais. Para o Direito, é necessário se valer das pesquisas das referidas
áreas para construir, numa perspectiva dialética e plural, o diálogo necessário entre
os aspectos que configuram o abuso sexual infantil intrafamiliar enquanto questão
de relevância social e de saúde pública com o seu papel de instrumento de
transformação social.
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O fator intrafamiliar do abuso sexual infantil dificulta a revelação do ocorrido por
parte da vítima, conforme já demonstrado. A manutenção do abuso enquanto um
segredo familiar, muitas vezes, impede que as autoridades legais competentes
tomem conhecimento da violação dos direitos da criança e a responsabilização do
agressor torna-se uma realidade distante.
Mesmo diante dos casos que chegam ao conhecimento da autoridade policial,
que são posteriormente registrados e denunciados pelo Ministério Público, existem
muitas dificuldades até a efetiva responsabilização do agressor. As próprias
características do ato sexual abusivo, bem como as barreiras que se verificam no
momento do atendimento à vítima de abuso sexual – limitações apresentadas pelos
profissionais ou pela família – apresentam-se como possíveis fatores determinantes
para a subnotificação dos casos. São, assim, ocultações das reais situações de
violência.
De acordo com Balbinotti(2009), as providências decorrentes da comunicação
da violência sexual infantil deveriam ser focadas, primordialmente, na proteção da
criança e, após, na responsabilização do agressor. No entanto, no contexto da
sociedade brasileira atual não é o que ocorre. Essas providências são de
competência de distintas instituições: do Conselho Tutelar, cuja política de
atendimento à criança e ao adolescente deve assegurar os direitos básicos em prol
de sua formação; da Delegacia de Polícia, que deve instaurar o inquérito policial
com fins investigativos sobre o crime ocorrido; do Ministério Público (MP), que deve
ajuizar a ação penal; da rede de saúde assistencial; do Juízo Criminal.
Não se pretende, neste trabalho, debruçar-se sobre os pormenores do caminho
que vítimas e familiares percorrem no sistema de Justiça brasileiro para o desvelo
dos crimes de abuso sexual. A intenção é refletir sobre a atuação dos profissionais
do Direito diante de casos de abuso sexual intrafamiliar com relação à garantia da
proteção integral da criança vítima.
Neste trajeto, são muitos os profissionais jurídicos com as quais a criança tem
contato. São diversos os momentos em que a criança tem de relatar o fato abusivo a
um profissional do Direito, em circunstâncias, ambientes e momentos que são novos
e hostis à sua realidade infantil. As formalidades exigidas para o pleno
desenvolvimento da persecução penal, como exame de corpo de delito,
depoimentos e audiências judiciais, podem vir a revitimizar a criança, principalmente
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se a abordagem dos profissionais durante estes procedimentos não prestigiar a
peculiaridade da violência sexual e da condição de pessoa em desenvolvimento da
vítima.
A escuta da criança constitui um procedimento que deve ser gerido com
cautela, a fim de que não se transgrida o direito à proteção integral, não podendo
incidir em sua revitimização. Devem ser respeitadas as condições em que a criança
se encontra, levando-se em conta que os sintomas traumáticos concentram-se muito
mais na sua esfera psicológica.
A justiça penal atualmente age com um viés direcionado à investigação de
fatos para responsabilização do agressor, em detrimento da garantia da proteção
integral da criança. Esta maneira de operar, que inclui também a fase policial
prejudica a qualidade da efetividade do sistema de justiça quando trata a criança
com insensibilidade e desconsidera sua condição de pessoa em desenvolvimento, o
que provoca sua revitimização. É a partir dessa questão em torno da proteção
integral da criança vítima de abuso sexual intrafamiliar, especialmente no que toca
ao tratamento jurídico que lhe é oferecido, que a discussão acerca da formação dos
profissionais do Direito emerge.
A atuação profissional jurídica diante de situações de abuso sexual infantil
intrafamiliar, implicada na garantia da proteção integral da criança vítima, requer
uma visão ampliada em relação à mera responsabilização do agressor e
cumprimento dos trâmites legais. Garantir a proteção integral da criança, na
condição de profissional jurídico, significa contemplá-la dentro do sistema de tutela
dos direitos da criança (e do adolescente) formado pelos dispositivos da CF/88,
pelas normas do ECA, pelas normas internacionais de proteção dos direitos
humanos (ROSSATO; LÉPORE; SANCHES, 2010) e, para além disso, significa
praticar o Direito numa perspectiva interdisciplinar capaz de abranger as diversas
demandas que a complexidade do fato e a peculiaridade da vítima podem
apresentar.
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3 ALINHANDO EIXOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS
A pesquisa científica fundamenta-se em uma rede de pressupostos ontológicos
do ser humano que definem a visão do pesquisador em relação ao mundo a sua
volta. Esses pressupostos são responsáveis pela base do trabalho científico, no
sentido da perspectiva pela qual o pesquisador tende a ver e interpretar os
fenômenos, o ser humano, a sociedade e o mundo em geral. Em Ciências Sociais, a
pesquisa assume um caráter subjetivo, tendo como objetivo último o
desenvolvimento do ser humano (RICHARDSON, 2009).
De acordo com Deslandes (2009), a pesquisa científica busca ultrapassar o
senso comum através do método científico, trabalhando com um objeto construído.
Este objeto é resultado de um processo, orientado por conceitos e teorias, de
objetivação de certos aspectos ou relações existentes no real, unindo dialeticamente
o teórico e o empírico. Busca compreender os fenômenos sociais a partir das
atitudes e do sentido que os agentes conferem às suas ações, sendo necessário,
portanto, a utilização de métodos e critérios de investigação distintos dos utilizados
nas Ciências Naturais, “com vista à obtenção de um conhecimento intersubjectivo,
descritivo e compreensivo, em vez de um conhecimento objetivo, explicativo e
nomotético” (SANTOS, 2010, p. 38-39).
Neste sentido, ressalta-se a ideia trazida na década de 1960 por Thomas Kuhn
de que a ciência não avança de forma linear, evolutiva e cumulativa, mas sim por
meio de rupturas ou paradigmas dentro dos quais as verdades científicas possuem
formas limitadas e relativas de validade. Nesta conjuntura, as práticas inter e
transdisciplinares em pesquisa emergem como “capazes de fazer dialogar e produzir
trocas entre os diversos campos do saber” (VASCONCELOS, 2013, p. 33).
Tracy (2013) reforça que esta visão, ligada ao pós-modernismo, questiona
verdades totalizantes e rejeita teorias concretas e absolutas que explicam os
fenômenos. A realidade e o conhecimento são fragmentados, múltiplos, situados no
tempo e multifacetados, de modo que é praticamente impossível conhecer ou
representar a realidade. A tentativa de fixar a realidade e o conhecimento
definitivamente favorece a interesses dominantes e ignora formas alternativas de ver
o mundo. A partir deste ponto de vista da autora, temos que todas as explicações e
descrições são instáveis e inter-relacionais, estão em interdependência com os
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significados em constante mudança. Tracy afirma que uma boa pesquisa não é
aquela que espelha a realidade, mas aquela que percebe a realidade através de um
espelho deformado, fraturado e que refletem a imagem de volta, afetando-a. Assim,
conclui a autora, o melhor que se pode fazer numa pesquisa é escolher um caco
desse espelho e perceber que ele só reflete um pedaço da realidade (TRACY,
2013).
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR Superintendência de Pesquisa e Pós-Graduação
(páginas 39-43)