CAPÍTULO I -‐‑ Introdução 1
2. A saúde oral dos idosos institucionalizados 16
2.4. A qualidade vida em saúde oral nos idosos 34
A qualidade de vida é um conceito que envolve múltiplos domínios da vida humana, sendo de particular importância no contexto saúde/doença. É um conceito muito amplo, que
envolve uma perceção pessoal dos indivíduos relativamente a um espetro de variáveis físicas, psicológicas (emocionais, cognitivas e comportamentais) e sociais, e que se pode alterar ao longo do tempo (Cimprich & Paterson, 2002). Não existe uma definição consensual, dependendo o constructo das diferentes áreas do saber e espelhando o contexto e época em que é estudado (Silva, Meneses & Silveira, 2007).
O termo qualidade de vida relacionada com a saúde deve-‐‑se ao reconhecimento que as intervenções médicas, cirúrgicas ou medicamentosas não têm todas o mesmo efeito sobre os doentes e que não é suficiente considerar apenas os resultados objetivos quando se está a avaliar a eficácia das intervenções, sendo essencial a avaliação dos aspetos subjetivos (Bowling, 1995).
Este aspeto é reforçado por Cohen e Jago (1976), na necessidade de criação de medidas centradas no paciente sobre o impacto psicossocial dos problemas orais, já que medidas clínicas objetivas dão pouca informação sobre o impacto das doenças orais na vida diária e qualidade de vida. Entre os idosos, o valor atribuído às avaliações subjetivas toma ainda mais sentido, considerando que os problemas orais podem trazer repercussões psicossociais e nutricionais.
O conceito de Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde Oral (QdVRSO) surge nos anos 80, 20 anos após o de Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde (QdVRS). Definir QdVRSO é difícil por ser um conceito abstrato, multidimensional, sem demarcações claras entre os seus diferentes componentes, subjetivo, pessoal, individualmente dinâmico e evolutivo à medida que a cultura e as expectativas da sociedade mudam (Allison, Locker & Feine, 1997).
Este conceito incorpora a ausência de incapacidade ou doença, função física (mastigação e deglutição) e ausência de dor e desconforto, função emocional (sorrir), função social (papeis sociais), perceção de saúde oral e satisfação com a saúde oral e ausência de desvantagens sociais ou culturais devidas ao estado de saúde oral (Gift, Atchison & Dayton, 1997).
Os investigadores reconheceram a importância da QdVRSO e nos últimos anos têm desenvolvido uma série de instrumentos de medição que envolvem indicadores sociais, escalas multi-‐‑item e o Indicador Global Único. Entre as escalas utilizadas na população idosa está o Geriatric Oral Health Assessment Index (GOHAI), desenvolvido por Atchison e Dolan
(1990), o Oral Health Impact Profile 49 (OHIP-‐‑49) desenvolvido por Slade e Spencer (1994) e, mais recentemente uma avaliação do impacto das condições orais na qualidade de vida integrada no EGOHID -‐‑ European Global Oral Health Indicators Development Project (Bourgeois
et al., 2008).
O Indicador Global Único pretende avaliar a autoperceção do estado global de saúde oral num item único do tipo “Como classifica a sua saúde oral?” medido em escala categórica (“excelente” a “muito fraca”). Este indicador providencia uma maneira simples de capturar a perceção de saúde oral, que é válida e fiável. A associação próxima com as escalas multidimensionais faz deste indicador um método útil na avaliação do estado de saúde oral de indivíduos e populações (Locker, 1996a).
De acordo com Locker, Mscn e Jokovic (2005) os referenciais que influenciam a autoperceção de saúde oral dos idosos são similares aos da autoperceção de saúde geral. Esta similaridade sugere que, não só a saúde oral é uma parte integrante da saúde geral, mas que os problemas orais podem ser indicadores de uma variedade de comorbilidades (Weyant et
al., 2004).
A complexidade anatómica e fisiológica da cavidade oral, a variedade de doenças que a afetam e a variedade de tratamentos disponíveis, os sintomas e resultados funcionais quer da doença quer do tratamento, podem originar uma diversidade enorme de perceções auto-‐‑ relatadas (Rozier & Pahel, 2008).
Vários estudos identificaram uma série de fatores associados com a autoperceção de saúde oral em indivíduos idosos. Piores perceções são encontradas em idosos com baixos níveis educacionais (Tsakos et al., 2009) e com maior número de dentes perdidos (Dahl, et al., 2011; Makhija et al., 2006; Matthias et al., 1995; Jensen et al., 2008; Steele et al., 2004), em indivíduos com depressão (Mesas, Andrade & Cabrera, 2008), em indivíduos com dor (Dahl
et al., 2011; Pattussi et al., 2010), com perceção de necessidade de tratamento oral (Jensen et al., 2008; Dahl et al., 2011), com redução da capacidade mastigatória (Avlund, Holm-‐‑Pedersen
& Schroll, 2001; Pattussi et al., 2010), com pior saúde mental e estado cognitivo (Jensen et al., 2008; Weyant et al., 2004), com pior perceção de saúde geral (Benyamini, Leventhal & Leventhal, 2004; Matthias et al., 1995; Weyant et al., 2004), com pior aparência (Matthias et al., 1995; Pattussi et al., 2010) e com pior auto-‐‑estima e satisfação com a vida (Benyamini, Leventhal & Leventhal, 2004).
Em Portugal, num estudo realizado em 359 idosos residentes em lares ou centros de dia, foi encontrada uma pior perceção de saúde oral em idosos com situações periodontais graves, em idosos com dentes cariados e em idosos com perdas dentárias e com necessidade de reabilitação. Uma melhor perceção de saúde oral foi referida pelos idosos que apresentavam mais dentes obturados e nos que usavam prótese dentária (Pires, 2009).
A maioria dos estudos feitos nesta área aponta para os sintomas dolorosos e problemas estéticos, como os aspetos mais valorizados pelos idosos quando avaliam a sua saúde oral, por serem mais facilmente reconhecidos (Pires, 2009). De facto, estes estudos mostram uma discrepância entre as necessidades identificadas pelo profissional e as necessidades percebidas pelo idoso, sendo muitas vezes difícil estabelecer uma relação entre ambas.
A autoperceção de saúde oral está relacionada com a qualidade de vida, sendo influenciada por uma série de fatores, nomeadamente, a presença de sintomas e os impactos nas situações do dia-‐‑a-‐‑dia. Assim os impactos funcionais e psicológicos parecem ser tão ou mais importantes do que os indicadores clínicos quando se avalia a saúde oral, sobretudo em idosos (Cushing, Sheiham& Maizels, 1986).