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1 FUNDAMENTOS POLÍTICOS DO DIREITO AO SILÊNCIO

3.2 O PARADIGMA DA FILOSOFIA DA VIDA

3.3.2 A Pulsão

O conceito de pulsão, como a definiu FREUD, é o limite entre o psíquico e o somático. Assim o entende porque se não trata de mero impulso psíquico para satisfação de uma necessidade do corpo. A pulsão não é meramente orgânica, tal como, por exemplo, o impulso instintual dos animais.

Nada obstante, também não pode ser ela confundida com um mero impulso psíquico que levaria o sujeito a uma satisfação qualquer através dos objetos. A pulsão é uma força constante que tem como alvo uma satisfação que é sempre incompleta (daí a abertura para mudança, para a possibilidade do amanhã).

Sobre as pulsões, a psicanálise entende que o ser humano, ao contrário dos animais, é inserido involuntária e diretamente no mundo da cultura, pois depende, integralmente e no início de sua vida, de outras pessoas que o alimentarão, trocarão, agasalharão, ou seja, suprirão suas amplas necessidades. Não têm instintos que o levem até, por exemplo, ao seio da mãe para se alimentar.

Por isto, as tensões sentidas em seu corpo já estão inseridas na cultura, a partir do momento que são nomeadas por outras pessoas. Por exemplo: diz-se "o bebê ta com fominha"; "não, é só manha", contesta-se;

"talvez seja sono, frio, ou calor".

As tensões primordiais do bebê, concretizadas a partir da interpretação dos outros que o rodeiam, geram uma sensação de satisfação plena, que nunca mais será encontrada, mas sempre será buscada, remetida,

297 "Nesse sentido, Jean-Jacques Moscovitz chama atenção para o fato de o termo alemão que designa o inconsciente, Unbewusste, significar literalmente insabível, acrescentando que o consciente seria um saber que se sabe e o inconsciente um saber que não se sabe". (JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. 3.ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, p. 66).

referida como experiência padrão.

A busca se dá, a rigor, pela homeostase, ou seja, pela ausência de tensão, situação inicialmente vivida após o nascimento ou mesmo intrauterinamente.

Mas a realidade é dura e disto já sabe o bebê desde seus primeiros meses. Afinal, muitas vezes a pessoa responsável pela satisfação de suas necessidades está ausente e o jogo presença-ausência, impõe aquilo que se chamou de princípio da realidade.298

O bebê deve, para melhor conviver com este jogo, adiar sua satisfação para um momento posterior - no caso, o momento da chegada do responsável.

Este adiamento fora por Freud chamado de princípio da realidade.

A partir da situação acima narrada e da leitura da obra freudiana, identificam-se os princípios do prazer, da realidade e do nirvana (também chamado de princípio de morte).

Sobre o princípio do prazer, Freud, em Além do Princípio do Prazer299, sustenta a hipótese de que o curso dos eventos mentais é por esse princípio regulado. Sustenta, noutras palavras, que o curso dos eventos mentais é colocado em movimento por uma tensão desagradável e, como resultado, tem-se a redução de tal tensão através de um suprimento imediato da necessidade, de um afastamento da situação de desprazer ou, ainda, de uma satisfação imaginária (alucinatória).

O que se entende por prazer e desprazer tem relação com a quantidade de excitação presente na mente: um aumento na quantidade de excitação (tensão) é sentido como desprazer, enquanto que uma diminuição se revela prazerosa.

Segundo FREUD, o aparelho mental esforça-se por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível ou constante, estável.

298 LACAN, Jacques. O seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.

4 ed. Trad. M.D. Magno. São Paulo: Jorge Zahar, 1990. p. 29.

299 Freud, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira (trad. Jayme Salomão). v. 18 - Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Desse modo, qualquer coisa que aumente essa quantidade é sentida como adversa ao funcionamento do aparelho, ou seja, como desagradável, desprazerosa, dolorosa.

Vida é, portanto, tensão. Morte (princípio do nirvana), ao contrário, é ausência de tensão, satisfação total da pulsão que, enfim, encontra seu objeto (este, a rigor, ausente).

Nada obstante, essa construção é uma constatação empírica da prática da psicanálise e não um objetivo da teoria freudiana. A vida, como tensão, teria como objetivo o alívio desta e, como tal, sempre beiraria à morte.

Assim, a plena satisfação apenas ocorre com a morte, o que não é, a princípio, desejado conscientemente pelos sujeitos.

A pulsão de morte pura, ou completa, é a própria morte. A pulsão de vida pura, ou completamente satisfeita, não existe concretamente e, portanto, equivale à morte. Assim, para FREUD, a dialética pulsional traz em seu bojo, justamente, vida e morte, que se equilibram em uma satisfação insatisfeita (ou satisfação parcial).

Ora, se houvesse satisfação total, não haveria motivo para viver o amanhã; por outro lado, se não houvesse um pouco de satisfação, do mesmo modo, motivo para o amanhã não haveria.

Vale registrar que no citado Além do Princípio do Prazer Freud rearticulou sua primeira formulação teórica sobre as pulsões, na qual opunha as pulsões recalcantes do eu às pulsões sexuais. Equivale dizer, as pulsões do eu e o par de opostos “pulsões do eu / pulsões sexuais” são substituídas por uma nova proposta, na qual Freud reagrupa os movimentos libidinais sob o termo único pulsões de vida, opondo-o ao termo pulsão de morte.

O alvo das pulsões de vida é a ligação libidinal, isto é, a configuração dos laços, por intermédio da libido, na cadeia de significantes. As pulsões de vida tendem a tudo investir libidinalmente e a manter a coesão das partes da substância viva.

As pulsões de morte, por sua vez, visam ao desligamento, ao desprendimento da libido dos objetos e ao retorno inelutável do ser vivo à

tensão zero, ao estado inorgânico. NASIO300 esclarece que a “morte” que rege essas pulsões nem sempre é sinônimo de destruição, guerra ou agressão: as pulsões de morte representam a tendência do ser vivo a encontrar a calma da morte, do repouso e do silêncio.

Registra-se, ainda, a existência de um traço comum identificado por Freud entre as pulsões de vida e as de morte: ambas visam a reestabelecer um estado anterior no tempo, agradável ou desagradável, com ou sem tensão.

Noutras palavras, ambas visão à repetição.

A pulsão de repetir é, pois, primária e fundamental, é a pulsão das pulsões; é a compulsão de retornar o que não foi concluído, com vontade de completá-lo: essa é a explicação para o desejo ativo do passado, mesmo que o passado tenha sido ruim para o eu.

A compulsão a repetição seria o desejo de retornar ao passado e rematar, sem entraves nem desvios, a ação (a satisfação, a completude ou o conhecimento) que se revelou impossível (como se as pulsões inconscientes nunca se resignassem a ficar condenadas ao recalcamento).

Interessa aqui ressaltar que, ao viver o desejo ativo do passado, o vivente faltante (que se assume responsável e especialmente responsável pelo desconhecido, pelo estranho, pelo outro que nele pulsa) pode transformar a realidade.

Destaca-se, ainda, que é no ritmo da pulsão que se (des)atam os significantes e se (des)constroem os sentidos dos discursos.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 99-102)