Conforme Musschenga(1997) o termo qualidade de vida foi
utilizado pela primeira vez por Ordway (1953) e Osborn (1957), num contexto de crítica política sobre o crescimento económico ilimitado. As críticas chamavam a atenção para os efeitos nefastos desse desenvolvimento
acelerado a longo prazo, provocando a exautão dos recursos e a poluição do
ambiente. Os autores utilizaram o conceito de qualidade de vida no sentido das
suas críticas – a qualidade das condições externas para viver. Na época,
acreditava-se que o crescimento económico era positivo e proporcionava uma vida melhor, mas nesta concepção os valores no âmbito do material eram a preocupação central. Contudo para os críticos, havia que também valorizar a qualidade interna da vida humana ou excelência humana. Depois da II Guerra Mundial, a influência das políticas de bem-estar e ideologias utilitárias são
transpostas para termos como a felicidade, bem-estar e qualidade de vida. Por
conseguinte, a política social interessou-se pelo papel que a medicina e os cuidados de saúde, podiam desempenhar no sentido da promoção da
qualidade de vida. De acordo com Mussenga (1997) a qualidade de vida no
domínio da medicina pode ser prespectivada a três níveis: (1) qualidade de vida
como grau normal de funcionamento humano; (2) qualidade de vida como grau
de satisfação com a vida; (3) qualidade de vida como nível de desenvolvimento
humano.
A Segunda Revolução de Saúde estimulou os estudiosos das décadas de 60 e 70 a preocuparem-se com a necessidade de pensar de novo na saúde, conceptualizar, avaliar e intervir na melhoria da Qualidade de Vida
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(QDV) das pessoas, no sentido da Promoção da Saúde. Assim, muitos
conceitos surgiram relacionados com uma linguagem salutogénica (Figura 4).
Em 1980, Matarazzo introduz a Health Psychology (Psicologia da
Saúde) para designar a área disciplinar da Psicologia, nos domínios da saúde e da doença, fundamentada numa perspectiva holística. Refere que, enquanto ciência e como profissão, cabe à Psicologia da Saúde um configuração de contribuições educacionais, ciêntíficas e profissionais da ciência psicológica
que tenham em vista (Matarazzo, 1980, cit.Teixeira,1992) três vertentes
principais, que devem ser conceptualizadas numa perspectiva de interacção intra e inter-individual, que são as seguintes:
a promoção e manutenção da saúde,
a prevenção e tratamento da doença ,
a identificação dos correlatos etiológicos e diagnósticos
de saúde, doença, e disfunções psicológicas
relacionadas.
O objecto de estudo da Psicologia da Saúde é o indivíduo pessoal e intersubjectivo e os seus funcionamentos afectivo, cognitivo, emocional, comportamental e social, por isso, tem em consideração
a personalidade, a família e o apoio social – interessa-lhe a forma como o
indivíduo vivência e experiência a sua saúde e/ou a sua doença, na relação intra e inter subjectiva .
No que diz respeito à situação, esta remete-nos para o domínio da Medicina, por isso, a Psicologia da Saúde apresenta como
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1. agir de forma a que os indivíduos incluam no desenvolvimento do seu projecto de vida um conjunto de atitudes positivas e comportamentos activos e responsáveis que visem a promoção da sua própria saúde e a prevenção da doença;
2. e 3. reforçar e optimizar as suas defesas psicológicas no processo de ajustamento ao adoecer, à doença e ás suas eventuais consequências de modo a proporcionar uma vida activa e participante;
4. e 5. sensibilizar e informar os técnicos de saúde e os agentessociais envolvidos na promoção e manutenção da saúde, na prevenção e tratamento das doenças e na sua reabilitação.
Na realidade, esta ciência veio preencher uma lacuna no contexto da saúde. Em primeiro lugar, existem pessoas que necessitam e requerem apoio psicológico intensivo e/ou prolongado (pessoas com sequelas pós-traumáticas, consequências dos acidentes de viação, doenças de evolução
prolongada, dor crónica, handicaps, gravidez, menopausa, envelhecimento,
problemas ligados à alimentação, tabagismo, alcoolismo, droga, stress, novas
doenças, SIDA); por outro lado, há urgência em humanizar mais e melhor os cuidados de saúde e respectivos serviços existentes ou a criar; e por último, é preciso apostar na prevenção, através da informação e formação dos cidadãos na área da saúde.
As áreas de interesse da Psicologia da Saúde podem ser
sistematizadas da seguinte forma (Diekstra,1990; Weinman, 1990, cit Teixeira,
1992):
Os determinantes comportamentais dos estados de saúde e de
doença.
Aquisição precoce de comportamentos.
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Os processos de comunicação, tomada de decisão e de adesão
aos
serviços de saúde.
Os ambientes de tratamento médico.
As estratégias de coping com a doença e a incapacidade.
As relações entre os cuidados de saúde e a qualidade de vida.
As condições de saúde dos técnicos de saúde.
Apesar da defesa do valor saúde e de aí se encontrar o seu ponto de observação/problematização, investigação e intervenção a Psicologia da Saúde estrabelece laços muito fortes com outras ciências, nomeadamente, a Medicina, Neuroimunologia, Biologia, Antropologia, Sociologia, Psicologia Clínica, Psicologia Social e Psicologia Educacional. Neste domínio, considera-se de capital importância a colaboração interdisciplinar com o fim de considera-serem alcançados os objectivos de saúde; desta forma, assegura-se a coerência do processo e a cobertura da globalidade do real. Consoante o campo de intervenção considerado, pode ser alargada a participação a outros profissionais, destacando-se a intervenção de professores, dos médicos de família e de saúde pública, sociólogos, antropólogos, enfermeiros, assistentes sociais, educadores, políticos, legisladores e responsáveis pela comunidade.
Ao analisar o psicólogo no contexto de saúde, Pereira (1996) considera alguns modelos de colaboração interdisciplinar que podem ser uma fonte de inspiração para um bom trabalho de equipa entre profissionais com
formação específica diferente (Quadro 6). É preciso chegar a todos os sectores
da sociedade para modificar comportamentos ou para realizar a manutenção de condutas de salutares. A prática da saúde implica interagir com os
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ambientes intra e inter, por conseguinte a saúde não depende só dos especialistas, cada cidadão tem algo a dizer e a fazer.
QUADRO 6– MODELOS DE COLABORAÇÃO INTERDISCIPLINAR
MODELOS Tipos de colaboração realizada entre psicólogos e
médicos
EQUIPA DE SAÚDE PRIMÁRIA
( Dyman e Berman, 1986) Os doentes são vistos inicialmente pelo médico
e pelo psicólogo, durante cerca de duas sessões e é feita uma avaliação.
A colaboração entre os dois profissionais surge logo no início em que o problema é definido e o diagnóstico feito.
Os dois profissionais trabalham separadamente consultando-se com frequência.
O trabalho do psicólogo consiste em observar, avaliar e ser capaz de fornecer intervenções breves.
O papel do psicólogo é o de ser um generalista responsável pela contextualização do problema a diversos níveis : questões psicossociais; mudanças de estilo de vida; problemas de aderência ao regime médico; ou relação do impacto da doença no doente e na família. MODELO DE REFERÊNCIA LIMITADA
(Crane,1986, Hepworth,Gavazzi, Adlin, Miller, 1988) Embora em contacto e em coordenação, o
médico e o psicólogo tratam os doentes em locais diferentes, embora ambos os profissionais sejam responsáveis pelos respectivos tratamentos.
O papel do psicólogo é o de tratar os aspectos psicossociais da doença e negociar o problema apresentado de início como um problema médico que é afinal psicossocial
MODELO DE CONSULTADORIA
( McDaniel, Weber, 1986) O psicólogo é o consultor do médico ou vice
versa, de forma a que seja dada assistência para identificar/clarificar problemas, e considerar opções para a resolução do problema.
O psicólogo consulta o médico ácerca das medicações, doenças crónicas e assuntos do foro médico dosseus doentes em tratamento. O médico consulta o psicólogo ácerca dos
assuntos psicossociais das doenças que os seus doentes apresentam.
MODELO DE COTERAPIA
(Campbell, McDaniel, 1987) O médico e o psicólogo trabalham em conjunto
durante todo o processo de diagnóstico e tratamento negociando a divisão do trabalho de acordo com a sua especialidade.
Modelo que requer maior negociação entre o sistema biomédico e o psicossocial.
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Nos nossos dias quando se fala em avaliar a Q.D.V. de uma população, procuram-se três indicadores: esperança de vida; taxa de mortalidade infantil; e anos de vida perdidos (os que morrem antes do tempo). A Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde (QDVRS) está mais
relacionada com a doença, podendo apresentar dois sentidos: geral (para o
sistema de cuidados de saúde) e específico (para cada uma das doenças).
Consequentemente, a QDV e a QDVRS quando aplicadas no sistema de cuidados de saúde são sinónimos. E quando nos referimos à QDV de um indivíduo em particular, quer na saúde ou na doença, do que é que estamos a falar?
Segundo Churchman (1992) a Q.D.V. designa o juízo subjectivo de uma personalidade sobre o grau em que as suas necessidades, nos vários domínios da vida, se encontram satisfeitas. Por conseguinte; a QDV é uma medida de percepção pessoal (não é possível questionar uma pessoa sobre o estado da outra), varia ao longo da vida de uma personalidade e constitui-se como uma medida subjectiva (é necessário recorrer em particular a técnicas de avaliação baseadas em validade e fidelidade).
A relação entre a Psicologia da Saúde e a Q.D.V. pode ser
considerada da seguinte forma: a Q.D.V. é o objectivo da Psicologia da Saúde
enquanto a Saúde é o objecto. De um modo geral, podemos encontrar na
literatura cinco tipos de de concepções ácerca da Q.D.V. (Ribeiro,1994c):
Psicológica Esta abordagem parte da distinção entre ter uma doença e sentir-se doente (disease versus illness) e a partir daqui,centra-se na percepção do doente isto é, na experiência subjectiva da vivencia de doença.
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Custo-benefício Enquadra-se na dicotomia quantidade de vida versus qualidade de vida, coloca a sua atenção na percepção subjectiva do doente sobre a sua capacidade funcional em áreas que valoriza e respectivas opções de vida, de ganho e perda.
Centrada na comunidade Observação do impacto da doença na comunidade e que variáveis deverão ser consideradas, embora inicie a avaliação de Q.D.V. por parâmetros fisiológicos, abrange um conjunto de parâmetros de personalidade, sociais e comunitários (funcionamento social, distress psicológico/ bem-estar, percepção geral de saúde, funcionamento social, exercício do papel social).
Funcional Valoriza os aspectos funcionais e ignora os emocionais, isto é, a reorganização dos aspectos funcionais, físicos, psicológicos e socias é vista em função dum maior ou menor ajustamento ás consequências de uma doença.
Calman's Gap A Lacuna de Calman considera que a QDV é como uma lacuna entre as expectativas do doente e o que ele conseguiu realizar, assim quanto mais a primeira se aproximar da segunda, maior a QDV.
Ao conceptualizar a saúde numa perspectiva salutogénica, o conceito é redimensionado e, paralelamente, assistiu-se ao aparecimento e desenvolvimento dos conceitos de Q.D.V. e bem-estar. A partir da década de 70, os três construtos surgem com grande ênfase e de modo interrelacionado. Enquanto que o primeiro, se desenvolve num contexto de saúde pública, o segundo no contexto da sociologia, já o último, é por excelência do domínio da psicologia (bem-estar-subjectivo). Podemos verificar que no estabelecimento de indicadores de QDV consideram-se geralmente, uma componente objectiva (social, económica, político, ambiental) e uma componente subjectiva (psicológica), ambas são faces de uma mesma moeda, pelo que deverão ser consideradas numa visão de conjunto.
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A saúde é um dos domínios fundamentais para QDV. Por isso, a Psicologia da Saúde tem interesse na QDV ao nível da avaliação (produção de medidas de QDV) e da intervenção (mudança de comportamentos); só desta forma é possível trabalhar na prevenção de condutas de risco, na orientação para a saúde e na manutenção dos comportamentos salutares, considerados nas suas vertentes individual e/ou social.