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A RACIONALIDADE DO DESIGNER

No documento Download/Open (páginas 43-48)

A maneira de pensar do designer é uma tentativa de romper o raciocínio lógico linear da ciência, da engenharia e dos métodos de gestão e embora o processo de Design

Thinking seja apresentado em sucessivas etapas ele é melhor pensado como um sistema de espaços sobrepostos ao invés de uma sequência de etapas ordenadas. Assim, orientando-se pelo processo do Design Thinking há três espaços a se ter em mente: inspiração, ideação e implementação. A inspiração é colocada como o problema ou a oportunidade que motiva a busca de soluções; a ideação como o processo de geração, desenvolvimento e teste de ideias; e a implementação como o caminho que leva do estágio do projeto à vida das pessoas (BROWN, WYAAT, 2010). A razão para chamar esses processos de espaços, em vez de etapas, é que nem sempre são realizadas sequencialmente. No processo de desenvolvimento dos projetos se pode reverter a inspiração, ideação e implementação mais de uma vez, pois durante o processo o designer ou a equipe aprimora suas ideias e explora novas direções. E por isso, não surpreendentemente, Design Thinking pode parecer caótico para aqueles que o fazem pela primeira vez. Mas, conforme defende Brown e Wyaat (2010) ao longo do percurso de um projeto, os participantes conseguem ver que o processo faz sentido e alcançam resultados, mesmo que sua forma seja diferente do processo linear, baseado em marcos, que as organizações costumam realizar.

Assim, a abordagem proposta nesses espaços, já citados anteriormente, surge para entender os processos mentais que ocorrem com as pessoas diante de problemas sejam eles bem definidos, mal definidos e os problemas incômodos, aqueles tão confusos ou obscuros que as soluções apontadas não, necessariamente, são corretas ou incorretas, porém, consideradas mais ou menos plausíveis (NITZSCHE, 2012). Nesse sentido, Cross (2011), em sua obra titulada “Design Thinking”, tem como principal objetivo descrever a forma em como os designers trabalham durante a atividade de projeto, a fim de discutir e compreender a natureza da habilidade do design, como a competência cognitiva e criativa, para encontrar soluções para problemas muitas vezes com alto grau de complexidade.

Em seu estudo, o autor cita que em sociedades baseadas no artesanato, a concepção ou projeto de artefatos não era separada do ato de fazer - ou seja, não havia uma etapa projetual anterior à etapa de execução do artefato em si, ou seja, objeto era modelado simultaneamente a ação de pensar o objeto.

Nesse sentido Nitzsche (2012), considerando, inclusive, o homem pré-histórico, sugere que o processo do Design Thinking existe desde que o design começou a ser praticado há muitos milhares de anos. Mesmo naquele tempo, nem existindo a palavra ou a intenção do design, nem uma linguagem complexa, nem mesmo o homo sapiens. Aquele mesmo homem, ou pré-homem, usando de um artifício ou estratégia repetidas vezes (como bater uma pedra em outra), estava criando um método de design para produzir um instrumento pontiagudo, com uma finalidade cortante ou intimidante a partir de uma pedra comum. Segundo o autor, embora fosse uma metodologia primitiva e pouco complexa, se formos empáticos perceberemos que ela, lentamente inventada, era sofisticada para a época (NITZSCHE, 2012).

Assim, Nitzsche (2012, p. 29) coloca que design constitui “uma capacidade

espontânea da espécie humana: design é tornar tangível uma intenção de transformação. A partir desse ponto de vista, o design seria a habilidade do homem de materializar seus pensamentos”. Portanto, habilidade do design é algo que todos possuem em certa medida, uma vez que é incorporado em nossos cérebros como uma função cognitiva inerente. Esta, como outras formas de inteligência e habilidade, pode ser natural ou manifestada em níveis mais elevados em alguns indivíduos do que em outros. Além do mais, a inteligência do design não é simplesmente um talento dado ou um dom, mas pode ser treinado e desenvolvido - caso contrário não haveria

razões para a existência de escolas de design (CROSS, 2011). No caso do Design

Thinking, o termo também se refere ao complexo processo mental que o projeto contemporâneo exige do designer.

Cross (1999), sustenta o argumento de que mesmo sendo possível que qualquer pessoa seja um designer, isto não significa que esta seja uma atividade simples. Para o autor o que ocorre é o contrário, pois projetar é uma atividade complexa uma vez que, converter esta inteligência natural altamente desenvolvida em inteligência artificial é um grande desafio.

De um modo geral o Design thinking vem sendo estudado como um tipo de pensamento que usa o design como ferramenta de trabalho mental de uma forma holística. Se considerarmos os dicionários ingleses podemos encontrar como significados correlatos: para pensar em algo (thinking of), podendo ser também imaginar, visualizar e até sonhar. Pensar sobre algo, como um problema (thinking

about), parece ser uma atividade na qual se considera, se reflete e delibera. Já pensar através de algo (thinking through) é entender, compreender, descobrir. Na opinião de alguns pensadores, o design thinking parece abranger todas essas qualidades interpretativas (NITZSCHE, 2012).

Assim, adotar essa maneira de pensar proposta no Design Thinking é adotar o raciocínio abdutivo em cenários de criação de conhecimento e criatividade, o raciocínio abdutivo torna-se a princípio elementar de todas as atividades. É o raciocínio abdutivo que permite distinguir a diferença entre fazer errado e entender errado. É o raciocínio abdutivo que abre espaço para a compreensão de um fenômeno

e para a projeção mental de futuras atividades (MARTINS FILHO, 2016). Para Cross

(1999; 2011), o que explica o processo racional do design é o pensamento abdutivo – no qual consiste na lógica do design, passo necessário desde a forma à função. Peirce et al (1935), na década de 30, já propunham três maneiras de chegarmos a interpretações por raciocínio puro: A Dedução, a Indução e a Abdução, é o raciocínio abdutivo que demonstra sua maior relevância quando sucede uma dedução que pode ser inferida. Peirce, afirmava não ser possível provar com antecedência “um novo pensamento, conceito ou ideia: novas ideias só podem ser validadas com o desenrolar dos eventos futuros” (TEIXEIRA, 2014).

Seguindo ainda a lógica peirciana, devemos tentar nos afastar de definições que sigam um padrão da prova e certeza colocada no passado, iniciando a análise do problema, nos perguntando “o que poderia ser?”. A resposta, surgiria quando déssemos um ‘salto lógico da mente’ ou fizéssemos uma ‘inferência à melhor explicação’ e imaginássemos uma heurística para entender o mistério” (TEIXEIRA, 2014). Assim, segundo esse autor o raciocínio por dedução começa a partir de um estado hipotético de regras ou elementos absolutos que definem aspectos abstratos. O raciocínio por dedução elenca premissas ou pressupostos que conforma as possibilidades de realidade das coisas que existem no mundo fora da mente. Portanto no raciocínio por dedução, consideramos que independente das possibilidades, há algo na hipótese criada que será invariavelmente verdadeiro. Ou seja, nenhuma hipótese pode ser criada a partir de algo que não seja absolutamente verdadeiro e universalmente absoluto.

Já o raciocínio por indução ou raciocínio indutivo tem como base a investigação experimental de probabilidades que definem uma teoria geral. O raciocínio por indução considera verdade qualquer conclusão passível de descrição de maneira que apresente uma regularidade tendente ao infinito desde o princípio dos experimentos. A indução consiste em adotar uma teoria geral como base de início, e a partir dessa base teórica, deduzir previsões e observar o quanto essas previsões são próximas ou exatamente iguais a teoria geral.

Já o raciocínio por abdução, ou raciocínio abdutivo é o processo exploratório de formação de uma hipótese. Se o raciocínio dedutivo prova que algo deve ser e o raciocínio indutivo mostra que algo é factivelmente operativo, o raciocínio abdutivo sugere o que algo pode vir a ser. O raciocínio por abdução é dependente apenas de sugestões, e não depende de razões verdadeiras. O raciocínio abdutivo consiste em agrupar ideias que nunca foram imaginadas juntas antes, compondo novas sugestões contemplativas. A questão fundamental a respeito do raciocínio abdutivo é que sua conclusão é sempre problemática e conjectural, não sendo absoluta ou completa (PEIRCE; HARTSHORNE; WEISS, 1935)

Convergindo para os aspectos de criação do conhecimento, é o raciocínio abdutivo que possibilita o questionamento de premissas e pressupostos para novos raciocínios de induções e deduções na criação de novas fórmulas e generalização de resolução de problemas (MARTINS FILHO, 2016).

Nitzsche (2012, p. 33) cita que este tipo de pensamento se caracteriza como “um movimento para fora do trajeto regular, um desvio de um pensamento tradicional, como uma permissão para se passar ao largo da premissa à conclusão sem usar caminhos esperados”. Mesmo considerando, a existência e a importância dos pensamentos dedutivos e indutivos - que compreendem raciocínios analíticos que preveem e explicam fenômenos já existentes, Dorst (2010) corroborando com o exposto, também ressalta que para a criação de coisas novas e de valor, o padrão é o pensamento abdutivo.

Nesse sentido, Vianna et al (2012) afirmam que esse o raciocínio abdutivo é pouco convencional no meio empresarial e busca formular questionamentos por meio da compreensão dos fenômenos, pensando de tal forma o designer desafia padrões e

transforma oportunidades em inovação (VIANNA et al., 2012).

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