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A qualidade do sono como marcador de saúde

No documento Tese Final Macela Zambrim (páginas 34-37)

Para perceber a importância do sono, basta passar uma noite sem ele; sentimo- nos fisicamente esgotados, o humor é afetado e o pensamento torna-se lento e sem foco. O sono desempenha um papel reconstituinte e revigorante no cérebro (SAPER et al., 2005; KILLGORE, 2010). A qualidade do sono pode ser definida como a capacidade em manter o sono em estado ótimo por longos períodos durante a noite (BUYSSE et al., 1989). Adicionalmente, este conceito inclui a facilidade para adormecer, a quantidade suficiente de sono, a sensação de descanso ao despertar e ausência de sonolência diurna excessiva (BERTOLAZI, 2008).

Observou-se que transtornos na duração e na qualidade do sono têm impacto na saúde e na qualidade de vida (FAUBEL, LOPEZ-GARCIA, GUALLAR-CASTILLON, BALBOA-CASTILLO, et al., 2009), e associam-se ao relato de uma pior qualidade de saúde e de um pior bem-estar geral (GRANDNER, PATEL, et al., 2010; OLIVEIRA et al., 2010). Problemas no sono estão associados à diminuição da tolerância à glicose e ao aumento da resistência à insulina (MESARWI et al., 2013). Além disso, associam-se ao aumento dos níveis de grelina e à diminuição dos níveis de leptina (TAHERI et al., 2004), dois hormônios de ações opostas com papéis-chave na regulação da fome e da saciedade, resultando em aumento do apetite. Estudos epidemiológicos também sugerem que a falta de sono está associada à maior ingestão de alimentos ricos em lipídeos (GRANDNER, KRIPKE, et al., 2010). Assim, existem evidências do envolvimento do sono em condições como obesidade (CAPPUCCIO et al., 2008;

NIELSEN et al., 2011), síndrome metabólica (JU e CHOI, 2013), doenças cardiovasculares (NAGAI et al., 2010; CAPPUCCIO et al., 2011) e diabetes (CAPPUCCIO et al., 2010a), além de mortalidade em adultos (KURINA et al., 2013).

O sono em excesso também se relaciona a piores condições de saúde. Dormir mais de 8 horas associa-se com limitações funcionais (EUMANN MESAS et al., 2011), comprometimento cognitivo (FAUBEL, LOPEZ-GARCIA, GUALLAR-CASTILLON, GRACIANI, et al., 2009) e mortalidade (CAPPUCCIO et al., 2010b).

Além do sono noturno, diversos estudos dedicaram-se à avaliação dos cochilos diurnos e a sua relação com a saúde. Há evidências do benefício de cochilos curtos (menos de 30 minutos) na cognição, no aprendizado e na promoção da vigília (HILDITCH et al., 2017, DHAND e SOHAL 2006). Contudo, cochilos de mais de 30 minutos se associaram a perda de produtividade e maior probabilidade de inércia do sono (HILDITCH et al., 2017).

Uma metanálise com 288,883 pessoas concluiu que cochilos de mais de 60 minutos foram associados a maior risco de desenvolvimento de diabetes do tipo 2. Adicionalmente, os autores observaram uma curva em J na relação entre o tempo de cochilo e o risco de diabetes ou de síndrome metabólica, sendo que não foi observado efeito de cochilos de 40 minutos por dia, seguido de um aumento acentuado do risco em pessoas que dormiam cochilos mais longos (YAMADA et al., 2016).

Outra metanálise avaliou a associação entre cochilos diurnos e o risco de doenças cardiovasculares e mortalidade em 151,588 participantes. Cochilos de 60 minutos ou mais se associaram a maior risco de doenças cardiovasculares e mortalidade, comparados com não dormir durante o dia. Cochilos de menos de 60 minutos não se associaram a nenhum dos desfechos. Da mesma forma que com a diabetes e a síndrome metabólica, foi encontrada uma curva em J entre o tempo de cochilo e doenças

cardiovasculares (YAMADA et al., 2015). Ambas as metanálises citadas reiteram a necessidade de mais estudos avaliando possíveis efeitos de cochilos curtos na saúde (YAMADA et al., 2015; YAMADA et al., 2016).

A privação do sono ativa mecanismos compensatórios de aumento nos níveis de glicocorticoides, hormônios-chave na manutenção do estado de vigília e ao aumento da atividade do sistema nervoso simpático (BESEDOVSKY et al., 2012). Uma revisão recente demonstrou que diferentes parâmetros de sono (tanto objetivos quanto subjetivos) podem potencializar a reatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), em especial a liberação de cortisol. Dessa forma, alguns autores sugerem que a sensibilização exacerbada do eixo HHA pode ser crucial na relação entre sono e desordens relacionadas ao estresse (DALFSEN e MARKUS, 2017).

As alterações na função do eixo HHA causadas pela privação crônica de sono podem levar a efeitos cumulativos (GRANDNER, PATEL, et al., 2010; BECKER et al., 2017). Segundo Killgore (2010), regiões parietais e do córtex pré-frontal dorsolateral são particularmente sensíveis aos efeitos de noites mal dormidas. Essas regiões estão relacionadas à aprendizagem, à consolidação da memória, à criatividade, ao raciocínio, aos estados emocionais e à cognição. Assim, aspectos neurocomportamentais são prejudicados, sobretudo a percepção e o comportamento cognitivo, que participam diretamente no relacionamento do indivíduo com seu ambiente. Esses aspectos são determinantes para o desempenho e para a saúde, podendo resultar em redução da atenção sustentada e da vigilância psicomotora e aumento na variabilidade das respostas comportamentais (HARRISON e HORNE, 2000; ROTH et al., 2001; KILLGORE et al., 2006; KILLGORE, 2010).

As funções afetivas, consideradas fundamentais para a personalidade e para a interação social, também são diminuídas, o que pode prejudicar a inteligência

emocional. Alterações de humor, redução da tolerância à frustração, dificuldade de tomada de decisão e de mudança de estratégia e problemas de controle inibitório e de julgamento moral são algumas das consequências (HARRISON e HORNE, 2000; ROTH et al., 2001; KILLGORE et al., 2006; KILLGORE et al., 2007; GRANDNER, PATEL, et al., 2010; KILLGORE, 2010). Assim, a privação do sono pode dificultar habilidades interpessoais e habilidades adaptativas de enfrentamento, afetando a socialização e aumentando a possibilidade de frustrações (KILLGORE et al., 2008). Estudos também sugerem que, por prejudicar recursos cerebrais de autocontrole, noites mal dormidas podem predispor um comportamento antiético (KILLGORE et al., 2006; BARNES et al., 2011).

Por fim, o estresse e as experiências vivenciadas no trabalho podem prejudicar a qualidade e quantidade do sono. Da mesma forma, por afetar diferentes aspectos comportamentais e de interação entre indivíduo e ambiente, problemas relacionados ao sono podem influenciar aspectos laborais. Na próxima seção, será explorada a relação entre sono e trabalho, com ênfase na profissão docente.

No documento Tese Final Macela Zambrim (páginas 34-37)

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