2.1 A VISÃO DAS RAZÕES CORRETAS
2.1.1 A questão da simetria evidencial e cognitiva
Kelly acredita que mesmo em casos apontados como
perfeitamente simétricos (como casos em que o par tem a mesma
evidência e é igual em virtudes intelectuais), ou seja, quando preenche
as condições (i) e (ii), assumir tal simetria é incorrer em petição de
princípio em favor do ceticismo. O caso é que quando tudo é simétrico e
o desacordo é descoberto, a nossa tendência é acreditar que o outro
julgou mal o corpo de evidência. Mas, pergunta Kelly, isto não seria
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Podemos dizer que em KELLY (2005) temos uma versão forte, mais inflexível, da Visão das Razões Corretas, enquanto que em KELLY (2010) temos uma versão mais moderada.
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Embora a defesa de Lackey faça com que geralmente ela seja colocada entre os defensores da Visão das Razões Corretas, ela mesmo nega este rótulo. Cf. LACKEY, 2010, p.319.
suficientemente relevante para quebrar a simetria?
35Uma avaliação em
primeira pessoa seria mais relevante para se acreditar que o par julgou
mal a evidência do que seria sob a ótica de uma terceira pessoa não
envolvida no desacordo. Para que a simetria seja quebrada, não é
necessário assumir que se é um melhor avaliador que nosso par
discordante ou mesmo que o par discordante cometerá os mesmos erros
de avaliação de evidência no futuro. Tudo que é preciso assumir para
quebrar a simetria é que, nesta circunstância particular, o par não
avaliou bem a evidência disponível.
Um defensor da Visão de Peso Igual poderia questionar que do
mesmo jeito que A pode acreditar que avaliou melhor a força probativa
da evidência em casos de desacordo e que B não foi feliz em sua
avaliação, B poderia seguir o mesmo procedimento e acreditar que ele
avaliou melhor a evidência do que A pôde fazer. Contudo, como coloca
Kelly, o ponto não é defender que cada um deve defender sua conclusão
como racional pelo simples fato de ser sua conclusão, mas sim que a
racionalidade vai envolver a crença de quem, de fato, fez a avaliação
correta da evidência. O ponto é saber qual das duas conclusões (se
alguma) a evidência favorece ou que lado do desacordo possui as razões
corretas para acreditar no que acredita. Este ponto específico fez com
que Adam Elga batizasse esta posição de Visão das Razões Corretas
(Right Reasons View). Assim, para a visão corrente, a racionalidade da
crença não deveria ser afetada pela simples descoberta de um desacordo,
como sugere a versão radical da Visão de Peso Igual, mas deve
depender de quem, de fato, tem boas razões para sustentar sua
conclusão.
A Visão das Razões Corretas é motivada pela existência de um
quebrador de simetria em casos de desacordo. Esta quebra de simetria
justifica alguém a reter sua crença em face do desacordo. Jennifer
Lackey afirma que sem este quebrador de simetria a resistência à revisão
da crença não passa de “egoísmo dogmático”.
Aqui está onde a natureza ordinária do desacordo é relevante. Pois note: mesmo quando A e B têm excelentes razões para crer que eles são pares epistêmicos, A, em situações ordinárias, frequentemente tem acesso à informação sobre ele mesmo que não tem a respeito de B – deixe-nos
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chamar isto de informação pessoal. Informação pessoal é informação que alguém tem sobre o funcionamento normal das suas próprias faculdades cognitivas. A pode, por exemplo, saber que ele não está, no momento, sofrendo de depressão ou não está experimentando efeitos colaterais da medicação prescrita, ou não está exausto, considerando que A não pode saber que tudo isto é verdadeiro sobre B [adaptação nossa]36.
A informação pessoal que alguém tem de si, mas não de seu
par, lhe justifica a reter sua crença em face da controvérsia quando
combinada com um alto grau de justificação que tal crença venha a
desfrutar, dado que em casos que supostamente favorecem a Visão de
Peso Igual não existe um alto grau de justificação da crença. Enquanto
A crê que p antes de descobrir o desacordo, ele está justificado em
sustentar sua crença, afirma Lackey. Após a descoberta do desacordo, A
possui um anulador para sua crença que p. Contudo, a informação
pessoal restaura a evidência original e funciona como um anulador do
anulador. Deste modo, casos que parecem favorecer a intuição da Visão
de Peso Igual são casos que não possuem qualquer quebrador de
simetria. Se não há uma assimetria aparente, os defensores da Visão das
Razões Corretas concedem que o par deva dividir a diferença de suas
crenças e ambos devem suspeitar das crenças que sustentavam, mas
havendo algo que quebre a simetria, a intuição da Visão de Peso Igual é
desfavorecida.
Na medida em que há um quebrador de simetria, alguém está
justificado ou é racionalmente permitido reter sua crença sem ser
dogmático. Ernest Sosa também faz voz à ideia de que o grau de
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LACKEY, 2010, p. 309-310. Tradução nossa: “Here is where the ordinary nature of the disagreement is relevant. For notice: even when you and I have had excellent reasons for believing that we are epistemic peers, I will, in ordinary situations, often have access to information about myself that I lack with respect to you—let us call this personal information. Personal information is information that one has about the normal functioning of one's own cognitive faculties. I may, for instance, know about myself that I am not currently suffering from depression, or not experiencing side effects from prescribed medication, or not exhausted, whereas I may not know that all of this is true of you”.