1. Primeiro Capítulo – Abrindo as Questões
1.5. A questão territorial: conflitos e direitos
Quando falamos da ação quilombola – esse contexto específico do grupo ligado ao ativismo étnico – nos reportamos às demandas por direitos ligados aos sujeitos que, em algum grau, acionam em suas narrativas singularizadoras eventos pretéritos e presentes relativos aos conflitos territoriais, ligados à expropriação, esbulho, constrangimento e
perdas de acesso a espaços tradicionalmente ocupados.
Necessariamente, quando um grupo articula a ação quilombola, ele traz implicado à sua trajetória, enquanto aspecto de sua reivindicação por direitos territoriais, casos de reconhecimento e publicização de desrespeitos e conflitos vividos relativos aos eventos e episódios ligados à perda de terras ou áreas utilizadas em tempos pretéritos.
Em suma, em algum(ns) momento(s) de sua vida social, o grupo sofreu, por forças vindas necessariamente de fora – como alargamento das fronteiras agrícolas, imobiliárias, projetos governamentais, etc. – algum tipo de constrangimento, determinando ou expulsão de áreas ocupadas, deslocamento forçado, diminuição do espaço, ou privação do uso de recursos naturais e/ou hídricos utilizados em outros tempos. Em alguns casos essas perdas territoriais passam pela sobreposição dos territórios tradicionais com áreas de preservação ambiental.8
Esse dado está estritamente vinculado a reprodução das desigualdades de acesso aos territórios que consagra a própria característica do Brasil enquanto projeto de nação, e que travestiu-se, a partir dos anos 1960, na crescente “modernização conservadora” e
8 O panorama da discussão sobre o tema das sobreposição e conflitos territoriais e identitários
foi discutido no “Workshop Políticas de Reconhecimento e Sobreposição Territoriais”, realizado em maio de 2013 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O evento foi coordenado pelos professores José Maurício Arruti e Mauro Almeida, e organizado pelo CPEI e LATA-CERES. Para maiores informações ver Dossiê: Políticas de Reconhecimento e
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mecanização do campo, que trouxe ao abrigo das oligarquias rurais latifundiárias o controle de um projeto assentado no grande capital e no modelo do agronegócio ao serviço do mercado exportador e desenvolvimentista (DELGADO, 2005). Se os anos 1960 é considerado o período do “milagre econômico” brasileiro, ele parece tê-lo sido à revelia, e às custas, dos setores mais empobrecidos e carentes de sua sociedade.
Não é ao acaso que, quando se visita uma comunidade quilombola do Brasil de hoje, uma das perguntas que o pesquisador poderá fazer obtendo êxito certo na resposta é essa: o que ocorreu com você nos anos sessenta ou setenta? Certamente, ou o grupo foi espoliado de suas terras por conta de pressões feitas pelos poderes locais implicados em alargar as fronteiras agropecuárias, ou o grupo foi expropriado para a passagem de alguma rodovia federal ou estadual, ou o grupo foi privado de usar as áreas por ocorrência da criação de algum parque estadual ou federal, ocorrendo sobreposição territorial.
Quer a partir de movimentos acionados pelos poderes locais de uma cidade, geralmente coadunados com os poderes oficiais e implicados às inseguranças jurídicas que as sociedades quilombolas sempre tiveram frente aos canais oficias, quer a partir de movimentos orquestrados pelo Estado para um projeto de nação desenvolvimentista ou preservacionista, as comunidades quilombolas do Brasil de hoje acionam como fatores determinantes para suas situações territoriais e existenciais, personagens vinculados a estas tramas. Pode-se dizer, por isso, que o tema dos conflitos territoriais é um dado generalizável e passível de uma proposta comparativa que, no contexto da ação quilombola, se mostra presente nas narrativas grupais e nos modos como os seus sujeitos se mostram ao antropólogo que está para cumprir uma demanda estatal.
Esse dado fundamenta o próprio ordenamento jurídico constitucional que inaugura o direito às terras quilombolas a partir de 1988, passando a determinar, através dos dispositivos constitucionais posteriores e baseado em alguns preceitos da legislação indigenista9
9 Refiro-me aqui aos desdobramentos que o artigo 68 do ADCT da Constituição Federal de
1988 e o Decreto nº 4887/03, bem como os artigos 215 e 216, da tiveram para a consolidação de uma agenda e uma política do Estado no tocante aos direitos dos grupos quilombolas em cenário nacional. Ligadas ao número crescente de comunidades autodeclaradas quilombolas e com processos administrativos abertos no INCRA. Assim, a “noção de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios como sendo as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições, tem sido utilizada igualmente no reconhecimento de direitos constitucionais de ocupação territorial dos “remanescentes de quilombos” e outros grupos
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(O’DWYER, 2012), os termos em que está colocado um dos pilares da política quilombola tal qual preconizada pelo Programa Brasil
Quilombola, criado no ano de 2004 com o objetivo de consolidar os
marcos da política de Estado para as áreas quilombolas, no sentido de propor, através de uma justiça compensatória e reparatória do Estado de teor interministerial, o reordenamento fundiário do país.10
Em suma, quando falamos de direitos quilombolas, estamos falando de resolução de conflitos territoriais, de uma nova cartografia social ligada às emergências e existências coletivas das identidades, e da necessidade de, às trajetórias dos sujeitos marcadas pelo racismo e por conflitos territoriais ligadas aos interesses especulativos sobre as terras, haver a possibilidade de proteção e fixação através de um título permanente e controlado de forma coletiva pelas associações comunitárias (ALMEIDA, 2005, 2006).
E se hoje a política quilombola está assentada em torno dos casos de reparação histórica relativos ao dado dos conflitos territoriais é porque setores do Estado Brasileiro e das militâncias os incorporaram sob um ponto de vista moral: normatizando não dever fazer parte da ordem natural das coisas grupos que tiveram, e têm, privações ou desapossamentos territoriais, haja vista também determinadas pelas diferentes situações de poderes tutelares em que sempre estiveram enredadas, ligadas também ao marco de políticas pretéritas e próprias do Estado. Essa desnaturalização movimentada dentro de setores do Estado não é, nem hegemônica no próprio Estado, tampouco incorporada pela sociedade como um todo, vide as constantes investidas nos poderes judiciário e legislativo contrários às políticas territoriais e étnicas nesses últimos anos.11
Nesse sentido, a publicização dos desrespeitos vividos relativos aos conflitos territoriais passa a valer quando o grupo deixa de os perceber, no contexto da ação quilombola, implicados à ordem natural das coisas, ou seja, quando se procede a possibilidade de fazer justiça a um direito costumeiramente interdito e em via de regra tradicionalmente
caracterizados pela legislação infraconstitucional como “povos” e “comunidades tradicionais” (O’DWYER, 2012: 238).
10 O Programa Brasil Quilombola agrupa as ações voltadas às comunidades a partir de quatro
eixos: acesso à terra; infraestrutura e qualidade de vida; inclusão produtiva e desenvolvimento
local; direitos e cidadania (ver, <http://www.seppir.gov.br/comunidades-tradicionais/programa-
brasil-quilombola>).
11 Vide, por exemplo, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI n. 3.239-9/600 – DF)
movida pelo então Partido da Frente Liberal (PFL, atual DEM) o decreto 4.887/03. Para maiores informações, ver Territórios Quilombolas - Boletim Informativo Nuer, vol. 2, 2005.
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inexistente para o grupo. E muitas vezes essa passagem depende de um movimento de mediação vindo de uma força externa ligada ao ativismo étnico – como a militância dos movimentos sociais, o trabalho dos agentes do Estado, da academia, etc. –, que faz com que às concepções locais, que podiam naturalizar os conflitos, passem a, incorporando os preceitos extra-locais constitucionais, movimentar-se a caminho do reconhecimento de um direito, e de uma justiça. Ou seja, o que pode ter tendido a ser, nos códigos locais, um dado (ser desapossado, tirado de um lugar, não ter terras para plantar, ser privado de um recurso hídrico, não ter direitos às terras) passa a ser passível de desnaturalização, transforma-se num direito se o grupo assim o compreender e incorporar as premissas da política reparatória, no sentido de subverter também, as regras do jogo implicadas nas teias culturais de determinada realidade social (O’DWYER, 2012).
Assim é que, baseado nos preceitos constitucionais, o termo “conflitos territoriais” passa a ser uma espécie de bandeira do contexto étnico. E se cada grupo imprime uma lógica territorial ao espaço que ocupa dentro de um ordenamento jurídico próprio, o dado a que me referi anteriormente, relativo aos conflitos territoriais, também deve estar colocado culturalmente de formas distintas de acordo com cada regime de territorialidade. E isso também recai sobre a prática dos relatórios antropológicos, que está justamente para tratar da questão territorial, fazer essa mediação entre direitos.
E como é no contexto da ação quilombola que o grupo passa a enunciar e denunciar os episódios de conflitos territoriais, fazendo deles um dos fundamentos para o direito, é que o tema, impreterivelmente, estará como que colado à própria atuação de um antropólogo que irá elaborar um Relatório Antropológico para o INCRA. Justo por isso, quando um antropólogo vai fazer uma pesquisa do tipo, ele necessariamente toma como ponto de apoio e análise o histórico de relação dos sujeitos com o lugar onde vivem, e os modos como se dá a organização e o controle sobre o espaço.
Isso passa, portanto, por fazer uma análise das trajetórias do grupo, e por fazer uma análise da trajetória do próprio espaço, tomando esse espaço como o lugar em que os sujeitos imprimem uma “lógica territorial” determinada por esquemas interiorizados da cultura (GALLOIS, 2004). E faz-se importante, à quem está submetido a uma pesquisa de reordenamento fundiário e, portanto, jurídico, sobre as terras, uma real compreensão do que o movimento de territorialização do Estado implica sobre as formas locais de apropriação das terras por
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parte dos sujeitos, o ordenamento jurídico local, e o quão esse encontro de ordenamentos pode estar assentado em uma concepção de justiça social (CARDOSO, 2008: 71).
Por isso, quando está-se diante de um movimento de reivindicação por direitos e reconhecimento de um território e de uma justiça específicos diante do Estado, faz-se necessário perceber os encaixes e desencaixes nesse movimento de desinterditar o direito, que não é senão um movimento de incorporação dos preceitos de um ordenamento jurídico extra-local (constitucional) aos preceitos dos ordenamento jurídicos locais, o que Cardoso (2008) chama de “direito local”: pensado aqui como uma das noções-chave, no domínio de um pluralismo jurídico que implode uma noção de direito como circunscrito à esfera estatal,
para o entendimento da dinâmica social dos grupos quilombolas em seus enfrentamentos a fim de garantirem a manutenção de seus territórios. Talvez, por esta razão, haja um número crescente de grupos que se auto definem como remanescentes de quilombos junto ao Estado, com o objetivo de verem suas noções de direito contempladas e para que possam assim resguardar seus territórios da expropriação histórica a que sempre foram submetidos (CARDOSO, 2008: 55).
Como veremos adiante, a adesão parcial do Morro do Boi à ação quilombola se deu por decorrência de uma inadequação entre os preceitos territoriais extra-locais de um território quilombola, baseados na inalienabilidade, imprescritibilidade, indivisibilidade e coletividade, e os preceitos locais, baseados na alienabilidade, prescritibilidade, divisibilidade e individualidade. Assim, para parcela dos moradores, lesados por inúmeros constrangimentos territoriais sofridos, não seria, neste momento de suas vidas, os preceitos extra-locais do direito quilombola o que faria com que a justiça pudesse ser feita e incorporada, o que implicou a territorialidade do Morro do Boi, no contexto da pesquisa, estar fechada. Caso contrário de Linha Fão, pois somente a ação quilombola, e seus preceitos, poderia fazer com que um direito interdito pelas regras costumeiras daquela zona rural de um município do Rio Grande do Sul, pudesse ser desinterditado: e assim incorporado um direito que, não somente se mostrava interdito, mas relativamente
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impensado, pois impossível. Um território que esteve, portanto, aberto à ação quilombola.
Além disso, é inescapável ao pesquisador do Relatório Antropológico extrair as concepções locais sobre os eventos que podem ser englobados sob o conceito de conflitos territoriais: eles compõem, nas definições nativas sobre o social, uma importância relativamente grande, por permitirem também inferir sobre aspectos fundamentais dos grupos que se propõe estudar, não só relativo aos fatores de ordem diacrônica que desencadearam episódios de constrangimento e diminuição territorial hoje traduzidos pelo termo “conflito”, mas, também, nos modos pelos quais, no tempo presente, eles a estes eventos se reportam, que tipos de teorias sobre relações evocam, implicados que estão em instrumentalizar o pesquisador àquilo que deve ou não deve ser problematizado, mostrado, dito e não dito.
No Morro do Boi, a remessa à temática dos conflitos territoriais esteve implicada em se contar histórias sobre os mecanismos que fizeram as terras, gradualmente, diminuírem: nela, as figuras estatais são atores principais dessas narrativas e concepções. Já em Linha Fão, a remessa à temática dos conflitos territoriais esteve implicada em contar as histórias sobre como, ao serem despejados das terras, os sujeitos migravam de quando em quando em busca de melhores condições de vida. Nelas, as figuras do patronato e da propriedade privada eram mencionadas. Se no primeiro as teorizações nativas recaíram sobre a trajetória da terra, onde os sujeitos estavam e as viram diminuir; no segundo estas tenderam a recair também sobre a trajetória dos sujeitos, e sua lógica itinerante.
E isso nos leva a um outro ponto implicado a um fenômeno também sociológico, relativo ao fato de as agências estatais ou os poderes públicos em diferentes níveis de participação terem, pela própria ordem natural em que foram alocadas as sociedades quilombolas de hoje na estrutura social, jurídica e fundiária brasileira, contribuído direta ou indiretamente para os eventos hoje englobados sob a rubrica dos conflitos territoriais. Isso está implicado à própria atribuição aos poderes tutelares na configuração da maior parte das comunidades quilombolas, ainda que assentadas em formas de coerção e dominação não diretamente estatais (ODWYER, 2010).
E nesse sentido as situações de pesquisa também foram esclarecedoras, quer porque no Morro do Boi tive acesso a documentação referente ao processo administrativo de indenização pela passagem da BR, que evidenciava o escamoteamento dos direitos
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acordados entre o DNER e o grupo, quer porque as fontes cartoriais do município de Arroio do Tigre evidenciavam, pela ausência de menções aos sujeitos do Fão nas documentações sobre terras, os mecanismos específicos de grilagem e expropriação pelos quais passaram e passam seus sujeitos.
O dado a se tirar é que as sociedades quilombolas de hoje só vivem como vivem – expropriadas e confinadas em lugares íngremes –, porque seus sujeitos jamais foram, no sentido pleno da palavra, sujeitos de direito para o Estado e para suas sociedades. Passa hoje, sob um plano político de uma justiça compensatória, pelo próprio pensamento estatal condenar, sob um ponto de vista moral, o que antes era a sua própria ordem natural: a escravidão e suas consequências para a invisibilidade jurídica e fundiária do negro, vistas hoje como determinantes para a condição desapossada ou expropriada dos mesmos, fundamento da política reparacionista quilombola e seus direitos territoriais estatais contemporâneos.
É por isso que as pesquisas sobre quilombos com a finalidade de subsidiar direitos territoriais devem tomar como material etnográfico, para uma compreensão dos fatores que determinaram o lugar dos seus sujeitos nas dinâmicas sociais, não somente as versões ou teorias nativas sobre episódios pretéritos que acarretaram em constrangimentos territoriais, mas também as fontes documentais localizadas em distintos arquivos. Porque essas fontes continuam a dizer muito sobre as sociedades quilombolas de hoje, mesmo quando sobre elas não dizem absolutamente nada. Assim, acessar documentos faz parte das associações que o pesquisador, para definir aquele social, tende a rastrear nessa remessa junto ao Estado, e que o pode permitir compreender aspectos não necessariamente teorizados pelos sujeitos: por ser também necessário ao cruzamento de perspectivas, do grupo e do Estado, para uma compreensão da trajetória da terra e dos eventos que culminaram em conflito territorial.
Em suma, o antropólogo dos relatórios antropológicos tende a tomar como fonte de pesquisa os papéis, os documentos de várias ordens, para que possa rastrear outras variáveis que expliquem os fatores que fizeram com que este dado sociológico que é o conflito territorial seja passível de generalização e comparação. Assim, compara-se não somente as teorias nativas sobre os conflitos, mas os procedimentos e as engrenagens dos poderes públicos e privados determinantes, direta e indiretamente, para o atual estado das coisas. Ou seja, compara-se e
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localiza-se as “perspectivas ou lógicas do Estado” e dos poderes a ele coadunados acerca dos processos vividos pelos sujeitos.
1.6. Usos e sentidos da história na antropologia dos relatórios