2 ENSINO MÉDIO, EDUCAÇÃO DO CAMPO E A QUALIDADE DA
2.4 O conceito de qualidade e qualidade da educação
2.4.1 A questão da qualidade educacional no contexto do Estado brasileiro
A educação nacional ao longo do processo histórico vem passando por muitas transformações e os movimentos educacionais ganharam força trazendo contribuições positivas para a área educacional. Não podemos deixar de frisar que na década de 1980 uma questão crucial marcou pautas de grandes eventos educacionais, como o da universalização de acesso à escolarização da sociedade em geral, isto é, concedendo acesso à escola para todos. Concomitantemente, análises relacionadas à qualidade dessa educação ofertada passaram a estar presentes na agenda educacional.
A atual configuração da educação básica brasileira reflete, em grande medida, as mudanças desencadeadas pelas reformas dos anos de 1990. A partir da aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB 9.394/96 (BRASIL, 1996), uma série de alterações aconteceu. Novas propostas de gestão da educação, de financiamento, de programas de avaliação educacional, de políticas de formação de professores, dentre outras medidas, foram implementadas com o objetivo de melhorar a qualidade da educação (COSTA; AKKARI; SILVA, 2011, p. 76).
Nos anos 2000, movimentos e debates são organizados a fim de realizar reflexões e análises críticas a respeito do resultado da universalização, uma vez que problemas estavam sendo verificados, pois a escolarização foi garantida, mas ainda faltava a avaliação de questões relacionadas à forma como ocorreu essa implementação e quais elementos ainda faltavam serem pensados para a efetivação de uma educação de qualidade, ou seja, a preocupação agora era com a qualidade do ensino ofertado. Segundo Beisiegel (2006) a qualidade de ensino começou a ser prejudicada justamente pela rápida expansão da rede. A crise do ensino no que se refere à qualidade é dada após a grande extensão de oportunidades educacionais às camadas mais carentes da população. Inclusive após a promulgação das leis de nº 5.540/68, que incluiu o Ensino Superior, e a de nº 5.692/71, que alterou a sistemática de funcionamento do ensino do primário e segundo grau e formalizou a expansão educacional (BRASIL, 1968; BRASIL, 1971).
A democratização das oportunidades de acesso e a expansão da rede das escolas básicas a contingentes cada vez maiores da população romperam com a conjunção harmônica entre qualidade e a escola de elite. A qualidade, nesse caso, decorria fundamentalmente de rigorosos mecanismos de seleção extra e intra-escolares (MELLO, 1979 apud OLIVEIRA, 2005, p. 8).
Os questionamentos referentes à qualidade na educação são uma preocupação mundial e foram progressivamente se tornando centrais no debate educacional a partir da década de 1940, sendo neste mesmo período que se inicia no Brasil um processo significativo de expansão da oportunidade de escolarização da população. Nesse processo de democratização de acesso à escola, segundo Oliveira e Araújo (2005), foram incorporadas parcelas da população que antes não tinham acesso à educação e cujas experiências culturais eram diferentes daquelas que antes constituíam o grupo de usuários da escola, ou seja, com o processo de expansão das oportunidades a escola incorporou as tensões, as contradições e as diferenças presentes na sociedade.
Gomes (2005) destaca que um dos maiores desafios da história da educação é organizar uma escola que seja, ao mesmo tempo, de qualidade e democrática, isto é, que não ofereça aos pobres uma escolaridade pobre, mas que efetivamente consiga que alunos, mesmo socialmente desprivilegiados, aprendam. É perceptível que há uma grande insatisfação com o desempenho da escola e da educação básica no Brasil, com a qualidade da educação em todos os seus níveis de ensino.
Para Oliveira e Araújo (2005) a carta magna de 1988 é um dos primeiros documentos que sinaliza sobre a garantia não só de acesso e de permanência, mas também faz referências,
em seu Art. 206 no inciso III, à garantia de padrão de qualidade como princípio que estruturará o ensino. Oliveira e Araújo (2005) afirmam, ainda, que a Constituição Federal de 1988 assinalou uma perspectiva mais universalizante dos direitos sociais e avançou na tentativa de formalizar, do ponto de vista do sistema jurídico brasileiro, um Estado de bem- estar social numa dimensão inédita em nossa história. Nessa mesma linha de pensamento, Giorgi e Leite (2010, p. 314) apontam que:
A Constituição Federal de 1988 traz como elemento marcante a presença do povo e a valorização da cidadania e da soberania popular. Comparada às outras Constituições, apresenta o mais longo capítulo sobre educação. Consagra- a como direito público subjetivo e estabelece o princípio da gestão democrática do ensino público.
Nesse sentido, houve uma grande expansão de escolas para que se garantisse vaga para todos, porém não foi planejado como deveria ser efetivado esse processo de escolarização e em quais condições o ensino seria ofertado. Como ficaria o ensino? E este teria qualidade?
Nos anos de 1990 muitos debates foram organizados no país a fim de responder sobre a temática da qualidade da educação. Campos (2000) faz referência ao Encontro sobre a Qualidade da Educação promovido pelo Ministério da Educação (MEC), com apoio da Oficina Regional de Educação para a América Latina e Caribe (OREALC) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que aconteceu em Brasília em novembro de 1990. Nesse encontro os participantes procuraram levantar questões relacionadas à qualidade da educação (ESTUDOS EM AVALIAÇÃO EDUCACIONAL, 1990). Também alguns textos e artigos de alto teor acadêmico foram apresentados por seus respectivos autores, tais como Pedro Demo, JohannaFilp e textos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Campos (2000) destaca o fato de que os textos anteriormente citados trazem diretrizes e linhas de ação que seriam adotadas ao longo da década de 1990 pelo governo federal e pelos governos estaduais no país.
Outro evento importante que merece destaque é a Conferência Mundial de Educação para Todos (EPT), em Jomtien na Tailândia, nos dias 05 a 09 de março de 1990, a qual enfatizou a importância da temática da qualidade da educação enquanto elemento central nas políticas educacionais de diversos países (COSTA, 2011).
Depois de uma longa jornada de tramitação, a versão final da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) foi aprovada e incorporada de muitas concepções presentes nas reformas educacionais da década de 1990 (BRASIL, 1961). A Lei nº 9.394/96
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional foi sancionada no dia 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996) e veio confirmar, em seus princípios da educação nacional, as concepções da qualidade da educação mencionada pela Constituição Federal de 1988.
Segundo Costa (2000) o texto da LDB menciona diretamente a questão da qualidade e avaliação da educação em diversos trechos. A garantia de padrão de qualidade é um dos onze princípios básicos para o ensino, definidos no Art. 3º, o dever do Estado para com a educação deve ser garantido por nove condições, entre as quais “[...] padrões mínimos de qualidade do ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino- aprendizagem” (BRASIL, 1961, não paginado). A autora também faz referências as nove atribuições da União para a organização da educação nacional que consta no Artigo 8º, inciso VI, que é de “assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração como os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e melhorias da qualidade de ensino” (BRASIL, 1961, não paginado).
Giorgi e Leite (2010) asseguram que desse modo o Governo Federal assume a definição da política educacional como tarefa de sua competência, descentralizando sua execução para os estados e municípios. O controle do sistema escolar passa a ser exercido por uma política de avaliação para todos os níveis de ensino como forma de melhorar a qualidade da educação.
Sendo assim, essas definições legais vieram dar respaldo para o planejamento e execução dos programas de avaliação implantados no país na esfera federal e estadual, tais como: Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), que acontece desde 1990, desmembrada pela Prova Brasil, Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), Exame Nacional de Curso para o Ensino Superior (ENADE) e Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA).
Apesar das leis vigentes (CF/1988, LDB 9.394/96) fazerem referências à qualidade da educação, não definem como será planejada e organizada esta educação e, consequentemente, não sinalizam os padrões e/ou indicadores da qualidade da educação nacional. Para Oliveira e Araújo (2005) a legislação brasileira incorporou o conceito de qualidade do ensino a partir da Constituição Federal de 1988, fato insuficiente para estabelecer de forma razoavelmente precisa em que consistiria ou quais elementos integrariam o padrão da qualidade do ensino brasileiro, o que dificulta bastante o acionamento da justiça em caso de oferta de ensino com má qualidade. Afinal, como caracterizar um ensino com ou sem qualidade se não há parâmetros para o julgamento?