III. DA PROVA
4. Dos meios de prova nas ações de responsabilidade civil médica
4.4. A prova testemunhal e o dever deontológico de sigilo profissional e
A prova efetuada através de prova testemunhal é um dos meios utilizados mais comummente em qualquer processo, não sendo exceção os casos em que se discute a responsabilidade médica; especialmente tendo em conta que em muitos casos, nomeadamente nas intervenções médico-cirúrgicas, haverá inclusivamente testemunhas do invocado ato lesivo.
A prova testemunhal encontra-se prevista nos artigos 392.º e ss do C.C., está afastada dos casos em que a lei exija para a prova do facto a forma escrita, bem como os factos que já se encontrem plenamente provados por prova documental ou outro meio com força probatória plena, nos termos do artigo 392.º do C.C..
O seu modo de oferecimento encontra-se regulado no processo civil nos artigos 495.º e ss. do C.P.C., pelo que se pode apurar que só pode ser prestado depoimento na qualidade de testemunha pessoas estranhas ao processo, i.e., que não são parte, conforme define o artigo 496.º do C.P.C.. O princípio da imediação,
191 Em processo penal, este meio de prova não tem correspondência exata, admitindo-se a prova
através da reconstituição do facto, nos termos do artigo 150.º do C.P.P.; bem como o exame ao local efetuado pelo tribunal em fase de julgamento, conforme artigo 354.º do C.P.P.; é ainda admitido como meio de obtenção de prova o exame, regulado nos artigos 171.º e ss. do C.P.P..
79 que dita que a prova, tanto quanto possível, deverá ser apreendida diretamente pelo tribunal, impõe que a testemunha tenha de declarar os fatos de que tem conhecimento e que possam ser relevantes para a composição do litígio, constitutivos da matéria dos temas da prova, perante o tribunal, devendo indicar a sua razão de ciência e que circunstâncias justificam o conhecimento que presta ao tribunal, ver neste sentido o artigo 516.º do C.P.C..
Pode-se levantar a questão de eventuais conflitos entre o depoimento testemunhal de um médico e as regras deontológicas da profissão a que está sujeito, especificamente em relação ao dever de solidariedade entre profissionais e ao dever de salvaguarda do sigilo profissional.
No que se refere ao segredo médico, que se impõe em todas as circunstâncias sendo um direito do paciente, e que abrange todos os factos que chegam ao conhecimento do médico no exercício da sua profissão ou por causa dela, conforme artigos 139.º do Estatuto da Ordem dos Médicos (E.O.M.), Lei n.º 117/2015 de 31 de agosto, e artigo 30.º, n.os 1 e 3, do Regulamento Deontológico da Ordem dos Médicos (R.D.O.M.), este diploma prevê expressamente as situações em que um médico irá intervir em processos administrativos ou judiciais, estabelecendo no seu artigo 35.º, n.º1, a proibição para o médico de prestar declarações sobre matéria sujeita a segredo, exceto (i) quando haja consentimento do doente para tal, ou de representante legal deste nos casos de impedimento, e desde que a revelação não prejudique terceiras pessoas com intenção na manutenção do sigilo, ou ainda (ii) quando for absolutamente necessário à defesa da dignidade, da honra e dos legítimos interesses do médico, do doente ou de terceiros, mas apenas na medida do necessário e com prévia autorização do Bastonário.
Quanto ao dever de solidariedade entre médicos que impõe respeito mútuo entre os profissionais, a abstenção de fazer declarações desprimorosas ou falsas sobre a competência de outros médicos, tratamentos por estes prescritos ou qualquer outra característica, bem como a coibição de proferir declarações públicas contra colegas, esclarece o artigo 108.º, n.º4, do R.D.O.M. que não viola o dever de solidariedade, antes cumpre uma obrigação ética, o médico que comunica à Ordem, de forma objetiva e com a devida descrição, as infrações técnicas e deontológicas de
80 um colega; princípio que NUNO GUNDAR DA CRUZ entende aplicar-se aos pareceres e depoimentos médicos em processo judicial,192 cuja orientação se acompanha.
No âmbito de um processo civil, poderá o médico recusar-se a colaborar com o tribunal de forma legítima, quando se tratem de factos que violem o segredo profissional a que está sujeito, nos termos do artigo 417.º, n.º 3, al. c) do C.P.C., nestes casos a recusa pode ser alvo de apreciação pelo tribunal, nos mesmos termos aplicáveis a processo penal, conforme nº 4 deste artigo.
Assim, independentemente de se tratar de uma ação de condenação apreciada em jurisdição civil, ou de um pedido de indemnização cível enxertado em processo penal, aplicar-se-ão as mesmas regras.
Desta forma, o C.P.P. regula especificamente a situação em que um médico é testemunha, a quem a lei impõe o segredo profissional, admitindo que se possa recusar a depor sobre as matérias sujeitas a segredo, conforme prescrito pelo n.º 1 do artigo 135.º do C.P.P..
No entanto, este regime admite também que, se o tribunal ou a entidade judiciária perante a qual se suscita o incidente, julgar a recusa ilegítima após uma averiguação sumária dos argumentos invocados pelo médico, poderá decidir pela manutenção da recusa ou, oficiosamente ou a requerimento, recorrer ao tribunal imediatamente superior, ou ao pleno das secções no caso do Supremo Tribunal de Justiça, para que seja emitida decisão no sentido de prestação do depoimento, caso se mostre uma necessidade justificada, tendo em conta o interesse preponderante no caso concreto e a imprescindibilidade do testemunho, gravidade do crime e necessidade de proteção de bens jurídicos, tendo de ser ouvida a Ordem dos Médicos antes da emissão dessa decisão, nos termos dos n.os 2, 3 e 4 do artigo 135.º do C.P.P..
A prova testemunhal é livremente apreciada pelo tribunal, nos termos do artigo 396.º do C.C..
192 Cf. CRUZ, Nuno Gundar, A figura da testemunha-perito no contexto das acções de responsabilidade
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