4 NA REDE DAS AÇÕES FÍSICAS: DAS PAIXÕES ÀS EMOÇÕES E
4.3 A psicologia do ator e a memória das emoções
Antes de elaborar o método das ações físicas, Stanislavski se apoiou na psicologia para trabalhar com as emoções do ator. Ele acreditava que o ator poderia reviver as emoções registradas na sua memória e aplicá-las ao personagem e em circunstâncias dadas. Isoladas das suas causas naturais, as emoções deveriam ser revividas através de um processo mental introspectivo de reconstituição. A estratégia adotada era o “como se”, rememorando, de forma imaginativa e hipotética, um passado vivido. Ou seja, do contato com o mundo interior mnemônico viria a matéria expressiva. Mais tarde, com o enfoque específico sobre o corpo e as ações físicas, o procedimento introspectivo sofrerá modificações.
O enfoque sobre a memória – iniciado por Diderot e desenvolvida por Lewes e, mais tarde, por Ribot – formata o que é considerado como o aspecto subjetivo do método de Stanislavski, denominado Psicotécnica. Lewes já defendia a introspecção como estratégia para o ator criar a familiaridade e decorrente controle da natureza de suas próprias emoções a fim de interpretar emoções análogas. A mente do ator e sua capacidade de criar um modelo interno, como já salientava Diderot, ganham importância cada vez maior no processo de atuação, seja como observadora dos estados de consciência ou dilapidadora das emoções brutas. Para buscar o material para a sua arte, o ator recorreria à faculdade da memória, considerada uma espécie de contêiner ou armazém no qual a introspecção atua e a emoção pode ser processada. Lewes junta o termo neurofisiológico tremor e o termo psicológico imagem para discutir o processo interno no qual o artista seleciona as memórias emocionais do passado para desenhar imagens a serem interpretadas (ROACH, 1985, p. 190).
Stanislavski acessa as obras de Ribot traduzidas em russo e encontra uma ressonância científica para suas intuições acerca das experiências emotivas69. O fundador da psicologia científica francesa chamou a atenção para os fenômenos psicológicos inconscientes, questionou o estudo da memória como uma faculdade exclusiva da alma e elaborou uma definição biológica para esta. Ao definir o termo emoção dentro da psicologia de sua época, Ribot chamou a atenção para a utilização deste em substituição aos termos paixões e afecções da alma, empregados no século XVII, e a relevância ao elemento motor intrínseco a toda emoção (motus). A própria etimologia da palavra carrega a noção de movimento. Do latim emovere
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Obras traduzidas em russo que foram, de acordo com Bogdam (1999), consultadas por Stanislavski: Les maladies de la memoire (1881), Les maladies de la volonté (1883), La psycologie de l’attention (1889), la psychologie des sentiments (1896) e L’essai sur l’imagination (1900).
(mover para fora), a noção de emoção conduzia ao entendimento de uma força motriz constante. As emoções, de acordo com Ribot (1999, p. 93), já se constituem como ações e não se apresentariam com características vagas ou difusas, mas como estados psico-fisiológicos complexos. Como manifestações materiais organizadas da vida afetiva, compreendem um estado de consciência particular, modificações da vida orgânica e tendências de movimentos. Ribot concorda com James sobre os fatores fisiológicos das emoções e compartilha da mesma empreitada de tratar a emoção cientificamente, através de suas marcas físicas objetivas, como a inervação muscular e as modificações vaso motoras.
Stanislavski parte, basicamente, das duas noções que Ribot elaborou para discutir o problema da memória e dos afetos: a vontade é essencial para o processo de cura psiquiátrica e a memória das experiências afetivas é conservada no sistema nervoso e pode ser reativada por estímulos sensoriais simples. Entendendo a vontade como um componente psíquico indispensável ao ator, Stanislavski associa-a ao ato criador e substitui a noção de vontade para a cura, estabelecida por Ribot, pela de vontade relacionada à criação. Quanto à memória afetiva, a nomeará como emotiva, relacionando-a a outras memórias sensórias, como a visual, acústica, táctil e motora (BOGDAM, 1999, p. 122).
Bogdam (1999), referindo-se igualmente a tradução dos termos russos utilizados por Stanislavski – o verbo “perezivat” e o substantivo “perezivanie” – alerta para o fato de que, pela sua difícil tradução, foi aproximado das noções de viver com intensidade ou reviver uma situação. A tradução inglesa e americana do mesmo termo como a arte da emoção e do sentimento conduziu a erros de interpretação e a conhecida ênfase das teorias americanas para a vivência emocional. Mas segundo palavras de Stanislavski (apud BOGDAM, 1999, p. 128), “o ator vive, ri e chora sobre a cena; mas enquanto ele ri e chora, ele observa seu riso e suas lágrimas. É nesta vida dupla, neste equilíbrio entre vida e jogo que a arte surge.” Não se trata de uma entrega à vivência das emoções reais, mas uma espécie de equivalência dos afetos, sem perder de vista a observação consciente destes processos. O que Magnat (2000) descreveu como a tradução mais correta para a o termo russo “perezivanie”, foi experiência, porém, consciente e atentiva.
Questionando se há uma memória afetiva real e se acessamos o estado afetivo nele mesmo ao recordá-los, Ribot (1939, p. 160) responde, a partir de uma distinção entre dois tipos de memória. Define a memória afetiva verdadeira (ou concreta) como uma reprodução atual de um estado afetivo anterior, com todas as suas características, e a memória falsa (ou abstrata) como a “representação de um acontecimento, mais do que uma marca afetiva real”. Nos processos de cura, a marca afetiva rememorada é reconhecida, mais do que é sentida ou
experimentada.
Assim como ocorrem nos estados intelectuais, Ribot reconhece nos estados afetivos a possibilidade de abstração e de generalização, admitindo uma espécie de materialidade nelas. As imagens de cólera, dor, ódio ou amor se formaria por imagens genéricas, representações esquemáticas destes estados, assim como a mente forma imagens genéricas de objetos ou pessoas. Os estados emocionais são abstrações que podem ser evocadas, uma vez que os estados afetivos “são uma matéria que pode se submeter a todos os degraus de abstração, como a matéria sensorial.” (RIBOT, 1939, p. 161).
A memória falsa ou abstrata é a mais freqüente, como a imagem de uma pessoa, uma paisagem, uma lembrança do passado que não é sentida, mas atua como reconhecimento. É uma variação da memória intelectual. Já a memória verdadeira ou concreta é o reviver do estado afetivo nele mesmo, e é acompanhada de estados orgânicos e fisiológicos que formam a emoção real. Seria impossível para Ribot (1939, p. 161) o reviver do estado afetivo real sem as respectivas condições orgânicas: “porque uma emoção sem sua ressonância em todo o corpo não é mais do que um estado intelectual.”
As modificações corporais que seguem imediatamente uma percepção e nossa consciência destas modificações são o que James chama de emoção. ‘É porque que choramos que ficamos tristes [...] porque trememos é que sentimos medo, se suprimido os batimentos do coração, a respiração ofegante, o tremor, o estado particular das vísceras, o que restará?’ [...] Um estado intelectual pálido, incolor, frio. Uma emoção des-corporalizada é um não ser. (RIBOT, 1939, p. 96).
Seguindo o esquema de metáforas, apontado por Lakoff (1987), entendemos e experenciamos nosso próprio corpo como contêiner e, a partir desta lógica, a mente é entendida no senso comum como um contêiner de imagens, emoções, pensamentos e outros conteúdos prontos a serem evocados. Stanislavski (2000, p. 213) contava com este arcabouço quando reivindicava o trabalho sobre a memória afetiva. Ele utilizou a idéia de arquivo de memória por meio da metáfora da uma casa, com muitos compartimentos, armários e gavetas a serem descobertos. A memória, de acordo com Damásio (2000, p. 209), é armazenada sob a forma dispositiva, e não sob a forma de fotografias num álbum ou arquivo de recordações afixadas no
cérebro. Não haveriam imagens permanentemente retidas. São registros dormentes e implícitos de objetos e eventos não presentes que se engendram com as imagens dos objetos “reais” percebidos, que são ativos e explícitos. Quando evocamos a memória, recuperamos os dados sensoriais característicos, bem como os motores emocionais associados, com as reações que tivemos no passado. Por isso, podemos ser conscientes do que recordamos tanto quanto do que vivemos em tempo presente.
Embora não sejam as vivências do afeto nele mesmo, os resíduos destas experiências passadas retornam como elementos impressos no corpo e contribuem para a percepção e tomada de decisões no futuro. Damásio denominará a memória corporal que está impregnada de sensações positivas e negativas, lembranças de prazer e dor, ligadas aos fatos vividos como marcadores somáticos. Estes marcadores são adquiridos por meio da experiência e são sensações viscerais agradáveis e desagradáveis. Como são corporais, Damásio (1996, p. 205) atribuiu o termo soma, do grego corpo, e marcador, porque marca uma imagem no corpo e atua como um mecanismo preciso, mesmo para a tomada racional de decisões, normalmente atribuída à mecanismos mentais. Além da razão no sentido tradicional, que nos permite raciocinar e decidir, seguindo toda uma tradição filosófica ocidental que vem de Platão e se reforça em Descartes, teríamos a hipótese do marcador somático apontada por Damásio. Neste caso, as emoções não são descartadas como fenômenos pouco confiáveis para que a razão soberana possa operar, nem tampouco o sangue e a cabeça se mantêm frios, como aconselhava Diderot. Os marcadores somáticos são estratégias que aumentam, provavelmente, a precisão e a eficiência do processo de decisão. São sistemas de qualificação automática de previsões que atuam como avaliador de situações e são um caso especial do uso dos sentimentos. Somos aculturados através de inúmeras experiências que conformam marcadores somáticos e que representam nossa imagem do mundo. Esta sensação no corpo pode surgir tanto na evocação de uma memória passada quanto numa situação vivida no momento.
A fim de garantir a sobrevivência e o equilíbrio do organismo e trabalhar com as experiências de dor e prazer que poderiam desestabilizá-lo, o corpo produz uma rápida sensação visceral que pode ser desagradável ou não, antes que possamos raciocinar acerca de alguma situação ou problema. É no corpo que se dá este sinal de alarme, ligado a sentimentos e emoções adquiridos no processo de educação e socialização. Segundo Damásio (1996, p. 202- 205), o marcador somático pode ser encarado como um “sistema de qualificação automático de previsões”. O que nos propõe Damásio é a “descida do Olimpo” de conceitos antes vistos como manifestações imensuráveis e fora da matéria do corpo, para bem mais perto de nosso
entendimento. “O que se passa é que a alma e o espírito, com toda a sua dignidade e dimensão humana, são os estados complexos e únicos de um organismo.” (DAMÁSIO,1996, p. 282).
Perto do final de sua vida, Stanislavski percebeu que, mais do que uma memória emotiva, o ator teria uma memória corporal, e que deveria ser acionada pelas ações físicas. É o ato voluntário e consciente que funda a ação do corpo no mundo, e a emoção ou sentimento, mais do que causa da conduta do ator, passa a ser o resultado. Convencido de que as emoções não poderiam ser convocadas facilmente, passam a ser entendidas como conseqüências naturais do processo orgânico do ator e fundadas sobre os impulsos internos da ação.
Anos depois, Grotowski afirmaria que não é que o corpo tenha memória, ele é memória. Desta forma, inverte a noção de contêiner, de uma memória mental guardada e separada do corpo pronta a ser evocada, para afirmar a idéia de circuitos vitais espalhados por todo o corpo. Os atos do corpo seriam portadores de uma memória e uma vida que não é informada, de todo, ao ator. Grotowski reivindicou um corpo-memória, enquanto experiência de vida revelada nos atos físicos. Certos detalhes dos movimentos das mãos do ator podem se transformar no regresso ao passado, na experiência de ter tocado alguém: “O corpo pode ditar diferentes ritmos, intenções, que não são provenientes necessariamente do pensamento, mas tem relação com a vida. Não se sabe como, mas foi o corpo-memória; o corpo-vida.” (GROTOWSKI, 1993, p. 37). Isto perpassa a noção clássica de memória armazenada no cérebro, mas, também, a de um corpo que se relaciona com as experiências da vida, de uma memória corporificada. Grotowski buscou evocar a memória orgânica do ator, capaz de ser reativada por processos que recuperem um tipo de sabedoria própria do corpo. Nas palavras do diretor:
Já falei muito sobre associações pessoais, mas estas associações não são pensamentos. Não podem ser calculadas. Eu faço um movimento com a mão e, depois, procuro as associações. Que associações? Talvez a associação de que estou tocando alguém, mas isto é apenas um pensamento. Que é uma associação na nossa profissão? É algo que emerge não só da mente, mas de todo o corpo. É um retorno a uma recordação exata. Não analisem isso intelectualmente. As recordações são sempre reações físicas. Foi a nossa pele que não esqueceu, nossos olhos que não esqueceram. O que escutamos pode ainda ressoar dentro de nós. (GROTOWSKI, 1992, p. 187).
Um conceito similar é encontrado nas ciências cognitivas. Quando Dennett (1997, p. 75) afirma que “a evolução corporifica informação em todas as partes de todos os corpos”, credita ao corpo um modo de articulação própria. Dennett apresenta-nos exemplos em todos os níveis da natureza. Evolutivamente, a barbatana das baleias corporifica informações sobre seu alimento e o seu meio, bem como a asa de pássaro corporifica informação sobre o meio em que tem que atuar. Os órgãos de nosso corpo carregam informações de nossos ancestrais. Estas informações que estão impregnadas no corpo, segundo Dennett (1997, p. 75), não precisam estar copiadas no cérebro. “Não precisa estar ‘representada’ em estruturas de ‘dados’ pelo sistema nervoso”, este pode utilizar-se destes antigos sistemas corporais como uma espécie de “caixa de ressonância” para sua atuação. Neste sentido, o sistema nervoso também se submete à sabedoria acumulada pelo corpo.
Utilizando antigos sistemas corporais como uma espécie de caixa de ressonância, ou audiência reativa, ou crítica, o sistema nervoso central pode ser dirigido – algumas vezes empurrado, algumas vezes convencido – na direção de políticas mais sábias. Na verdade, submeter-se ao voto do corpo [...]. Meu corpo contém tanto de mim –os valores e talentos, memórias e disposições de espírito que fazem de mim o que sou – como o meu sistema nervoso. (DENNETT,1997, p. 75).
4.4 A biologia das emoções
Um homem percebe um animal ameaçador. Imediatamente, manifestações físicas ocorrem em seu corpo. Como conseqüência destas reações somáticas e viscerais, ocorre a expressão emocional desprazerosa e, então, ele sente a experiência emocional do medo. A percepção segue a expressão, e não o oposto, ou seja, porque trememos é que sentimos medo. Em seu movimento de “biologização” das emoções William James defendeu a idéia que a manifestação fisiológica é a própria emoção, invertendo o senso comum de que a emoção é um fenômeno imaterial, separado do corpo ou que precede a ação. Esta última argumentação se apresenta, por exemplo, na teoria de Walter Cannon. Em 1929, Cannon refutou a teoria de James, propondo que o estímulo ameaçador conduz, primeiro, ao sentimento de medo, que causa, então, a reação física.