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PARTE I – QUANTIDADE E QUALIDADE

2 O AVESSO DA QUALIDADE

2.4 A qualidade: uma questão de perspectiva

Nos itens anteriores, discutiu-se sobre quantidade e qualidade buscando introduzir aspectos relevantes sobre o conceito de qualidade a partir da perspectiva da administração e produção capitalistas. No esforço de construir um conceito para a qualidade, orientei-me a partir daquilo que parecia óbvio: a necessidade faz o homem estabelecer objetivos para satisfazê-la. Quando os alcança, atribui qualidade aos resultados obtidos, sejam eles materiais ou não, e deseja algo ainda melhor para satisfazer aquela necessidade ou tem seu repertório de necessidades ampliado.

Terezinha Azêredo Rios (2001) defende que o termo qualidade necessita receber um adjetivo. Ela prefere dizer “boa qualidade” ou “melhor qualidade” a fim de garantir que não se trata de qualquer qualidade. Adjetivar a qualidade significa dar qualidade ao próprio termo qualidade. Significa caracterizar, descrever e associar a ela adjetivos como “boa” ou “melhor”. Não se trata, portanto, de uma qualidade qualquer, mas da “melhor qualidade” (RIOS, 2001). A discussão empreendida por essa autora leva a inferir que um conjunto de atributos é necessário para atribuir qualidade a algo, por exemplo, à educação. Nesse sentido, o termo qualidade, no contexto da avaliação de uma educação com qualidade, indicaria não somente “um atributo, uma propriedade, mas consistiria num conjunto de atributos, de propriedades que caracterizariam a boa educação.” (RIOS, 2001, p. 68-69, grifos no original). Um conjunto de atributos, portanto, é necessário para definir a qualidade de algo. Retomando a afirmação de Gramsci (1995) que certa qualidade contrapõe-se a outra qualidade, observa-se que a “boa qualidade” confirma a existência de seu oposto: a “má qualidade”. A “melhor” e a “pior” qualidade são estabelecidas a partir do confronto entre elas. Afirma-se uma ao depreciar a outra. Nesse contexto, a expressão de qualidade22 exprime o resultado de uma

análise realizada entre determinado produto ou serviço em relação a outros. Mas como se dá essa análise?

O indivíduo expressa a qualidade de um produto ou serviço quando identifica que outros, embora tenham a mesma utilidade, perdem em algum aspecto funcional ou estético quando comparados. Se considerarmos a ideia de qualidade como um conjunto de atributos, temos que inferir que certos atributos não são esperados, enquanto outros são desejados. Isso

22 A partir do que explicamos anteriormente, utilizamos essa expressão para afirmar que educação de qualidade é

uma condição que, continuamente, deve ser aprimorada. Se isso é correto, nunca poderemos ficar satisfeitos com a qualidade da educação porque temos que melhorá-la sempre.

fica evidente, por exemplo, no caso da qualidade do leite que abordamos anteriormente. Certos atributos vão caracterizar sua melhor ou pior qualidade e, haverá casos, em que mesmo não tendo a qualidade adequada para o consumo pelo homem, um produto terá, aparentemente, boa qualidade. Uma acidez elevada, por exemplo, é um atributo indesejável no leite; por outro lado, um maior teor de gordura é altamente desejado se o leite for destinado à produção de manteiga e de queijos. Apesar de ser possível identificar variações nos atributos do produto, o leite não deixou de ser o que é: um líquido secretado por glândulas mamárias que contém em sua composição: água, lactose, gordura, proteínas, substâncias minerais, ácidos orgânicos e outros. Como abordado no segundo capítulo, o leite é um produto cuja qualidade para ser adequada ao consumo humano depende, dentre outros fatores, do atendimento às normas estabelecidas pelos órgãos competentes. O produtor de leite também observa aquele conceito de qualidade relativa que abordamos anteriormente, pois visa ao lucro e por isso enquanto uns trabalham no limite das normas, outros podem recorrer a processos fraudulentos. Além disso, as normas que são estabelecidas para a produção do leite admitem variações nos percentuais de cada atributo do leite, que podem ser controladas ou não pelo produtor. Mas o consumidor não tem os meios objetivos para identificar nem as variações normais, nem as fraudes, nem os resíduos contaminantes no leite. Sua opção é confiar na fiscalização sobre a produção e na idoneidade do produtor.

Identificar o conjunto de atributos constitui uma parte do processo de avaliação da qualidade. A outra é identificar a finalidade do produto ou serviço. Essa finalidade relaciona- se, diretamente, com o valor de uso que o sujeito identifica no objeto. Para avaliar a qualidade de um produto, há que se desenvolver um processo de avaliação que, para ser aplicado, faz-se necessário que se tenha a clareza sobre a finalidade do produto ou serviço, bem como sobre o conjunto de atributos desejados e indesejados.

A partir desses questionamentos, do conceito de “qualidade relativa” utilizado pela administração capitalista e daquele de conjunto de atributos, passo a esboçar um conceito de qualidade mais abrangente que permita compreender porque cada pessoa, grupo ou sociedade atribuem valores de qualidade diferentes para um produto ou serviço, incluindo aí, a educação. Como demonstrarei, o valor da qualidade não é um sistema de valores fixos, não é um sistema métrico cujas medidas são definidas e convencionalmente aceitas por todos. Um sistema de medidas, como veremos, foi padronizado com a colaboração de uma comunidade científica, depois, foi incorporado pela indústria e imposto à população.

O indivíduo atribui qualidade tanto ao produto do seu esforço individual quanto do esforço coletivo. Como explica Ortega y Gasset (1963), o homem nada mais quer do que estar

bem no mundo, e seu repertório de necessidades constitui um sistema próprio. Assim, pode atribuir qualidade a qualquer parte da produção social, mas não a mesmíssima qualidade a toda e qualquer coisa, mesmo se ela for do mesmo gênero, pois isso depende do seu repertório, da época e da sociedade em que vive. São, portanto, aspectos que se inserem na discussão sobre a qualidade, e a ela estamos acrescentando outros a fim de expor um conceito sobre o termo, no contexto da sociedade capitalista.

O conceito de administração desenvolvido por Paro (1991), o conceito de necessidade explicado por Ortega y Gasset (1963), bem como a contribuição das teorias marxista e marginalista foram fundamentais para esboçarmos um conceito de qualidade. Paro (1991) diz que administrar é utilizar de forma racional os recursos disponíveis visando a alcançar determinados fins. Este conceito constituiu uma referência para este trabalho, pois está presente na atividade humana individual e coletiva, sendo esta a que nos interessa para compreender como a “necessidade” leva o homem a estabelecer metas e a utilizar racionalmente os recursos para alcançá-las. Entre administração e avaliação, portanto, existe uma estreita relação em que a primeira determina a realização da segunda e esta orienta as ações daquela. A avaliação existe porque o homem quer saber se conseguiu seu objetivo. Para isso, constrói processos, mais ou menos elaborados, de avaliação.

O conceito de qualidade tem sua origem não no conceito de número ou no de medidas, mas na “necessidade” que o homem tem de viver bem, ou melhor, em seu repertório de necessidades. Um conjunto de necessidades leva o homem a estabelecer metas, a utilizar racionalmente os recursos que se encontram a seu alcance e, dessa maneira, a alcançar seus objetivos. Quando o homem atinge sua meta, a coisa se materializa, torna-se um objeto e se apresenta como algo de valor e o leva a pronunciar: “isto é bom, isto não é”. O homem, explica Paro (2008, p. 82), cria algo que não existe e “ao se pronunciar diante do real (isto é bom, isto não é) ele cria um valor, fazendo-se ético”. O valor “bom” ou “ruim” não é, nesse momento, um valor econômico acerca do objeto. Ele só se torna a expressão de um valor econômico quando o valor de uso ali identificado assume, também, um valor de troca.

Marx (2008b) explica que é o trabalho humano que dá o valor à produção material ou imaterial, visto que só o trabalho humano cria valor. O valor, criado pelo trabalho humano, estará contido no objeto. Por outro lado, nada disso constituirá um processo de troca se esse objeto não tiver valor de uso para alguém. Marx (2008b) chamou de valor de uso a utilidade do objeto. Por esse valor de uso identificado, o homem poderá dizer se o objeto tem mais qualidade do que outro da mesma natureza. Observa-se, contudo, que essa utilidade que permite ao homem identificar a qualidade de um objeto, ao analisar suas propriedades, não é

exatamente a mesma que se dá durante o processo de troca. Quando o homem produz para sua própria subsistência, ele avalia a qualidade de sua própria produção a partir de suas próprias necessidades. Mas quando essa produção tem outra finalidade, ou seja, quando passa a fazer parte da produção social, esta se transforma em mercadoria e, aí, no processo de troca, confronta-se com outras mercadorias. Sua qualidade será identificada nesse confronto. Quero dizer que o homem atribui qualidade aos objetos que produz para seu consumo imediato e quando diz se é bom ou não, ele confere, portanto, alguma qualidade à sua produção. Entretanto, quando ele produz para outros indivíduos, a atribuição da qualidade à sua produção ocorre pelo julgamento dos outros indivíduos que pode não mais coincidir com a dele, produtor. Nesse momento, ou seja, durante o processo de troca, o produtor de mercadorias não é mais soberano para atribuir qualidade à sua produção. Ele atribui, mas o veredicto não é mais só dele. Nesse sentido específico, o valor da qualidade é expresso a partir da possibilidade do consumo. Essa qualidade será atribuída conforme o valor de uso do produto que cada consumidor identificar. O valor de uso constitui, portanto, um elemento central no conceito de qualidade.

Mas temos que situar o conceito de valor de uso também no tempo e no espaço, pois o homem quer o bem viver. Se o homem quer viver bem, procura utilizar os meios de que dispõe para atingir tal objetivo e põe para si a meta de viver melhor. Além disso, ele sabe que consome a própria energia para produzir sua subsistência. Dito de outra forma, para viver, o homem se consome. Ele trabalha para viver e vive a trabalhar. Nada mais natural que ponha para si mesmo o desejo de utilizar menos energia para produzir sua existência. Com o desenvolvimento da técnica, o homem pôde “economizar” suas energias e satisfazer suas necessidades desenvolvendo ferramentas, procedimentos e outros recursos. A partir do momento em que o homem desenvolve uma tecnologia, não se estabelece mais a opção de viver sem ela, mas cria-se o desejo, a necessidade de desenvolver outra melhor. O supérfluo torna-se o ideal (ORTEGA Y GASSET, 1963). As necessidades se “naturalizam”, ou seja, acabam sendo incorporadas ao cotidiano do homem assim como outras vão se apresentando. Se o homem desenvolveu uma técnica que lhe permitiu, por exemplo, cultivar seu alimento, parece razoável que ele continue a desenvolver outras que lhe permitam produzir ainda mais. O homem se move, então, por meta. Para alcançá-la, desenvolve técnicas, utiliza recursos da natureza, modificando-a e produzindo cultura. Quando alcança sua meta, o homem faz uso da “comparação” para avaliar e determinar sua satisfação diante dos resultados.

No entanto, o homem não diz apenas se é bom ou se é ruim. À medida que obtém resultados, começa a construir um sistema de referências que se fundamenta na relação entre

ele, sujeito, e sua produção, o objeto. Nessa relação, pode ser identificado o valor de uso e por fim a comparação que permite a classificação, ou seja, um conjunto de referências. Esse conjunto constitui-se, dessa forma, em uma estrutura mental e dinâmica que permite ao sujeito emitir um “valor de qualidade” para o objeto. Por isso, o conjunto de atributos de um objeto e sua finalidade são elementos indissociáveis para a formação dessa estrutura de que falamos. Entre eles, há uma relação dialética permanente. Um determinado objeto, mesmo mantendo seus atributos, pode perder seu valor de uso. As necessidades podem, ao longo do tempo, sofrer modificações e passar a serem atendidas por outros objetos mais sofisticados. As máquinas de escrever, por exemplo, foram substituídas pelos computadores e softwares de edição de textos. Por outro lado, há objetos cujas características só atendem a necessidades novas, que não existiam antes de o sujeito conhecer tais características, ou seja, há objetos que criam novas necessidades ou tornam explícitas necessidades diferentes como, por exemplo, a utilização dos Raios-X.

Nesse contexto, o sujeito participante de uma sociedade de consumo identifica se o objeto tem os atributos que o fazem ser o que é, mas, por meio da comparação, avalia se um tem mais qualidade do que outro. Para isso utiliza seu próprio referencial sobre o objeto, contudo pode ser influenciado por campanhas publicitárias (exemplo da Brastemp) e até por outras pessoas. Percebe-se que o sujeito constrói, mentalmente, uma estrutura perceptiva e sensorial que lhe permite emitir um “valor”23 para a qualidade. Entretanto, quando o sujeito

toma posse de novas informações, essa estrutura perceptiva e sensorial é modificada. Além disso, o sistema de referências por ele estruturado não é constituído, exclusivamente, de experiências e preferências suas, mas também da informação que puder obter sobre o objeto. À medida que informações são atualizadas, estas se confrontam com as anteriores, e a estrutura pode ser modificada. Desse modo, a estrutura perceptiva e sensorial não é exatamente a mesma para todos visto que é formada a partir da observação, da informação e da experiência de cada um. Além disso, o tempo, como também o espaço, modifica a estrutura do sujeito e, portanto, o “valor” da qualidade que ele identifica no objeto.

O sujeito desenvolve continuamente uma estrutura mental que lhe permite comparar cada objeto com seus semelhantes ou ainda cada objeto com outros que, apesar de diferentes, servem para a mesma função. Por exemplo, o sujeito compara formas de transporte diferentes para expressar qual delas lhe permitirá usufruir de uma melhor qualidade em uma viagem. Ele contrapõe cada forma com as demais, por isso estabelece relações de comparação e de

23 Utilizamos aspas no termo “valor” para indicar que, nesse caso, não tem o mesmo significado daquele

classificação para afirmar a boa ou a má qualidade dos objetos (ou serviços). Ao fazê-lo, modifica, dinamicamente, sua estrutura de comparação e classificação. Essa estrutura é relativa e dinâmica por dois motivos. Primeiro, porque depende da utilidade que o sujeito identifica no objeto. Segundo, porque essa estrutura sofre alterações de acordo com as experiências do sujeito, com as informações disponíveis sobre o objeto, e esses aspectos podem ser diferentes, dependendo do lugar e do tempo em que vive.

Podem existir, entretanto, certas limitações nesse processo. Não basta desejar ou ter necessidades, é preciso ter a possibilidade de satisfazer esse desejo, essa necessidade. O bem ou serviço de “melhor qualidade” pode não ser acessível, assim como o necessário pode estar fora do alcance do indivíduo como já se demonstrou no caso do tratamento de pacientes com Aids. Além de conter todos os atributos que o fazem ser um tratamento adequado, o remédio é necessário, tem valor de uso para o sujeito, mas pode não estar acessível a ele. Outro aspecto importante refere-se à influência das campanhas publicitárias, como ocorreu com a Brastemp, exemplo citado anteriormente. Como abordado naquela parte do trabalho, a agência de publicidade procurou, por meio da linguagem publicitária, “excluir” todas as outras marcas. Infere-se, porém, que, para fazê-lo, o consumidor precisa reconhecer a existência de outras empresas que fabricam o produto em questão para assim efetuar a comparação entre a “qualidade” dos produtos da marca Brastemp e de todas as outras. O proprietário da marca Brastemp utiliza recursos que a fazem “parecer a única marca”24 que produz com qualidade,

dando-lhe uma distinção dentre todas as outras. Assim, não se trata apenas da confiança em determinada marca, mas da comparação de uma com outras. Apesar de, por meio do

marketing, as empresas buscarem dar a ideia de que sua marca é a única que produz com

qualidade, na verdade, é por meio da comparação entre essa marca e as outras que ocorre o processo de identificação de sua singularidade. Essa questão parece irrelevante, mas ao situá- la no âmbito de uma empresa monopolista, percebe-se que os mecanismos para a distribuição do produto não são os mesmos requeridos em campanhas publicitárias por empresas não monopolistas. Certamente, os consumidores se lembram com maior frequência da marca da empresa que primeiro lançou um produto, mas, com o tempo, outras empresas também comercializam esse mesmo produto, e instaura-se a competição. O fato de lembrar-se da marca não é garantia de que será a única aceita pelo consumidor visto que outras vão disputar o mercado. Essa questão não é a situação de um monopólio, mas a de empresas que concorrem entre si.

24 A marca é única por ser uma propriedade. No mercado concorrencial, ela pode se distinguir de outras, mas

Com base nos elementos apresentados, conclui-se que a qualidade é a expressão de um “valor” identificado a partir da relação entre o sujeito, seu repertório de necessidades e a utilidade de um objeto em determinado tempo e espaço. Essa relação entre objeto e sujeito permite a este identificar o “valor” daquele a partir de uma estrutura mental e dinâmica que permite a comparação e, consequentemente, a classificação. O “valor” da qualidade é absoluto no momento em que é proferido, pois, sendo a estrutura de comparação dinâmica, o “valor” pode mudar conforme o tempo e o lugar. O sujeito estabelece comparações entre o que foi e o que aqui está, por isso não somente o valor de uso, mas também o tempo e o espaço interferem na avaliação da qualidade. Esses aspectos fazem parte do pronunciamento de alguém ou de determinada organização na definição da qualidade de um produto ou serviço.

Nesse contexto, o conceito de qualidade é a expressão de um “valor” relativo uma vez que não existe um sistema universal de referências que permita a todo e qualquer indivíduo a identificação da mesma utilidade sobre determinado objeto, independente do lugar em que ele se encontre ou da época em que se vive. A qualidade é a expressão de um “valor” relativo sobre algo porque depende do ponto de vista de quem a atribui. O sujeito identifica esse “valor” a partir da relação entre ele e esse algo, ou seja, pronuncia-se diante do real (PARO, 2008). O “valor” é relativo porque parte de um sistema estruturado de referências internalizadas pelo sujeito que permite a comparação entre objetos (produtos ou serviços) da mesma natureza. Essa estrutura lhe permite expressar um “valor” relativo visto que seu próprio sistema não é absoluto nem preponderante sobre os sistemas de outros sujeitos. Esse “valor” também é relativo na medida em que se constitui em uma estrutura mental elaborada pelo indivíduo a qual permite identificar sua relação com o objeto no tempo e no espaço. No entanto, esse “valor” não pode ser imposto a outro sujeito que, por sua vez, pode ou não considerá-lo, pode ou não incorporá-lo a seu próprio sistema.

A partir dessas considerações, este trabalho orienta-se pelo conceito de qualidade como um “valor” relativo, identificado pelo sujeito em sua singularidade e individualidade, a partir de um sistema estruturado de referências pelo qual são estabelecidas relações de comparação entre objetos (produtos ou serviços) no tempo e no espaço. Esse conceito de qualidade geral permite compreender por que, para o senso comum, a escola pública tem perdido qualidade e também por que as políticas públicas ignoram o conceito de educação mais amplo ao promoveram a gestão dos sistemas de ensino por meio do controle estatístico de resultados em avaliações em larga escala. Permitirá também perceber qual é o conceito de qualidade apropriado pela gestão da empresa capitalista e quais são suas limitações quando aplicado à educação. Para avaliar a qualidade da educação, uma conclusão que podemos

anunciar, à luz desse conceito, é a de que os educadores têm à frente uma árdua tarefa. Precisam conseguir realizar uma educação pautada em princípios democráticos e norteada pela apropriação da cultura (PARO, 2008). Ao fazê-lo, ocorrerá uma modificação no sistema de estrutura perceptiva e sensorial do sujeito, da qual falamos anteriormente, e um novo conceito de educação estará sendo construído pela sociedade. Também ao fazê-lo, estará sendo reconstruído um valor de uso para a educação que difere daquele que caracteriza a educação como mera transmissão de “conteúdos” e como instrumento ideológico de controle social.

A elaboração desse conceito permitiu-me, de um lado, compreender por que, para o senso comum, a qualidade da educação diminuiu com a expansão da escola pública e como a avaliação do desempenho dos alunos em testes em larga escala acaba por legitimar essa ideia. De outro, permitiu-me reconhecer que, por meio de uma educação democrática, os alunos