3. O MANDARIM NA IMPRENSA
3.3. A questão do rabicho
A “Chronica da Semana” do dia 20/01/1884 começa com um protesto a respeito do monopólio de atenção exercido pelo Mandarim, “a nota dominante da semana, o único objeto capaz de prender o espírito público, o único assunto a la sauce piquante das colunas ineditoriais dos nossos diários” (“Chronica da Semana”, Gazeta de Noticias, 20/01/1884, p. 1). Assumindo que não teve sucesso em desviar do assunto, o cronista adere ao “cortejo”, fazendo um levantamento da polêmica em torno da revista de ano na imprensa.
Vemos nela envolvidos: o empresário, o seu primeiro ator, os autores, o conservatório dramático e o folhetinista do “Microcosmo”.
Francamente, não nos parece que uma revista do ano possa aspirar a maior sucesso, e que melhor e mais triunfantemente possa estrear o gênero entre nós.
A frase do rabicho foi o pretexto; o conservatório dramático o gatilho, e o folhetim “Microcosmo” o golpe decisivo. Daí o estampido e todo este resultado, que o público amante da boa pândega e dos bons escândalos aplaude mais – porém muito mais – do que às boas Revistas.
O conservatório declara que cortou o rabicho – o célebre rabicho, o outro; a empresa afirma que fez respeitar o mesmo corte; o ator jura que a pronunciou tal qual lho ensinou o finado E. Doux; o “Microcosmo” insinua que nas peças deste gênero vamos ter um novo pelourinho das reputações individuais (“Chronica da Semana”,
Gazeta de Noticias, 20/01/1884, p. 1, grifos do autor).
O rabicho e suas possibilidades plurais de significação – trança de cabelo, paixão, relação amorosa, representação fálica – constituíram, pois, um dos núcleos da polêmica, partindo da reação publicada em um a pedido assinado por Um espectador. Indignado com a permissibilidade do Barão de Paranapiacaba em seu papel de censor, que declarara não ter encontrado nada de escabroso no Mandarim, o espectador questiona:
Pois nem sequer aquela frase, que chegou a ferir os ouvidos do povo da galeria? A frase alusiva ao tal rabicho, que já foi suprimida ou alterada, e de que se aproveitou tanto mais na primeira noite o ator Martins, acentuando-a de forma pouco digna de louvores, aí está para provar que muito vale ter-se de julgar da obra de um colega, para encará-la com bons olhos.
O Dr. Moreira Sampaio e o Sr. Artur Azevedo conhecem demais o paladar estragado das nossas plateias, e tiram daí o partido que podem (Um espectador, “Publicações a Pedido”, Jornal do Commercio, 17/01/1884, p. 3, grifo do autor).
A controversa “frase do rabicho” viria a ser reproduzida em a pedido veiculado no dia seguinte, publicado sob a assinatura Outro espectador, o qual, por sua vez, não via problema algum na passagem, transcrevendo a frase em seu contexto.
OLÍMPIA (Suplicante.) – Tchin Tchan Fó, então? vens ou não vens?
MANDARIM – Respondo como Sganarelo: pode ser que sim, pode ser que não. OLÍMPIA – Oh! não me digas que não!
MANDARIM – Minha mulher jurou cortar-me o rabicho, se eu reincidisse!
OLÍMPIA – Que falta te faz o rabicho? Comprarás outro no Batista das Tranças- monstro.
MANDARIM – Dizes bem! Demais (Num tom melodramático.) este (Pega no
rabicho.) pode ela arrancar; mas o outro... o rabicho que tenho por ti, só se passar
por cima do meu cadáver! Fujamos! (Outro espectador, “Publicações a Pedido”,
Gazeta de Noticias, 18/01/1884, p. 2).73
Segundo Outro espectador, seria necessário “sofrer de erotismo senil para enxergar malícia naquelas palavras, que no entanto foram substituídas pelos autores depois da primeira representação” (Outro espectador, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 18/01/1884, p. 2), substituição que, a seu ver, sequer deveria ter sido feita. É oportuno destacar que o pseudônimo utilizado reforça o diálogo com a publicação anterior: se um espectador censurou a peça, outro espectador a aprova, apresentando uma interpretação diferente acerca da passagem em questão.
Na mesma edição da Gazeta, Martins, o intérprete do Mandarim, também transcreve a frase, que, a seu ver, não tinha nada de malicioso, e explica parte de seu processo de atuação a fim de contrapor a suposição de que ele havia tentado “envenenar” o texto.
O que fiz unicamente foi não precipitar o final do dito, visto a hilaridade que despertou o começo, e esse é sempre o meu sistema, quando represento, seguindo as instruções do meu velho ensaiador, o conhecido, respeitado e já falecido Emílio Doux, que sempre dizia ser obrigação do ator, deixar passar a expansão do público, para continuar a frase (O ator, Martins, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 18/01/1884, p. 2).
Com isso, Martins não só enfatiza o aspecto técnico de seu trabalho artístico, mas também mobiliza o nome de seu antigo ensaiador, Emile Doux, ou Emílio Doux, como ficou conhecido no Brasil. Segundo Elizabeth Azevedo, o ensaiador francês foi o responsável pela fixação do repertório romântico em Portugal, “trazendo, enquanto ensaiador e diretor de cena, uma nova forma de interpretação, mais natural” (AZEVEDO, 2015, p. 105); no Brasil, trabalhou junto ao grupo de João Caetano dos Santos, maior ator brasileiro do período, e, posteriormente, atuou como ensaiador e diretor de cena do Ginásio Dramático, “grupo rival ao
73 Segundo o autor do a pedido, essa versão fora copiada textualmente do manuscrito original, publicado um dia
antes. O texto confere com a versão presente no Teatro de Artur Azevedo (ver AZEVEDO; SAMPAIO, 1985b, p. 249 [p. 177]).
de João Caetano e responsável pelo estabelecimento dos procedimentos realistas no teatro carioca” (AZEVEDO, 2015, p. 106). Por meio desse expediente, Martins parece buscar uma afirmação de sua posição no campo artístico a partir de sua relação com Doux, procurando, ainda, demonstrar a seriedade e o método que estruturavam sua performance.
O Barão de Paranapiacaba também se posicionou em relação à “questão do rabicho”, primeiramente manifestando sua suspeita em relação ao autor escondido sob o pseudônimo “Um espectador”, que teria descido da “ordem nobre da imprensa, para embuçar-se entre os espectadores das gerais”74 (Barão de Paranapiacaba, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 18/01/1884, p. 3, grifos do autor). É bem provável, pois, que sua suspeita recaísse
sobre Carlos de Laet, visto que ele era o agente da imprensa mais engajado no combate ao
Mandarim. Após essa colocação, Paranapiacaba garante que a frase “alusiva ao rabicho foi
por mim muito bem riscada, antes de licenciar a Revista” (Barão de Paranapiacaba, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 18/01/1884, p. 3, grifo do autor), apresentando, ao longo de sua declaração, parte da estrutura fiscalizadora que regulava as apresentações teatrais, composta por uma articulação entre Conservatório Dramático, polícia e os juízes dos teatros, que deveriam verificar se as alterações realizadas pelo censor no texto das peças seriam cumpridas em cena.
No dia seguinte, quem vai a público é o empresário da companhia do Príncipe Imperial, Luiz Braga Jr., assegurando que a frase “alusiva ao rabicho” foi “dita tal e qual a mudança feita pelo ilustre presidente do Conservatório, e apesar disso provocou, sem a menor razão justificativa, esses reparos que pela imprensa têm sido feitos” (Luiz Braga Júnior, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 19/01/1884, p. 2). Tendo em vista que o próprio ator afirmou ter proferido a frase, transcrita em seu a pedido, essa declaração de Braga Jr. é contradita indiretamente por publicação assinada por Paranapiacaba em 20/01/1884, sem que, todavia, alguma discussão seja engendrada a partir disso.
No autógrafo desta peça, a pag. 99v., estava escrito: “Este (pega no rabicho) pode ela arrancar, mas o outro, o rabicho que eu tenho por ti, só se passar por cima de meu cadáver”. Suprimi as palavras – o outro, o rabicho que tenho por ti, substituindo-as por estas – o que eu sinto por ti.
A expressão sinto substituindo – tenho – faz desaparecer o equívoco, que a malícia poderia enxergar na frase.
Eis demonstrada a justiça, com que me inculpam! E é sempre assim! (Barão de Paranapiacaba, “Publicações a Pedido”, Gazeta de Noticias, 20/01/1884, p. 3, grifos do autor).
74 No original consta “embuçar-me”, possivelmente em decorrência de um lapso na grafia ou na reprodução
Se o rabicho deixou de ser explorado no palco por meio dessa linha de diálogo, há boas chances de que, por conta dessa discussão nos jornais, o próprio público viesse a restaurar o texto em sua experiência de recepção da peça, preenchendo as lacunas de modo similar ao realizado pelo público do teatro de feira ante as sanções que o gênero sofria por parte das autoridades. O que temos como certeza, porém, é que o Batista das Tranças- monstro, cabelereiro mencionado por Olímpia no Mandarim e estabelecido nos arredores da Praça da Constituição, seguiu publicando o anúncio que promovia seu estabelecimento ao promover a peça.
Figura 13 – As tranças de Batista
Fonte: Gazeta de Noticias, 22/01/1884, p. 3.