1. OS DEBATES SOBRE A PUNIÇÃO
1.1. Apontamentos sobre punição: uma ênfase no controle social
1.1.1. A punição em uma perspectiva de poder difuso
Foucault é amplamente conhecido como uma grande referência para a Sociologia da
Punição. Sua contribuição mais explícita neste campo é a obra “Vigiar e Punir” (1999). É
importante destacar que a compreensão das obras de Foucault não devem se restringir a uma
análise dos fatos, mas sim do método, do pensamento
8. É essencial entender seus escritos
como caixas de ferramentas e que, por isso mesmo, discussões de livros como “Vigiar e
Punir” (1999) e “História da Loucura” (1978) não devem, obrigatoriamente, buscar pela sua
atualidade (ALVAREZ, 2015). Os múltiplos usos que se pode fazer de uma caixa de
ferramenta como “Vigiar e Punir” torna sua adoção complexa em uma pesquisa como esta.
É possível interpretar “Vigiar e Punir” em um diálogo com “História da Loucura”,
afinal estas obras tratam de uma análise sobre as formas de exclusão e dos caminhos
institucionais para a formatação (normalização/disciplinamento) dos indivíduos. Em ambos os
textos, Foucault analisa criticamente a noção de uma mudança positiva das instituições como
a prisão e o manicômio.
Há que se considerar que a perspectiva de Foucault é significativamente distinta das
abordagens marxistas, pois não dá ênfase à estrutura social, e também não pode ser
interpretada como mais atrelada à perspectiva de Durkheim, já que não prioriza a ordem
moral. Trata-se de uma abordagem que se dedica a uma análise do funcionamento do aparato
e a liberdade do mercado como que suas ações violentas podem ser consentidas, ou melhor, torna-se duvidoso pensar em legitimidade se a segurança dos indivíduos e de seu território ganha uma importância secundária. As manifestações de março de 2014 no Brasil se constituíram como palco desta atuação ilegítima do Estado, não apenas pelo fato da polícia agir de maneira truculenta (e seletiva) e com violência desproporcional, mas também por essa atitude revelar que o recurso da violência por parte do Estado pode não estar em serviço da segurança da população prioritariamente (talvez de uma pequena parcela, sim), mas sim do mercado; contrariando os preceitos democráticos.
8Convencionou-se organizar a obra de Foucault em três fases: a arqueológica, a genealógica e a ética. No primeiro momento a preocupação ou interesse de Foucault estava voltado aos saberes (arqueologia); a fase genealógica é marcada pelo poder e a busca pela explicitação de sua capilaridade; por fim a ética trata de maneira mais recorrente o sujeito que ganha forças. No entanto, é fundamental ressaltar que a complexidade de suas obras nem sempre permite essa organização. Como exemplo: é muito difícil enquadrar a obra “História da Loucura” em uma destas fases, pois ele trata dos saberes, do poder e também do sujeito. Enfim, para um pensador que utilizou de tantas matrizes é muito pouco provável que uma organização simples como essa dê conta da totalidade de seus escritos e ditos.
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de punição, estudando as tecnologias de poder que permeiam este objeto. É um esforço para
compreender os elementos de vigilância e de disciplina presentes nas instituições penais, bem
como dos discursos da punição.
Ainda que a aproximação com outras tradições do pensamento sociológico seja tarefa
difícil, ou quase impossível, a escolha por apresentá-lo em seção com autores como Rusche e
Kirchheimer, Bauman e Wacquant, é o entendimento que estes autores tem de que a punição
exerce, em contextos distintos, um controle social
9. Alvarez (2004) disserta sobre a noção de
controle social e entende que se trata de um conceito precariamente analítico, quer dizer que a
noção de controle social é amplamente utilizada, mas sem que se reconheça as delimitações
conceituais. No entanto, é possível classificar a tradição marxista com a perspectiva de
Foucault (ligadas intimamente com o controle social) como interessadas no poder, uma
pensando o poder centrado no Estado e que o exerce com propósito ideológico, a outra
considerando o poder disseminado em capilaridade social. Ambas abordagens são distintas de
autores com Durkheim e Elias que, por sua vez, concentram suas análises na ordem moral ou
nas sensibilidades, ou seja, o aspecto cultural
10.
[...] a interpretação marxista situa a punição dentro de um contexto de relações de poder, organizados em classes sociais e apoiados por um modo de produção explorador; em alguns casos a descreve como um instrumento de poder do Estado, utilizado com propósitos repressivos ou ideológicos. Mas essa orientação marxista tende a observar a pena a partir do exterior, por assim dizer, mostrando o efeito deste contexto de classe em formas penais e nas maneiras como se utilizam as sanções penais. Em contraste, Foucault concentra-se em relações de poder internas de processo penal, analisando-as em detalhe, juntamente com as técnicas e conhecimentos que as envolvem. Apresenta uma interpretação fenomenológica das relações penais como relações de poder; uma análise interna sobre como se estruturam as instituições penais, como exercem o controle e como recebem informação de formas particulares de conhecimentos e técnicas (GARLAND, 1999b, p. 162, tradução nossa)
Em “Vigiar e Punir” há um esforço para compreender o movimento de ruptura entre
dois estilos penais: o suplício e a prisão. A questão que paira sobre o livro é como todo o
espetáculo, o teatro e o ritual do suplício que vigorava até o final do século XVIII e início do
século XIX se transformou, em um curto espaço de tempo, em um novo estilo penal que é a
9Vale ressaltar que não se pretende com isso elaborar uma aproximação (impossível) destes autores em um sentido mais amplo, apenas para efeito de organização do texto é que se realizou esta escolha. Trata-se de um consenso acadêmico de que a perspectiva foucaultiana é por diversas vezes crítica à tradição marxista, sobretudo do que diz respeito à localidade do poder, mas também em relação ao método.
10Apesar de Garland (1999b) argumentar que Durkheim e Foucault apresentam uma visão funcionalista da punição, aspecto que os aproxima.
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prisão? Ou mesmo, a tentativa de compreender as ressonâncias entre continuidades e rupturas
presentes neste contexto.
A punição vai-se tornando, pois, a parte mais velada do processo penal, provocando várias consequências: deixa o campo da percepção quase diária e entra no da consciência abstrata; sua eficácia é atribuída à sua fatalidade não à sua intensidade visível; a certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte de violência que está ligada a seu exercício. (FOUCAULT, 1999, p. 13)
O antigo regime de punição era marcado pela técnica do suplício. Execuções em praça
pública, rituais de atrocidades, os escárnios marcavam em sobremaneira o corpo do
condenado, tratava-se de um espetáculo como demonstração do poder do soberano. Vale
ressaltar que, ainda que o suplício tenha elementos que o aproximem de um ato de crueldade
por si só, é preciso reconhecer que ele é permeado por uma lógica específica, com
delimitações e rigor nas técnicas para obter quantidades de sofrimento bem determinadas.
Sofrimento que deve ser hierarquizado e bem adequado ao crime cometido.
O nascimento da prisão marca a mudança do estilo penal e demonstra, para Foucault,
como se exerce o poder nos tempos modernos. Não se deve atribuir uma redução da
intensidade dos castigos com a adoção da prisão como forma de punição, pois a mudança está
mais em um âmbito qualitativo, ou seja, as medidas estão destinadas a afetar, não mais o
corpo, mas sim a alma do condenado (GARLAND, 1999b).
A nova tecnologia penal tem como característica ser permeada de mecanismos e
dispositivos de disciplina. O poder disciplinar que se constitui com modos de vigilância e de
controle sobre os corpos, possui de acordo com Foucault um aspecto positivo, produzindo
corpos dóceis e úteis. Ainda neste sentido, a sutileza dos dispositivos que regem a disciplina e
a aparente humanização dos métodos punitivos atinge os objetivos de controle social com
eficácia. As práticas disciplinares têm como característica superar os muros das prisões, pois
as tecnologias de poder que se constituem no âmbito das instituições penais são replicadas em
outros contextos (hospitais, escolas, entre outros). Alvarez (2008) faz referência a este
posicionamento de Foucault:
[...] o declínio do caráter supliciante das penas não foi uma simples vitória dos valores humanistas, mas implicou toda uma reorganização das formas de governo dos indivíduos e das populações no Ocidente, a partir das quais novas formas disciplinares de poder se espalharam nas mais diversas instituições. No âmbito penal, mesmo que a prisão disciplinar tenha se tornado a instituição-chave das novas políticas criminais, permaneceu um fundo supliciante nas prisões-modelo e nas práticas disciplinares mais austeras (ALVAREZ, 2008, p. 4)
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