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1. CAPÍTULO

3.1 Ética do cuidar

3.1.3 A qualidade do cuidar

A ética da vida apresenta-se como um dos grandes desafios a ser enfrentado por aqueles que se preocupam com uma conduta humana diante de situações ou contextos que envolvem o próprio homem, no plano biológico, moral ou social. A ética não se preocupa com as coisas como são, mas com as coisas como podem ser e, especialmente, como devem ser realizadas ou executadas. A dimensão ética da responsabilidade está presente em todas as ações no processo de cuidar; por isso, é da responsabilidade de todos os homens assegurar ao doente o direito a uma assistência livre de riscos e danos, físicos e psicológicos.

Cuidar significa, como anteriormente exposto, atenção, solicitude, escuta, preocupação, que surge quando a existência de alguém tem importância para uma outra pessoa, participando, desta forma, nos sofrimentos e nos sucessos da outra vida à qual me disponho . A natureza da palavra cuidado inclui duas significações básicas, intimamente 216

ligadas entre si: a primeira, uma atitude de solicitude e de atenção para com o outro; a

segunda, de preocupação e de inquietação, que advém do envolvimento e da ligação afetiva

com o outro por parte da pessoa que cuida.

“Sem o cuidado não há o humano; o cuidado é anterior ao espírito e ao corpo. O espírito humaniza-se e o corpo vivifica-se quando são moldados pelo cuidado. Caso contrário, o espírito perde-se nas abstrações e o corpo confunde-se com a matéria informe. Sem cuidado, o ser humano definha e morre. O homem é quem faz surgir o ser humano complexo, sensível, solidário, cordial e conectado com tudo e com todos no universo” . 217

O cuidado é uma relação amorosa com a realidade; por isso, sem cuidado, a vida não sobrevive. Também as relações, se não cuidadas, acabam por terminar, daí que o processo

Sobre este tema ver W. HESBEEN, Dizer e escrever a prática do cuidar do quotidiano. À descoberta do

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sentido do cuidado de saúde, Lusociência, Loures, 2009, 109-115.

L. BOFF, Saber cuidar; ética do humano - compaixão pela terra, 34.

relacional deva ser dinâmico e constante em todos os momentos de encontro com o outro. “Diante do outro, ninguém pode ficar indiferente; tem que tomar posição. Mesmo não tomando posição, silenciando e mostrando-se indiferente, isto já é uma posição” . 218

O cuidado ativa no homem um comportamento de compaixão, de solidariedade, de ajuda, no sentido de promover o bem do outro. Por isso, o cuidado, tomado como proposta ética, não se resume a um ato isolado, mas a uma atitude, a um modo-de-ser, ou seja, a maneira como a pessoa estrutura e funda as suas relações com as coisas, os outros, o mundo e, também, consigo mesma.

“Um dos grandes desafios existenciais consiste em cuidar de si mesmo. Esta afirmação torna- se cada vez mais verdadeira, tratando-se do mundo atual, onde temos a obrigatoriedade de sermos os melhores e autossuficientes. Esse processo fomenta, no mínimo, uma fragilidade, ou mesmo, uma rutura do conviver, onde teremos, como resultado, relações superficiais e vínculos efêmeros. Esse homem esquece, ou deixa em segundo plano, de ser e de conviver (o viver com) na busca incessante do ter. Ele preocupa-se com a aparência externa, deixando de lado o cuidado com a sua essência e, assim, sofre e adoece. Acreditamos, então, que, para se resgatar o verdadeiro sentido do cuidado, faz-se necessário e urgente que o homem tenha, principalmente, a consciência do que ele é, pelas suas capacidades e fragilidades, e o que ele efetivamente quer. Ou seja, o homem precisa fazer o exercício da autoética (autoconsciência e autocrítica) balizada pela sensibilidade, criatividade, humildade, resiliência, responsabilidade e consciência da finitude humana, dando significado ao viver. O homem precisa cuidar-se para poder cuidar” . 219

Um cuidado mais humano possibilita a sensibilidade para com a experiência humana e o reconhecimento da realidade do outro, como pessoa e como sujeito, com as suas singularidades e as suas diferenças. A capacidade de agir eticamente quando cuidamos é uma

Ibidem.

218

K. AMORIM, “O cuidado de si para o cuidado do outro”, Revista Bioethikos 7 (2013) 437. Para se

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resgatar o verdadeiro sentido do cuidado, é necessário e urgente que o homem tenha, principalmente, a consciência do que ele é, e o que ele efetivamente quer. Ou seja, o homem precisa de se cuidar. Esse cuidado de si inicia-se pela necessidade de uma autoética (autoconsciência/autoanálise e autocrítica). Dentro desta proposta, o cuidado de si necessita, principalmente, da busca para compreender e organizar as duas porções do ser sujeito: a sua essência egocêntrica e a sua essência altruísta.

‘virtude ativa’ que requer uma vontade natural de cuidar. O conhecimento das nossas potencialidades e limitações diante da complexidade da ação cuidadora é fundamental para uma ‘cuidada ética do cuidar’. Temos limitações que precisam de ser superadas, e é preciso, a cada nova experiência, tentar construir a nossa própria identidade sobre o ‘pano de fundo’ da nossa missão, que é cuidar da vida dos seres humanos.

Ao cuidarmos de alguém, é importante estarmos presentes física e psicologicamente com essa pessoa. Falar nem sempre significa importar-se ou prestar atenção, mas a capacidade de escutar permite que identifiquemos o momento apropriado para a fala. Neste sentido, o silêncio também é um método fundamental na ética do cuidar.

Para uma qualidade do cuidar é fundamental ter presente alguns aspetos, que urgem atualmente na prática do cuidar : ser mais consciente de si, estar concentrado na relação, 220

escolher entre envolver-se ou não se envolver, prestar atenção na comunicação não verbal, utilizar melhor o tempo disponível, gostar do que se faz, estimular o paciente a participar das decisões sobre o seu tratamento, buscar/aliviar a dor e o sofrimento, aceitar a morte quando ela é inevitável, assistir a família nos horários de visita e conviver harmonicamente com a equipa multiprofissional.

A ética do cuidar fundamenta as funções e as responsabilidades para com o outro, para com o meu próximo. Quando repensarmos a forma como cuidamos, passamos a valorizar os gestos e atitudes, daí que a ética nas relações seja fundamental, principalmente, porque por meio delas podemos tanto descobrir quem realmente somos, quanto refazer o que nós próprios somos.

Cf. A. PUGGINA - M. SILVA, “Ética no cuidado e nas relações: premissas para um cuidar mais

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