Tal como outros tipos de museus científicos, como os museus e centros de ciência12e os museus de história natural,13as últimas décadas têm sido marcadas por um acentuado crescimento e renovação dos museus de me- dicina. Uma renovada atenção à preservação do património científico, aliada a preocupações de promoção da cultura científica, tem levado tanto à revitalização de museus já existentes como à formação de novos museus. No caso do Museu de História da Medicina Maximiano Lemos, sob a actual direcção (Amélia Rincon Ferraz) tem sido reforçada a compo- nente de investigação em história e musealização da medicina, com o res- tauro de peças e no inventário e catalogação do acervo.14O Museu con- tinua a receber espólio proveniente dos vários serviços da Faculdade e Hospital, doações de médicos e ofertas de instituições congéneres. A exposição tem sido alvo de alguma reorganização, com o objectivo de potencializar o seu cariz didáctico. O museu é visitado não só por alunos da FMUP como por grupos escolares do ensino secundário e especialistas estrangeiros. Segundo a sua directora, «a função primordial do museu é apoiar as aulas teóricas com o seu potencial iconográfico. A compreensão das teorias médicas, do progresso tecnológico e da história e evolução dos instrumentos médicos e cirúrgicos torna-se mais fácil pela disposição das
12Ana Delicado, «Os museus e a promoção da cultura científica em Portugal». Sociologia
Problemas e Práticas, 51 (2006).
13Ana Delicado , «For scientists, for students or for the public? The shifting roles of nat-
ural history museums», HOST Journal of History of Science and Technology, vol. 4, (2010).
peças em exposição» mas também «é nosso dever preservar, alargar e re- velar o importante espólio de material histórico disponível na FMUP».15 Em Coimbra, o Museu da Ciência, constituído em 2004 com o ob- jectivo de reunir todos os acervos museológicos da Universidade, tem em curso a inventariação da colecção de medicina, constituída não só pelo Museu de Anatomia Patológica, mas também da instrumentação e equipamento usados nos vários departamentos, espécimes anatómicos e um herbário.16
Em Lisboa o projecto de constituição de um Museu de Medicina in- tegrado na FMUL foi retomado em 2003, partindo da iniciativa de Mar- tins e Silva e de Manuel Valente Alves, seu actual director. Pretendendo reunir os vários acervos históricos pertencentes aos diversos institutos, clí- nicas e laboratórios da Faculdade (procedendo à sua sua inventariação e catalogação), está prevista a sua instalação num edifício a construir nos terrenos do Hospital de Santa Maria. O programa museológico visa tecer pontes entre arte e ciência (e entre as diversas ciências, naturais e sociais), criando «um laboratório, um centro de circulação de informação e geração de conhecimento e ideias, aberto à multiplicidade de cruzamentos que hoje a investigação interdisciplinar permite fazer, a partir das especificida- des da arte e da ciência».17Em 2005 o Museu organizou a sua primeira exposição, Passagens, 100 peças para o Museu de Medicina, em parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga, combinando peças técnico-científicas com peças de arte, e em 2011 uma outra exposição temporária, Gabinete
de Anatomia: Arpad, Vieira e os Desenhos Anatómicos do Museu de Medicina.
No âmbito não universitário, é também notório um acréscimo de preocupação com a salvaguarda e musealização do património médico. Em Lisboa, a par do presente projecto de musealização da colecção der- matológica do Desterro, tem-se procurado salvaguardar as colecções dos vários hospitais civis, já encerrados (Hospital do Desterro, Hospital Mi- guel Bombarda) ou em vias de encerrar (Santa Marta, São José), o que
15Maria Amélia Ferraz, «The Maximiano Lemos History of Medicine Museum, sixty
years of existence», in Homenagem ao Professor Doutor Luís de Pina. (Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1998), 129-130.
16Pedro Casaleiro, «A reorganização das colecções da Universidade de Coimbra, Museu
da Ciência», in Actas do I Seminário de Investigação em Museologia dos Países de Língua Portuguesa
e Espanhola, vol. 1, coord. A. Semedo, E. N. Nascimento (Porto, Universidade do Porto, Fa-
culdade de Letras, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, 2010).
17Manuel Valente Alves, «Museu de Medicina da FMUL», in Circulação, ed. M V. Alves
já levou à constituição de um Núcleo Museológico no Hospital dos Ca- puchos, a assinatura de protocolos com equipas universitárias e uma de- claração do ICOM-Portugal, intitulada «Preservação e Valorização do Património da Saúde na Colina de Santana, Lisboa» (Janeiro de 2011). No Porto, a organização da exposição Olhar o Corpo, Salvar a Vida (2007) no Hospital de Santo António suscitou um projecto de constitui- ção do Museu do Centro Hospitalar do Porto, tendo por missão «a ce- lebração da memória da instituição e da Medicina, dando a conhecer […] a História da Medicina/ciências da saúde em Portugal e, por outro, destacando a capacidade de liderança e comprometimento desta insti- tuição para com a educação e a investigação», assim como assumir «a sua vocação de serviço público em termos da educação e qualidade de vida, informando, explicando, explorando e discutindo princípios e práticas clínicas, participando plenamente na construção quer da cidadania activa quer de estilos de vida mais saudáveis».18Formalmente constituído em
Figura 4.1 – Aspecto da Exposição da Colecção Dermatológica do Desterro, Setembro de 2010
18Sónia Castro Faria, «O Objecto e os Museus de Medicina» (tese de mestrado em Mu-
2008 e com um programa museológico concebido por Alice Semedo, não dispõe ainda de espaço expositivo, mas tem desenvolvido actividades de inventariação e gestão das colecções e apresenta uma «exposição des- centralizada» sobre objectos médicos no átrio e anfiteatro do Hospital.
O INSA também recentemente reactivou o seu projecto museoló- gico, institucionalizado através da lei orgânica do Instituto.19O Museu destina-se então à «promoção da difusão da cultura científica e conser- vação do património histórico»,20pelo que «cataloga, preserva e expõe espólios no âmbito da saúde e organiza exposições temporárias ou per- manentes sobre temas da saúde».21A primeira fase consistiu na abertura, em 2009, de um pólo museológico no Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas Francisco Cambournac em Águas de Moura, Pal-
19Decreto-Lei n.º 271/2007.
20Despacho Normativo n.º 15/2009.
21Portaria n.º 812/2007.
Figura 4.2 – Maleta para consulta domiciliária ou trabalho de campo, pensa-se que terá pertencido ao Prof. Francisco Cambournac, médico epidemiologista e tropicalista que se destacou, sobretudo, no campo da Malariologia; MS.ATF.00320; Museu Virtual da Saúde, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge
mela, no âmbito de uma parceria com a câmara municipal local, dedi- cado à história da erradicação da Malária em Portugal. O Museu da Saúde é composto por outros pólos, em Lisboa e Porto e por um museu virtual, tendo também já organizado exposições temporárias.
Por fim, há a mencionar a apresentação de exposições dedicadas ao tema da saúde ou do corpo humano noutras instituições. O Museu de Ciência da Universidade de Lisboa inaugurou em 1995 a exposição Si-
dadania, uma exposição sem nada de mal (a primeira exposição concebida
sobre o tema da sida por um museu científico) e em 2008 a exposição
Saúde e Medicina em Portugal e no Brasil, organizada pelo Alto Comissa-
riado da Saúde para celebrar os 200 anos da chegada da Família Real ao Brasil. O MCUL estabeleceu ainda uma parceria com o Instituto Bac- teriológico de Câmara Pestana e com o Centro Hospitalar de Lisboa Central para a inventariação e musealização das suas colecções.
Tem igualmente havido exposições dedicadas à temática da medicina e saúde nos centros de ciência da Rede Ciência Viva, distinguindo-se pela predominância de dispositivos interactivos. No Pavilhão do Co- nhecimento foram apresentadas as exposições O cérebro (2000), Debaixo
da pele (2000), Uma questão de sexo(s) (2006), Knojo! A ciência indiscreta do corpo humano (2007), Sexo e então (2010) e CorpoIMAGEM - Representações no Corpo na Ciência e na Arte (2011). O Exploratorium de Coimbra abriu
em uma exposição permanente intitulada Em boa forma com a ciência e está também em preparação no Porto um Centro Ciência Viva dedicado às ciências da saúde, com a colaboração do Instituto de Patologia Mo- lecular e Imunologia da Universidade do Porto (IPATIMUP).
Sintomática também da valorização do património médico e do tra- tamento museográfico da temática da saúde foi a organização da expo- sição Corpo: Estado, medicina e sociedade no tempo da I República em 2010. Promovida pela Comissão Nacional para as Comemorações do Cente- nário da República, a exposição «concentra-se na relação dos médicos e do seu saber com a sociedade e não esquece as doenças e as políticas de saúde na I República».22
22Maria Rita Lino Garnel, «Introdução», in Corpo: Estado, medicina e sociedade no tempo