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CAPÍTULO III – PEDRAS NO CAMINHO

3.1. A quimera da memória

Ao fim da segunda administração, gerida por João Fernandes de Oliveira, em dezembro de 1747, o contrato dos diamantes ficou todo o ano seguinte de 1748 paralisado e em janeiro de 1749 iniciou-se o quadriênio capitaneado por Felisberto Caldeira Brant. Estavam ao lado de Felisberto outras pessoas até então igualmente estranhas ao arraial do Tijuco. Seus irmãos, Sebastião, Joaquim e Conrado Caldeira

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Brant, também estavam envolvidos no contrato como administradores dos serviços, mas o sócio de Brant era um advogado radicado em Sabará, Alberto Luís Pereira.203

Até poucos anos atrás, a historiografia brasileira reproduzia o período do contrato de Brant como um dos mais felizes da época da extração no Tijuco. A fonte deste imaginário, como já esclarecemos no capítulo anterior, foi principalmente Joaquim Felício dos Santos. O autor não se embaraçou ao escolher os tons com que pintou Brant e o tempo de sua atuação no Tijuco. De acordo com Felício dos Santos, esta foi a época mais gloriosa da história do arraial. As páginas que dedicou aos quatro anos do período em que Caldeira Brant foi contratador, levam o leitor a acreditar que esse homem foi um herói nacional.

Já analisamos nesta tese os caminhos da inspiração deste autor, que estava comprometido em contar a história do Distrito Diamantino de acordo com uma ótica muito própria de sua época. Memórias do Distrito Diamantino foi um projeto político, alinhado com as perspectivas liberais defendidas por Felício dos Santos. Este engajamento acabou por ditar as escolhas do autor, transbordando suas páginas de personagens quase irreais, de perfis bastante definidos. Os contratadores, heróis ou vilões, poderiam ser instrumentos da Coroa que aumentavam o sofrimento dos moradores da região, ou sonhadores, idealistas. Os funcionários da Coroa, ou eram grandes tiranos, cruéis algozes de uma população cada vez mais oprimida, ou apenas levianos, preguiçosos.

Apesar destas características já terem sido razoavelmente esclarecidas no capítulo anterior, não podemos deixar de, mais uma vez, retornarmos aos escritos de Felício dos Santos. O capítulo que agora iniciamos trata do período em que Caldeira Brant foi contratador. A consulta às fontes primárias realizadas para a realização desta tese apresentou resultados bastante diversos da obra de Joaquim Felício dos Santos para a construção dos anos entre 1749 e 1752.

Esta foi a época, segundo Felício dos Santos, da felicidade dos Caldeiras204. Antes de iniciar sua descrição desta fase, o autor alertou em seu texto que escrevia sobre um período mais recente, quase contemporâneo a ele, do qual ele possuía relatos fidedignos. De acordo com o autor, algumas daquelas pessoas envolvidas ainda

203

Condições do 3º contrato. Anais da Biblioteca Nacional. Op. cit. p. 153.

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viviam205

ou tinham descendentes, parentes, amigos que tinham condições de contar exatamente o que ouviram de quem estava presente durante os acontecimentos que culminaram na prisão do ex-contratador em 1753.

De acordo com Felício dos Santos, Felisberto Caldeira Brant foi, essencialmente, uma vítima. O autor construiu os acontecimentos da vida deste homem pontuando a ironia de sua fortuna. Tratava-se de uma pessoa, segundo Felício dos Santos, que foi muito rica, mas cujas vicissitudes da vida haviam conduzido à presença de indivíduos cruéis, mal-intencionados, invejosos, que não suportaram seu sucesso. Sua única culpa era ter sido liberal demais. Ter-lhe-ia faltado seriedade, não soube tirar proveito da grande riqueza que muitas vezes possuiu.206

O autor salientou que a saga desse “herói” havia começado em Paracatu. O evento do ataque ao ouvidor na comarca do Rio das Mortes, que esclarecemos no capítulo anterior, não é apresentado nos escritos de Felício dos Santos. Ao invés disso, o autor citou uma contenda ocorrida em Paracatu, que envolveu Felisberto e seus irmãos contra os cobradores de quintos. Os irmãos haviam se comprometido em defender o povo dos desmandos da Coroa, e enfrentaram os fiscais. Foi por este motivo, segundo o autor, que os irmãos Caldeira se retiraram para Goiás.207

Porém, como esclarecemos no capítulo anterior, esta não foi a trajetória dos Caldeira. Após a contenda com o ouvidor do Rio das Mortes, os irmãos se retiraram para Paracatu, mas de lá não saíram pelos motivos apontados por Felício dos Santos. Expandiram, porém, seus negócios de mineração também para o novo descoberto de Goiás, que, conforme esclarecemos, teve um papel relevante na sua condução ao contrato do Tijuco.

Ainda de acordo com Felício dos Santos, esta “primavera tijucana” experimentada durante os primeiros anos do terceiro contrato dos diamantes teve suas razões na postura imperturbável de Caldeira Brant em relação aos garimpeiros. A população do Tijuco, nas palavras de Joaquim Felício dos Santos, apresentou um enorme crescimento e uma aura de felicidade pairava sobre o arraial. O autor desenhou o perfil de um contratador permissivo, cuja ira se voltou apenas contra um cruel

205 É possível que Joaquim Felício dos Santos tenha escrito sobre a época do contrato de Brant

exatamente 100 anos após o fim dessa administração no Tijuco. A obra de Felício dos Santos foi publicada na década de 60 do século XIX, mas, obviamente, a preparação desta monumental escrita aconteceu muitos anos antes. Porém, não parece correto que as pessoas envolvidas no contrato ou que se lembrassem dele ainda estivessem vivas.

206

SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do Distrito Diamantino. Op. Cit. p. 113.

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representante da Coroa, que viria a aparecer nos últimos dois anos do seu contrato. Nos primeiros dois anos da administração de Brant, assistiu na Intendência dos Diamantes Francisco Moreira de Matos. Francisco servia como substituto do intendente falecido em 1747, Plácido de Almeida Moutoso. Porém, Francisco Moreira de Matos também era o ouvidor da comarca da Vila do Príncipe e acumulou estes dois cargos até meados de 1750.

Desta forma, na concepção de Felício dos Santos, este fiscal de caráter tolerante, que sequer residia no arraial do Tijuco, aliado à indolência do contratador Felisberto Caldeira Brant com os garimpeiros e faiscadores, trouxeram enormes mudanças nestes confins da colônia. De acordo com Joaquim Felício dos Santos, este foi um período também de florescimento cultural. O autor relatou transformações até nas vestimentas. As mulheres, segundo ele, buscavam se inspirar na moda francesa. Os homens também mudaram o modo de usar seu cabelo, e acrescentavam às suas vestes tecidos caros como seda, veludo, e indumentárias bordadas com fios de ouro e pérolas.208

Joaquim Felício dos Santos também relatou mudanças no comportamento das pessoas. Buscava-se cada vez mais, segundo o autor, o refinamento dos modos, a civilidade e a educação. Chegavam de fora grandes mestres, que se dedicavam a ensinar aos habitantes do Tijuco mais abastados e a seus filhos a educação formal. Preocupações até então inéditas naquele lugar, como a atenção à etiqueta durante o jantar, tornaram-se motivos de discussão entre as melhores famílias.209

Tudo isso teria sido capitalizado pelo espírito jocoso e frívolo do comandante do contrato.

Apesar de não termos encontrado em nossa pesquisa nada que descreva o estado social do Tijuco durante o tempo em que Felisberto Caldeira Brant foi contratador da forma como fez Felício dos Santos, não é difícil imaginar que parte dessas características descritas pelo autor possam ter, de fato, ocorrido. Conforme iremos esclarecer ao longo deste capítulo, Brant formou no Tijuco e além dele uma rede de contatos que agregava seus habitantes numa perigosa aliança. Sua fortuna foi, de fato, muito grande e para a sua integração social sempre contou com esta rede de indivíduos que dependiam dele e forneciam-lhe assistência. Também não parece ter havido desavenças entre Brant e o intendente e ouvidor Francisco Moreira de Matos, que serviu nos dois primeiros anos do terceiro contrato.

208

Idem, p. 116.

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Porém, a consulta às fontes primárias permitiu demonstrar que a dita felicidade experimentada no Tijuco nos anos do terceiro contrato dos diamantes foi aproveitada por poucos, e por pouco tempo. Conforme procuraremos demonstrar neste capítulo, o tempo do contrato de Brant no Tijuco também foi marcado pelo uso da violência e pelo temor ao contratador.210 Felisberto Caldeira Brant em quase nada se assemelhava ao homem descrito por um nostálgico Joaquim Felício dos Santos. Conforme dissemos no capítulo anterior, este indivíduo traçou seu caminho até um dos mais importantes monopólios régios através de sua capacidade de fazer chegar a ordem a paragens que a Coroa não conseguia. Sua linguagem foi a da violência e os eventos narrados no presente capítulo mostram que durante suas atividades como contratador isso não mudou. Mas as coisas começariam a se complicar no final do segundo ano do contrato de Felisberto Caldeira Brant.