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Parte II – Das orientações metodológicas à recolha e análise dos dados empíricos

II. Análise e Interpretação dos dados

3) A quebra e a (re)construção da Identidade

É através do trabalho que os indivíduos constroem a sua identidade, seja a sua identidade pessoal ou a sua identidade social. Segundo Stewart, a perda de emprego pode configurar um verdadeiro trauma para a autoestima dos indivíduos e, portanto, para a identidade, interferindo na saúde mental (Pinheiro e Monteiro, 2007). A perda de trabalho afeta a autoestima, sendo que afeta a oportunidade das pessoas exteriorizarem sentimentos quer de valorização, quer de realização pessoal. Assim, a identidade está relacionada com a perceção que as pessoas têm acerca de quem são, e do que é importante para elas (Giddens, 2008). Tendo em atenção o longo tempo de desemprego, alguns entrevistados referem que continuam a mesma pessoa, apesar de assumirem uma maior presença de sentimentos de irritabilidade, stress, inutilidade, desânimo, falta de confiança, bem como o pouco à vontade para comunicar com os outros.

“posso estar assim um bocadinho (...) menos comunicativo (...)quando está um grupo de pessoas devo ser daquelas pessoas que falo um bocadinho menos, na altura que estava empregado era ela por ela, falava tanto como os outros, agora talvez fale um bocadito menos, mas.. nada de especial” (Ricardo)

As perturbações do sistema nervoso e psicológico são os aspetos mais presentes no discurso dos entrevistados, apresentando um conjunto de situações abrangendo a irritação, o aborrecimento, o desespero e até mesmo a depressão.

“Eu agora sou capaz de explodir muito mais facilmente porque sinto-me mal, em não conseguir, principalmente com o meu marido, que é a pessoa que está ligada mais diretamente comigo (...) tornei-me assim mais.. irritativa.. mais explosiva.. qualquer coisa me irrita. Apesar de não entrar em depressão, já tive alturas mais complicadas, já tive bem pior, mas de vez em quando não dá, de vez em quando uma pessoa vai abaixo” (Mariana)

“Não, eu acho que continuo… ando mais ansiosa (...) muito mais stressante, está mais irritada se calhar emocionalmente, porque nada corre bem como nós queríamos, ou porque vamos a uma entrevista e as coisas não correram bem, naquele dia parece o fim do mundo, pronto, afeta, não se pode dizer que não” (Ivone)

A perda de trabalho afeta a autoestima, uma vez que priva os indivíduos da oportunidade de experimentarem sentimentos de realização e satisfação pessoal.

“isto deve se ao facto de andar mais irritado, apoquenta-me, assusta-me.. não sei.. o sistema nervoso trai-me.. a ingratidão por parte de algumas pessoas revolta-me e é nesses momentos que mais perco a cabeça e acabamos por descarregar em cima das pessoas que mais amamos” (Tiago). A instabilidade psicológica despoleta atitudes e comportamentos mais disruptivos, onde se instala o nervosismo perante os familiares mais próximos e os amigos, aqueles que acabam por ser mais afetados por esses comportamentos.

Contudo, existem discursos que vão ao encontro de uma perceção positiva deles próprios e onde o desânimo não ganha lugar, discursos onde sobressaem sentimentos de otimismo, coragem, luta e de esperança.

“não sou de me deixar ir muito abaixo, tem dias que tou mais, mas tento sempre, sempre olhar as coisas de outra maneira. Se eu me levanto com espírito muito negativo tento logo fazer qualquer coisa para mudar, logo, e pensar outras coisas. Sou uma pessoa, ahn.. amiga, sincera, dou-me bem com toda a gente, sou humana, sou capaz de ajudar seja quem for (...) considero-me uma pessoa que me sei integrar na sociedade” (Andreia)

“Otimista, sim. Sou uma pessoa otimista, não desmoralizo facilmente, e acho que ate moralizo alguns dos que estão à minha volta na mesma situação profissional do desemprego” (Carla)

“tenho uma imagem de lutadora e que vou conseguir sem dúvida mudar a minha situação, porque eu lutei sempre a vida toda, sempre tive competências para, posso não as ter, mas procuro ter, por isso acho que não vou ser eu que vou prejudicar a minha maneira” (Ivone)

O pessimismo, a perda de esperança e os problemas de saúde salientam-se no discurso de Manuela, a entrevistada com maior idade (59 anos). A perceção de si remete-nos para a sua baixa autoestima, uma vez que, nas suas palavras “sinto-me velha, já não tenho a força que tinha, a situação de desemprego deixou-me mais fragilizada e que noto que nem sempre estou bem, por muito que me esforce vou abaixo, porque vejo o neto a crescer, quando vai comigo às compras e pede coisas e eu não posso, não tenho dinheiro, e isso toca-me, dói-me no peito de negar ao meu neto alguma coisa (emocionada)”. Outro discurso que apresenta falta de moralização e baixa autoestima é o do Filipe, revelando que se sente uma pessoa já “cota, sem perspetivas de futuro, sem vontade de viver (pausa). Sinto-me cota porque a sociedade leva-me a pensar assim”.

A Mariana, a Carla e a Sandra assumem que não têm tanta motivação para tratar de si próprias, apresentando uma falta de cuidado e desleixo com a imagem.

“Muito desleixada, por não ter horários, vontade de arranjar um pouco, a pior coisa foi ter engordado, não me apercebi primeiro porque, porque não gostava de doces, não ligava

nada a doces, agora devoro doces, devoro. Desde que fiquei desempregada, porque refugio- me nos doces quando estou mais em baixo” (Mariana)

“uma pessoa quando tem um emprego, levanta-se e tem aquela rotina, tem que se arranjar para sair, agora se calhar, uma pessoa só se arranja mesmo quando tem de ser, porque se não em casa anda de fato-de-treino, ou pijama” (Carla)

“sinto que antes tinha mais vontade de me arranjar, preparar, a vida era diferente, ia para o trabalho, estava com outras pessoas, tinha que andar bem.. agora.. olhe.. agora qualquer trapito serve (risos) visto alguma coisa” (Sandra).

A imagem corporal e a autoimagem acabam por ser afetadas, perde-se o propósito para cuidar de si. A desorganização da vida, a perda de ritmo diário “normal”, a “preguiça” em se arranjar, a inatividade, o dormir em excesso e a falta de prática de exercício físico são alguns aspetos que advêm do discurso dos entrevistados e que se repercutem no seu bem-estar Apesar dos anos já pesarem, como nos refere Andreia (50 anos), na opinião dela, ao longo destes 19 anos de DLD, tem feito de tudo para a valorização profissional. No decorrer destes anos, Andreia afirma que “sempre fiz muitos cursos de formação, mesmo.. hum.. tudo o que me aparecia de cursos de formação eu fiz tudo, fiz estágios (...) já fiz o 9º ano, fiz vários cursos de formação, sei mexer nos computadores porque fiz formação para isso, fiz cursos de inglês, fiz cursos de francês, tenho muita formação, não tenho é onde a aplicar, agora até podia fazer alguns trabalhos, mas não aparece nada, mas acho que tinha competência para ter um emprego qualquer, porque agora sei coisas que não sabia há anos atrás, e mais experiência de vida, que também conta muito”.

Na opinião de Carla, somos nós próprios que nos devemos dar valor e reconhecer esse mesmo valor. Para ela, essa é uma mais-valia para conseguir alcançar o emprego que tanto deseja. Assim, Carla afirma que reconhece “valor, e acho que também isso é importante para quem está à procura de emprego, reconhecer valor em si mesmo, por isso estou à espera de notícias para a semana. Se não formos nós a dar valor, que nos dá?”. O seu discurso apresenta mesmo uma visão otimista e acredita que “tendo em conta o meu perfil, e o meu currículo, que em alguma das escolas que eu concorri (risos), em alguma delas tenha a possibilidade de lá ficar, neste momento é nisso que estou focalizada, mais mês, menos mês, até ao final do ano estou empregada, a tempo inteiro, ou a tempo parcial”.