3. CAPÍTULO TEÓRICO
3.2 A PSICOLOGIA E OS DIREITOS HUMANOS
Pensar o encontro entre a psicologia e os direitos humanos no Brasil pode parecer algo dispensável, uma obviedade dada à certeza das relações orgânicas entre estes dois campos de produção de significações sociais. Considerando-se as diversas áreas de atuação da psicologia, que hoje incidem em questões relativas aos direitos humanos, pode parecer inquestionável sua apropinquação (Machado, 2012), uma vez que estão notoriamente fundamentando tanto o código de ética que norteia as práticas profissionais 20, como também uma série de políticas do CFP. No entanto, longe de colaborar para o desvelamento de suas relações, tal proximidade parece turvar, sobremaneira, as conexões que a torna imbricada
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Épistémè. Foucault usa este conceito para descrever os pressupostos que definem como cada período histórico entende, legisla e constrói o conhecimento. Assim, a episteme pode ser compreendida como o aparato estratégico que permite a separação – entre todas as afirmações possíveis – daquelas que serão aceitáveis, dentro de um campo de cientificidade, o que torna possível não apenas dizer se algo é verdadeiro ou falso, mas entre o que pode ou não pode ser caracterizado como científico (Sepes, 2013).
20 A psicologia possui três códigos de ética que nortearam a atuação das/os profissionais e
orientaram a relação da profissão com a sociedade. O primeiro deles, publicizado em 1980, expressava as preocupações e o regramento do fazer profissional nos consultórios, refletindo a atuação hegemonicamente clínica e privada. Em 2000, foi aprovado um segundo código que apresentava as mudanças trazidas pelo exercício da profissão em outros espaços que não os consultórios, assim como a atuação em equipes multiprofissionais. Neste código já havia referências aos direitos humanos e ao bem estar social. Contudo, foi apenas no código de 2005 que se encontra, nos princípios fundamentais, a referência explícita aos direitos humanos, à saúde do sujeito aliada à qualidade de vida e à exigência de uma postura profissional crítica frente à realidade política, social e econômica.
(Silva, 2012; Rosato, 2011). “Talvez fosse essa ordem de obviedade, o que, até algum tempo atrás, fizesse com que, entre os psicólogos brasileiros, tal temática não encontrasse maiores significações ou não se expressasse em consequências práticas ou discursivas” (Silva, 2012, p. 53).
De tal forma, pensar esta relação não pode e não deve ser tarefa fácil. Guareschi (2012b) propõe, sem pretender uma análise exaustiva sobre as razões que contribuíram para essa vinculação, a problematização de duas questões – as quais considera básicas. Em primeiro lugar, a autora destaca o projeto positivista e apolítico que informou a ciência psicológica e a prática profissional, cujos consensos, princípios explicativos e generalizações ignoraram diferenças e diversidades sociais e culturais, aproximando-se da proposição universalista e naturalizada dos direitos humanos. Em segundo lugar, destaca o fato dos direitos humanos terem sido capturados pelas políticas públicas como selo que confere qualidade e legitimação (Guareschi, 2012a; Silva, 2004), e finalmente questiona como a psicologia tem se inserido nestes dois campos, através daquilo que entende como sendo da esfera pública ou da esfera privada.
A questão inicial e mais problemática, segundo a autora, diz respeito ao caráter universal de sujeito que a concepção de direitos humanos possui, o qual impossibilita identificar com clareza a “face, a cultura, as identidades, mas principalmente, as diferenças desse ser humano, desse sujeito” (Guareschi, 2012b, pp. 45-46). A indeterminação desse humano – do seu lugar social, histórico e cultural e das suas diferenças econômicas, sexuais e geográficas - favorece determinações prescritivas, normatizadoras e invasivas, que limitam suas possibilidades de expressão. Neste sentido, a autora propõe que esse ser universal, seja substituído por diversas alteridades, quer sejam mulheres, gays, transgêneres, brancos, negros, indígenas, idosos, crianças, pobres, beneficiárias/os de programas socioassistenciais, empresárias/os dentre tantas/os outras/os que podem traduzir esse humano.
Assim sendo, é esclarecedora a contribuição de Camino (2001), que identifica duas compreensões básicas sobre a natureza dos direitos: a naturalista (direito natural) e a
culturalista (direito positivo). Na concepção naturalista, os direitos seriam inerentes à
natureza humana, uma posse natural de qualquer pessoa, um dado universal. Neste sentido, se materializariam em obrigações absolutas cujo fundamento, em resumo, remeteria a Deus ou a pressupostos transcendentais. Já na concepção do direito positivo ou teoria culturalista, os direitos humanos seriam produtos assinalados pela história das sociedades e pela consciência coletiva de seus membros. Esta escola pressupõe que estes direitos sejam valores ético- políticos que qualificam as relações sociais.
Assim sendo, pode-se inferir que há um forte dissenso em relação a questões básicas e fundamentais: de um lado se opõem perspectivas que fundamentam os direitos humanos transcendentalmente, enquanto outras o pensam a partir do mundo concreto, material, cultural e eventualmente contraditório. Fato é que coexistem ambiguidades epistemológicas e divergências políticas neste campo. Prado (2012) analisa que a partir destas duas perspectivas, pode-se observar a relação entre indivíduos e coletividades: “o direito está estabelecido porque somos essencialmente humanos enquanto indivíduos ou porque processamos historicamente lutas e engajamentos que constroem nossas equivalências de direitos e nossa condição humana?” (p. 67). Dessa forma, argumenta que, tanto a compreensão naturalista, quanto a culturalista – que ele chama de comunitarista – têm norteado as discussões na arena política, como também entre as/os psicólogas/os que se dedicam a problematizar ontológica e epistemologicamente a natureza de seu objeto e os efeitos produzidos por suas práticas profissionais. Mas qual sentido seria comumente adotado pelas/os psicólogas/os quando falam em direitos humanos?
Historicamente a psicologia, tem tomado o sujeito com uma concepção essencialista e naturalizada. Dessa forma, faz ver e falar sobre certas subjetividades no âmbito de suas práticas, especialmente aquelas desenvolvidas nos equipamentos públicos, cuja abstração e universalidade alinham-se aos pressupostos difundidos pelos Estados Liberais, desde o advento da modernidade: liberdade, igualdade de direitos e cidadania (Foucault, 2004a, 2004b; Guareschi, 2012a, 2012b). A construção do Estado moderno ao tomar por base estes princípios, enuncia tratamentos, chances ou oportunidades igualitários, como se não existissem diferenças sociais, culturais, econômicas, raciais ou sexuais entre os sujeitos.
Guareschi (2012b), a partir das contribuições de Pinto (1999), comenta sobre a igualdade - seus princípios e valores universalizantes – que labora como um estandarte da democracia moderna e dificulta a incorporação e o reconhecimento de novos direitos ou necessidades alternativas, a partir da proposição “ingênua” de que o espaço público é para todas/os, como se todas/os fossem iguais e pudessem usufruir do que é público da mesma forma. A partir dessa crítica, Pinto (1999) propôs uma análise sobre o espaço público idealizado por Jürgen Habermans21, a partir das contribuições duas autoras feministas: Nancy
21Habermas defende uma ética universalista, formalista e cognitivista. Para ele, os princípios
éticos não devem ter conteúdo, mas garantir a participação dos interessados nas decisões públicas através de discussões (discursos), em que se avaliam os conteúdos normativos demandados naturalmente pelo mundo da vida. Sua teoria discursiva pode ser considerada em prol da integração social e, como consequência, da democracia e da cidadania. Tal teoria coloca a possibilidade de resolução dos conflitos vigentes na sociedade não com uma simples
Fraser e Iris Young, que sugerem teorias diferentes para pensar esta temática. Fraser indica a necessidade de uma transformação estrutural da esfera pública que contemple as exclusões e injustiças, a partir da Teoria do Reconhecimento e Distribuição. Criticando os princípios sobre os quais se organiza o modelo liberal de esfera pública, Fraser aponta, em primeiro lugar, para o fato desta esfera ter sido construída sobre exclusões, as quais a constituíram como branca, burguesa e masculina. Em segundo, chama a atenção para o fato de que quando a inclusão acontece, este sistema “coloca as diferenças entre parênteses e, tratando todos como se fossem iguais, discrimina os menos poderosos ou os diferentes” (Fraser in Pinto, 1999, p. 65). Já Young, ao sugerir o que chamou de Teoria do Arco Íris, discute uma ruptura em relação ao caráter universal da cidadania e da democracia. Para superar essa contradição, a autora “acena para a ruptura da noção de universal e propõe a existência da cidadania diferenciada constituindo um público heterogêneo contrapõe-se ao cidadão universal” (Young in Pinto, 1999, p. 60).
Estas perspectivas se aproximam das críticas de Mouffe (2010)22, para quem o modelo liberal moderno, atrelado à matriz ocidental de democracia, tem sido apresentado como único regime capaz de implementar – e garantir – os direitos humanos. A universalização dos destes direitos passou a ser vista, na opinião da autora, como dependente do modelo ocidental de democracia. Mouffe assim critica o modelo de democracia proposto por Habermans e censura o fato de a democracia liberal ser apresentada como sendo o bom regime, o único e legítimo regime, que seria escolhido por pessoas racionais, tomadas em condições idealizadas. Para ela, a visão dominante encontrada em diferentes correntes políticas, afirma que o progresso moral requer a aceitação do modelo ocidental de democracia, como única célula possível para a implementação dos direitos humanos. Para tanto, a autora adverte contra a consensualidade universal das noções de direitos e de humanos, argumentando em favor da concepção pluralista capaz de permitir espaço não somente para o pluralismo das culturas e dos modos de vida, mas também de bons regimes políticos. Em suas palavras: “em meu ponto de vista, instituições democráticas liberais e a linguagem ocidental dos direitos humanos representam somente um possível jogo de
solução, mas a melhor solução - aquela que resulta do consenso de todos os concernidos. Habermas defende como proposta para a sociedade um espaço de diálogo, cujo entendimento mútuo, provindo do agir comunicativo, será um importante facilitador da coordenação de ações e servirá de base para a defesa da democracia no cenário político, com a crítica da repressão, censura e de outras medidas que não propiciam o diálogo dentro da sociedade (Moraes, 2006).
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Ideias apresentadas em uma palestra proferida pela autora quando da sua visita ao Brasil em maio de 2010 (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=OtCI-UEuYT0) .
linguagem política, entre outros, como também não pode se afirmar que possuem uma relação privilegiada com a racionalidade”.
Para Guareschi (2012b) pensar como estas questões reverberam no campo da psicologia, e analisar como a profissão trabalha a questão dos direito humanos ao se inserir nas políticas públicas, desvela as construções produzidas acerca dos entendimentos sobre público e privado. Nesta seara, pondera que a psicologia, na intenção de apreender o sujeito, a cidadania e as suas práticas profissionais, tem produzido dicotomizações que separam o que é do sujeito - e para o sujeito- no espaço privado e no espaço público, de tal forma que a/os profissionais passam “não só a adotar e a trabalhar dentro de uma lógica do privado, mas, sobretudo, entendendo [...] tudo aquilo que é do sujeito e que este representa e produz, como tendo sua origem no privado, no individual, no familiar” ( p. 48).
As perspectivas mais críticas, que ressaltam as contradições relacionadas ao campo do direito, oferecem elementos analíticos interessantes para uma discussão sobre a psicologia, os direitos humanos e as políticas públicas, mas tampouco estão isentas de nos apresentar desafios quanto à legitimação dos próprios direitos humanos, que se veem como uma perspectiva parcial, contraditória, localizada e dependente de ações sociais mais amplas. Após o filtro da crítica, já não se pode ter uma confiança singela nos direitos humanos, mas isso não pode confundir-se, no entanto, com sua liquidação universal, tão ao gosto do senso comum conservador.
Na intenção de responder às questões levantadas e romper com o histórico naturalismo que perpassa a concepção de direitos humanos e as práticas psi, faz-se necessário um resgate histórico sobre a constituição destes direitos na modernidade e seus efeitos de poder.
3.3 OS DIREITOS HUMANOS, A PSICOLOGIA E SEUS MODERNOS DISPOSITIVOS